Que não me tremam as mãos

“O cabelo branco que se desenvolve vorazmente sobre meu ovo é assustador e fantasmagórico, como disse antes, um Alien. Com indisfarçável ansiedade, procurei ontem um atendimento numa UPA do SUS. Passadas seis horas de espera foi finalmente chamada a minha vez para consulta. O médico: _ E aí… Que te traz aqui? Ele ouviu a minha primeira frase relatando o advento inesperado do cabelo no ovo. Interrompeu o meu relato com firmeza e segurança assegurando-me tratar-se de caso grave e raro, portanto, de difícil solução”.

Por Mohammad Jamal.

Socorro tem uma Alien aqui embaixo. Que não me tremam as mãos, tampouco que o medo do desconhecido, do inumano, obscureça o meu raciocínio nesse momento em que confronto hirto de pavor esse fenômeno supra-humano que se abate devastador sobre o meu equilíbrio, ameaçando meu discernimento e razão intelectual. É sério. Sinto tremer de pavor todo o meu sistema nervoso central como se um inverno austral me enregelasse por dentro a ponto de fazer brotar cristais de neve sobre a minha pele. Respiro profundamente e revelo meu desespero existencial em profundo estado de pavor e apreensão.

Sabotagem no ovo. Hoje cedo, logo ao despertar nessa madrugada, quando finalmente arregimento forças para levantar o meu pesado corpanzil da cama, eis que, já sentado, despido fito de soslaio “minhas partes” e assustado, me deparo com um estranho cabelo banco, ao que transparece viçosamente brotando solitário no meu ovo! Num reflexo auto protetivo, muito rapidamente, chocado, fito meu olhar sobre a mesinha de cabeceira onde algumas flores agonizam murchas, desbotando sua seiva na agua apodrecida de um jarro de vidro. Há uma implícita correlação entre os cenários, algo ao estilo das incertezas vagas e colóquios inesperados de Kafka e as narrativas mórbidas de Edgar Allan Põe, mestre ao nos incutir o medo do vazio. Em Compunção, volto a fitar o fúnebre cenário montado sobre o meu ovo direito. Horror e estupefação me dominam. Ele está lá.

Meus documentos em grave ameaça. Álien, meu primeiro passageiro solitário, está lá firme e forte, bem fincado no rugoso tecido escrotal cravando profundamente suas raízes quiçá, com pretensões de infiltrar meu epidídimo, meu tecido testicular, incrível. Temo que ele planeje sabotar minha hirsuta masculinidade emasculando-me na androginia dos gêneros.

Anatomia de um criminoso. Solilóquio – Penso sobre o fantasmagórico cabelo: curto, grosso, branco como as neves do Himalaia, infiltrando raízes, sugando minhas seivas, gorando meu ovo e que, vasectômico, vai secando minha prolificidade em direção a mais absoluta infertilidade. Filhos, nunca mais. Mas conforta-me que não serei mãe, jamais. Não suportaria as dores do parto ou um marmanjo sugando os mamilos do meu tórax atlético cobertos por pelos negros lustrosos, coisa que as mulheres adoram acariciar e se excitam. Ah isso não, definitivamente não.

Ele, Ivã o terrífico, o Gengis Khan, o flagelo de Allah? O cabelo branco que se desenvolve vorazmente sobre meu ovo é assustador e fantasmagórico, como disse antes, um Alien. Com indisfarçável ansiedade, procurei ontem um atendimento numa UPA do SUS. Passadas seis horas de espera foi finalmente chamada a minha vez para consulta. O médico: _ E aí… Que te traz aqui? Ele ouviu a minha primeira frase relatando o advento inesperado do cabelo no ovo. Interrompeu o meu relato com firmeza e segurança assegurando-me tratar-se de caso grave e raro, portanto, de difícil solução. Que eu deveria procurar em grandes centros de São Saulo-SP hospitais padrão Sírio & Libanês, Albert Einstein, etc. Pensei “tô fodido”, lá não atende o Plano SUSto.

