Do Pudor, dos falos dos anjos e de Aristóteles: um strip-teaser imoral

“É impossível se arrepender de um arrependimento. Esse sentimento é protegido de si mesmo, foi feito para ficar, pois querer que ele desapareça é desejar a recorrência do erro e, portanto, a reaparição do mesmo arrependimento. Arrepender-se é manter friamente o ato que o gera em sua própria esfera de cometimento; é, simultaneamente, o espelho, a face do erro e a reflexão de um no outro. Esse modelo metafísico filosófico refletido ou projetado, às vezes ofuscante, outras embaçado, densamente opacificado e supostamente imperscrutável que acomete alguns homens públicos; esse embarcamento densamente opacificado que administradores públicos interpõem zelosamente como tapumes obstrutores à antevisão das suas personalidades e condutas tal quanto à interpretação e leitura das escriturações contábeis dos seus gastos, são caracteristicamente circunstanciais”.

Por Mohammad Jamal.

Adão e Eva eram nus sem o saber. Aí souberam demais. Uma vez sabedores, tinham tudo a esconder e se arrependeram de estar nus. O arrependimento é o desejo de não ter feito algo, encurralado, por um lado, pelo fato “desse” algo ter sido feito, e por outro, pelo incontestável desejo de não mais fazê-lo. Alain Badiou diz que “jamais há nudez no teatro, tampouco, mas trajes obrigatórios, a nudez sendo ela própria um traje, e dos mais vistosos”. Há nudez apenas no pensamento, não na natureza. E como o pensamento é algo humano, só há nudez humana. Entretanto, o que há, para nós, nessa nudez exclusiva, que demanda constante cobertura? Seria a nudez vergonhosa por natureza? “Vergonha de que?”, pergunta-nos Derrida; “Vergonha de estar nu como um animal”, responde o filósofo. A nudez do animal é seu nome, sobrenome e, sobretudo o seu ser. Já para o homem, nome e o sobrenome são as primeiras vestimentas com as quais o seu ser naturalmente despido é definitivamente encoberto. Essa primeira fantasia nominal, por sua vez, é customizada a partir dos andrajos da cultura, e, uma vez em tais hábitos abstratos, as demais vestes concretas são apenas as efêmeras películas com que o homem impermeabiliza-se ainda mais contra a própria natureza humana.

 É impossível se arrepender de um arrependimento. Esse sentimento é protegido de si mesmo, foi feito para ficar, pois querer que ele desapareça é desejar a recorrência do erro e, portanto, a reaparição do mesmo arrependimento. Arrepender-se é manter friamente o ato que o gera em sua própria esfera de cometimento; é, simultaneamente, o espelho, a face do erro e a reflexão de um no outro. Esse modelo metafísico filosófico refletido ou projetado, às vezes ofuscante, outras embaçado, densamente opacificado e supostamente imperscrutável que acomete alguns homens públicos; esse embarcamento densamente opacificado que administradores públicos interpõem zelosamente como tapumes obstrutores à antevisão das suas personalidades e condutas tal quanto à interpretação e leitura das escriturações contábeis dos seus gastos, são caracteristicamente circunstanciais.

Gato escondido, e o rabo? Os elementos linguísticos presentes nas escriturações tentam disfarçar ou justificar as aplicações das verbas “carimbadas” para os fins que não àqueles a que foram previamente destinadas. A ocultação dos apontamentos e destinações das receitas tributárias; dos repasses financeiros federais e estaduais que dão justificativa aos gastos com o dinheiro público, o erário, são lugar comum por aqui. Fica sabido, portanto, que o cometimento de tais omissões corriqueiramente usuais, já não nos estarrece. Quem nunca comeu carne de iaque do Himalaia jamais sentirá falta do seu sabor! Ou não? Comeu?

VIP Eu? Há algo exemplar oportunamente bem pinçado no estiloso e seletíssimo Condomínio Moradas dos Deuses. Aqui mesmo, no nobre bairro Teotônio Vilela, à Alameda Cleveland da Silva, na península do Barro Vermelho. Condomínio Classe A, com seguranças 24 horas; várias piscinas; campos de futebol, de polo, de golfe, tênis; com cavalariças e pistas para equitação, saunas e academias próprias, atracadouros para lanchas, heliportos, etc. e as porras. Aqui o síndico também age assim! Nenhum condômino consegue saber onde estão ou para onde foram as vultosas quantias arrecadadas em nossos bolsos Vips!

Um Chapéu, só isso. Relembramos que da última vez, com a ajuda de uma viatura com quatro parrudos policiais armados, forçosamente nos foi dado a conhecer umas poucas contas e balancetes da Morada dos Deuses, povoados por “despesas” bizarras, a saber: notas de hospedagens na suíte Kama Sutra do Motel Tibúrcius Inn; 6.500 cordas de caranguejos negros do Cazaquistão; 18 mil Reais em implante de cabelos; várias despesas médicas, a maioria para cirurgias plásticas na estética vaginal; alongamentos e Mega Hair, despesas com ex-votos para Baco e, por aí vai. Mas tudo foi singular e exemplarmente justificado e acatado sem restrições pelo Conselho Fiscal à época; tipo esses que proliferam por aí.

“Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.” (Michel Camus). Ora, todos nós sabemos dos escapismos metodológicos e das recursalidades judiciais largamente usadas e abusadas enquanto permissionárias, a fim de que políticos em cargos no executivo ou legislativo, derrapados em barbeiragens financeiras com dinheiro alheio, escapem incólumes através as largas malhas da lei. Há algo de podre no Reino democrático do Brasil! Vamos aludir a uma suposta presunção da lógica; uma antevisão bem simplista; como se uma espécie de corno “médium”, daquele que recebe dos espíritos de luz, avisos premonitórios de que Ricardões estão saltando o muro para cima da sua Inez de Castro. Explico: porque administradores e legisladores, representantes do povo, sempre optam por manter inacessíveis aos olhos dos seus representados a visão dos balancetes e prestações de contas de exercícios findos? Outrossim, corajosamente, preferem enfrentar a minuciosa visão analítica e a crítica rigorosa dos órgãos corregedores tipo Câmara de vereadores; Controladorias, Tribunais de Contas dos Municípios; CGU; Ministério Público, etc.?

Pulgas, Carrapatos, Chatos, piolhos… Peculídeos… pediculoses. Aí fica aquela enorme pulga do tamanho de um jabuti cavoucando atrás das nossas orelhas, expondo-nos ao difícil conjecturar sobre incessantes probabilidades e decorrências como se numa sequência de Fibonacci. Nas Câmaras Legislativas digam-se, rigorosíssimas, transparece-nos uma relativa maleabilidade argumental que alguns mornos ajustamentos políticos flexibilizam em pareceres retóricos sintéticos e concluem por harmonizar valores e enunciados de gastos bizarros entremeados por extravagâncias e perdularismo, como se estando adequadamente inseridos de coerência legal e em respeito às normas contábeis, por isso, aprovam-nos por maioria votante!

O Talião daqui é um doce, virgem, cabaço! Nos demais Institutos de fiscalização, tipo controladorias e correições, pressupomos que uma benevolente pressão política veemente e insidiosa, haja relativizado em flexível amolecimento o caráter imparcial das visões analíticas sobre contas viciosas, derrapadas, etc… Porque não valer-se da força do corporativismo amigo no âmbito do cartel dos analisados em benefício e gáudio dos seus gastos suspeitos? Às vezes heroicos corregedores radicais desgarrados, mártires, até condenam minguadas contas, desaprovando-as e rejeitando-as peremptoriamente e, raras vezes, também autuam alguns gestores, expedindo multas razoáveis e exigindo a reposição devolutiva dos valores injustificados com gastos sem razões plausíveis ou mínimo contingenciamento prévio! Mais fica só nisso mesmo. Nunca nos ocorreu saber que alguém por lá tenha quitado uma multa sequer ou muito menos ressarcida o erário levianamente perdularizado ao revés e prejuízo do povo, seus mantenedores.

Teje preso; em casa. Em situações extremas, quando o Ministério Público denuncia o suposto desencaminhador de recursos públicos a provar em juízo a legalidade de como gastou nosso dinheirinho e, ao meritíssimo juiz a quem cabe acatar ou refutar a denuncia. Aí então vêm desarme uma sequência das tais recursalidades que remontam dezenas de óbices legais, prazos regimentais, agravos, foros superiores, nulidades, etc. que permitem caducar à prescrição, processos que sequer chegaram à fase de instrução ou sentença, em razão da volumosa sobrecarga de autos, litígios, pleitos judiciais, etc. que sobrepesam a capacidade operacional do judiciário.

Beócio, Curto de inteligência; ignorante, boçal, simplório, ingênuo, eleitor. Pelo que entendemos o pior dos censores e, aquele mais atemoriza nesses casos, é o povo; que muito embora não podendo “deselhege-los” do cargo mamado com nosso voto, vai ficar aí pelas ruas e esquinas futricando aleivosias a bocarras que o prefeito, o deputado ou o vereador fulano “meteu a mão com gosto de gás!”. E isso emporcalha a imagem publica de políticos do bem (*) tanto quanto daqueles que só metem a mão com gosto de gás, se resguardados por comedida e precavida discrição, com critérios de elegância e bons modos à mesa do povo, onde a comida às vezes é pouca por isso, impera discreto o jargão “Com licença. O meu primeiro”. Ou não?

Assim, a transparência omitida, essa catarata ocular que impõe fumaça e spray de pimenta aos olhos e consciente coletivo do povo enquanto eleitor e nos obstaculiza o conhecimento das condutas perniciosas, dos atos e fatos que comprometem danosamente os direitos e interesses da nossa população para que, só tardiamente, quando já reincidentemente cometidos, portanto, já tendo produzido seus irremediáveis danos coletivos, possamos nos dar conta de tudo àquilo que foi amputado dos nossos direitos e prerrogativas constitucionais e, transplantados indevidamente para alienistas no poder. Meus bagos? Vem não. Ninguém tasca. Vou morrem com eles!

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



One response to “Do Pudor, dos falos dos anjos e de Aristóteles: um strip-teaser imoral

  1. Fujam para as montanhas…

    O diagnóstico está claro… Mas, como vai ser o tratamento? Quem cuidará? O eleitor? O fiscal? O juiz? O literato?

    E vai “tratar” para quem aproveitar?… E como?

    Se a solução não pode ser entendida pelo povo… Então, não é solução… É vaidade de um ditador…que pode estar ou não temporariamente exercendo poder…

    Somos absurdos e sempre seremos… até a morte… No intervalo podemos nos divertir… escrevendo ou lendo…

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