Rumos equivocados para um Brasil sustentável e promissor

Eles passarão, mas sobrará política ambiental de pé? Foto: Marcos Corrêa/PR.

 

Por Suzana Padua/O Eco

As áreas socioambientais do Brasil, que são a maior riqueza do país, estão sendo dizimadas sobre nossos olhares. A biodiversidade, quase nem mencionada pelo governo atual, é uma riqueza do Brasil e do planeta, agrade ou não ao presidente. Tivemos a sorte de nascer no Brasil, que tem aproximadamente 20% de toda a vida do planeta e o maior reservatório de água doce. Doce também deveria ser a responsabilidade por proteger tamanho patrimônio. Mas não tem sido assim – tudo está em risco de arder e a culpa é nossa.

A sensação é de impotência diante de tanta barbárie. Muitos ambientalistas encontram-se estupefatos, pois se veem sob escrutínio de críticas infundadas, mas que muitos brasileiros desinformados acreditam. A competência tem sido ignorada, seja advinda de profissionais de carreira, principalmente aqueles ligados a órgãos ambientais como ICMBio e IBAMA, seja dos que trabalham em organizações não governamentais (ONGs), estes últimos responsabilizados por tudo de errado que ocorre no país.

É como a metáfora do sapo na água quente. Quando a água esquenta de repente o sapo consegue sentir e pula fora rapidamente. Mas, se aquecer lentamente, custa a perceber e acaba morrendo. Na verdade esse governo ferveu a água de tal jeito que só nos resta pular. Mas, para onde? O pensamento e a ação precisam ser estratégicos porque as barbaridades têm sido diárias e inusitadas. Cada dia um susto novo.

Há uma ruptura geral de todos os processos anteriores, pois muito do que havia levado anos a se concretizar, como a construção do Fundo Amazônia, forma encontrada para que os países ricos contribuíssem para a manutenção da floresta em pé, tem sido desmantelado – demolido! A negociação para que este Fundo se materializasse levou anos e se deve ao empenho de muitos, capitaneado pela então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. A questão ambiental seguiu seu curso, com inúmeros problemas, mas independentemente do viés partidário ou ideológico, sempre visando a proteção da riqueza natural brasileira. Isso porque está esse patrimônio acima de interesses pessoais. Prova disso foi a carta entrega ao presidente da Câmara no dia 28/8/2019, assinada por todos os ex-ministros do Meio Ambiente, solicitando uma suspensão de projetos de leis e outras iniciativas legislativas que aumentem o desmatamento. As falas dos ex-ministros foram contundentes – todos mencionaram a importância de se proteger a biodiversidade por ser um bem inestimável do país. E ficou clara na fala de todos a revolta com o que está ocorrendo com a descontinuidade de frentes de trabalho que eram eficazes e bem sucedidas.

 

“A culpa sempre é dos outros”.

A culpa sempre é dos outros. O governo nunca quis dialogar, somar, construir. Muito pelo contrário, desde o início briga, confronta e nega as verdades que para eles são inconvenientes, como foi com os dados de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Tem agido assim com as leis que mudam de acordo com seus interesses pessoais e familiares, negam comprovações científicas e estão colocando o Brasil contra países com enorme potencial de se travar negociações benéficas para todos. A estratégia do governo é a de brigar com todos. Até o agronegócio está sendo mais ambientalista que o próprio governo, pois compreende que se leva tempo para se construir uma legitimidade que é indispensável para que o livre comércio venha a progredir e a proliferar.

A descontinuidade do Fundo Amazônia, a não aceitação de verbas externas com medo da perda de soberania é inaceitável principalmente diante da escassez de recursos para se extinguir o fogo ateado em consequência de sinais e ações inconsequentes dos governantes. Soberania se conquista com trabalho sério e de qualidade. Mas um país que ignora a ciência e age com impulsividade, com ímpetos impensados e sem embasamento teórico ou na experiência adquirida, não pode ser levado a sério.

O que não condiz com o que a cúpula governamental, principalmente as preconcepções do Presidente Bolsonaro e de seu ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles, é porque é de esquerda. Tudo é rotulado, desqualificado e combatido sem antes haver uma ponderação do que é melhor para o país. O presidente fala sem pensar ou não pensa no falar. Já o ministro tem o dom da retórica vazia e com grande habilidade distorce verdades. Assusta como descredencia o que vinha sendo feito, desconstruindo processos e transferindo responsabilidades.

“Governos, por piores que sejam, são transitórios. Mas o que se perde na natureza é para sempre”.

Exemplos são inúmeros, mas o mais surpreendente foi com o presidente do INPE, Ricardo Galvão, cujo passado é impecável e de qualidade inquestionável. Chamado de mentiroso, por apresentar dados de desmatamento que não interessavam ser divulgados pelo governo, Galvão foi corajoso em não pedir demissão como forma de mostrar que nada tinha a esconder, até ser exonerado do cargo.

Desde o início desse governo vários servidores públicos foram transferidos ou humilhados ao cumprirem suas funções, como os de controle de áreas sendo desmatadas, por exemplo, largamente noticiado pela mídia. Se o profissional é bom, aí mesmo corre o risco de ser afastado de sua área de competência, pois quanto mais medíocre mais fácil de ser manipulado.

Na verdade, essa sempre foi a tônica do país, que nunca levou educação a sério. Gente que pensa é perigoso. E isso está agora mais evidente do que nunca. O CNPq corre o risco de fechar as portas por falta de verbas, bolsas estão sendo cortadas, universidades públicas encontram-se sem condições de funcionar efetivamente e escolas públicas vão de mal a pior. Ora, sem educação, sem pesquisa e sem incentivos ao empreendedorismo, o país fica à mercê de um governo que tem como manobra chamar atenção todos os dias para algo estapafúrdio, enquanto aprova medidas alarmantes para o futuro do país. Quer aprovar, por exemplo, uma desoneração fiscal para ruralistas devedores, que soma R$ 83 bilhões em 10 anos, o que seria R$ 8.3 bilhões/ano, enquanto o orçamento aprovado para o Ministério do Meio Ambiente é de R$ 2.8 bilhões anuais. Faz sentido?

É lastimável. É triste. É desolador. Mas, a força da natureza que defendemos precisa estar presente em nossa missão em nosso olhar focado na busca de soluções construtivas. Governos, por piores que sejam, são transitórios. Mas o que se perde na natureza é para sempre.

Suzana Padua é doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreendedora Social Schwab.



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