O avanço do Filisteu. Estou ficando cada dia pior. Parece que o fatídico cabelo branco sobre nosso ovo lança suas raízes por todo o meu corpo. Estou ofegante, tenho acessos de pigarros, tosse, falta de ar. Meu medo maior é que essas raízes infiltrem meu cérebro impedindo-me de pensar e reagir racionalmente. Forçado pelas circunstâncias, com alguma coragem e minhas parcas economias, arrisquei um atendimento no Hop. Santa Marcelina em Sampa. Vou sintetizar minhas desventuras: O médico paulista: _ É cirúrgico. Uma grande intervenção. Vamos dissecando com bisturi elétrico e a lazer removendo uma por uma as raízes que forem possíveis remover. O resto vai ter que ficar por aí para esperarmos a evolução do seu quadro. Vai encarar? Não. Claro que não. Até já estou pensando num receituário agrotóxico emitido por especialista para borrifar esse cabelo branco com herbicida. O presidente liberou muitas substâncias químicas para uso na agricultura! Quem sabe esteja aí a salvação do meu ovo?

Um apóstolo do apocalipse. Melhor dizendo, um agourento urubu. Um desses negativistas de plantão confidenciou-me circunspeto: talvez o cabelo no seu ovo não seja branco, mas albino! O albinismo é um distúrbio congênito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina. O albinismo resulta de uma herança de alelos de gene recessivo e é conhecido por afetar todo o reino animal. Em algumas partes do mundo, albinos são mutilados e têm as partes de seus corpos utilizadas em rituais de “bruxaria”. No mercado ilegal, um cadáver inteiro chega a custar 75 mil dólares. Crianças são vítimas preferenciais devido à crença de que sua inocência tornaria poções mágicas mais poderosas, o que não é o caso do seu ovo com um cabelo albino, que não é nenhum santo e muito menos puro ou virgem. Tenha cuidado pra não arrancarem o ovo na tora para algum ritual. Vai te lascar infeliz. Enfia suas teorias nalgum lugar outrora corrugado vai…

O racionalismo e o empirismo demostram mudanças surpreendentes. O primeiro está associado a razão humana (considerada uma extensão do poder divino), e o segundo é baseado na experiência. Mas nada melhor que o tempo bem refletido, a introjecção do pensamento, o exercício criativo que nos suscita a literatura, o academicismo das suas formatações genéricas, seu conteúdo denso em dramas existenciais, conflitos e contrapontos indefiníveis, colóquios vazios, ficções.  Tal como me debrucei sobre esse ovo metafórico solitário vítima da gênese fatídica de um cabelo banco em suas terras corrugadas. Com alguma admiração e o devido respeito, nosso ovo, objeto desse breve conto/ficção, era tido como a virgem dos lábios de mel o foi em Iracema, de José de Alencar. Mesmo sem nenhuma correlação himenial, não caberia, o vimos como à virgem que é comparada à natureza, os lábios mais doces do que o mel da Jati, os cabelos negros como a graúna. E esse Romantismo se deveu à virgem porque, aludido ovo com cabelo que também possui sua seiva mágica geradora de vida, a exemplo da virgem, que guardava o segredo da Jurema (poção mágica dos índios Tabajaras), entrega-se de corpo e alma ao colonizador Martim (numa alusão a Marte – deus da guerra). Matou? Pois é.

Pão e Ovo. Epílogo. Lá dentro, bem fundo no meu cérebro alguém grita muito alto e evocativo, quase onomatopeico, não em árabe ou farsi o meu nome. Não sei de onde nem como isso soa no meu consciente. Mas começa aos poucos a se definir audíveis as palavras gritadas, ao que me transparece, em erudito “baianês”… Mamede… Mamede meu nego… Vêm tomar café! Já fritei seus ovos.  Pois é parece que acordei do meu sonho ficcional para uma amarga realidade tostada na manteiga. Vige! Imagina.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



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