A esperança irradiada no caminho das palavras

Quem escreve, escreve motivado por alguma coisa. Eu, de forma recorrente, escrevo sobre minhas reflexões e preocupações acerca dos rumos que o Brasil vem tomando. Segundo amigos íntimos, ao priorizar essa temática, dou vazão a uma espécie de obsessão pela pátria querida. Mas, apegado ao racional – aliás, como um bom virginiano – refuto essas tentativas de patologizar meu exercício de cidadania política. Não aceito ser indiferente, ou mesmo adotar o discurso demonizador da política. Prefiro reverberar a lógica aristotélica e vocalizar: o homem é um animal político! Daí, negar, secundarizar, desconsiderar, silenciar, demonizar, vilipendiar ou mesmo abominar a política, implicaria destituir-me da condição de ser humano.

 

 Por Caio Pinheiro 

Todavia, na tessitura desse caminho de palavras, me dedicarei a falar de esperança, ou melhor, das minhas esperanças. Falar de esperança é falar do combustível que propulsiona as utopias. Falar em esperança é confiar na capacidade do improvável subverter o fatalismo trágico dos destinos imutáveis. Falar movido pela esperança é afugentar as certezas retóricas de que não se pode escolher caminhos outros. Falar de esperança é crê na força que supera a morte, pois é a esperança, sobretudo ela, que me fez validar o que disse Pitágoras: há algo que antecede a matéria!

Assim, desde a tenra infância, principalmente no transcurso tortuoso do adolescer, quando as contingências do caminhar tendem a ser superestimadas, decidir tomar a esperança como a raiz de um existir arvorado. Essa decisão não foi fácil. Demandou maturação. Horas de reflexão e enfrentamento dos meus demônios. Mas em todas essas pelejas, sentia uma espécie de acalanto. Era como se mãos com poder de cura não me deixasse curvar ao desanimo. Ouvia também as vozes do porvir. Eram altivas. Impositivas, diziam: espere e jamais distancie-se da esperança!

Embriago de esperança conseguir. Atingir metas. Realizei projetos. Conquistei respeitabilidade pública. Assumir papéis que exigem norral ético e técnico. Estruturei uma vida. Entendi ser preciso jogar o jogo. Fui me metamorfoseando. Cuidei e fui cuidado. Aprendi ser o amor a maior força do universo. Nesse aspecto, sem dúvidas, a esperança me permitiu o maior aprendizado. Compreendi que por mais controverso que parecer ser, toda forma de amar vale apena, pois quem ama tem esperança, e a esperança jamais será uniforme, já que não se pode exigir a uniformidade daquilo que é essencialmente plural.

E assim chego aos 43. Nessa altura posso me permitir algumas certezas. A que hoje mais aflige o espírito é a obrigação de ser um “ser no mundo feliz”. Antes que seja mal compreendido, esclareço: não me refiro em ser feliz num mundo feliz, mas ser feliz no meu mundo interior para que consiga contribuir para a felicidade do mundo exterior. Orgulho-me dessa decisão! No meu caminho terapêutico vejo que trata-se de uma escolha urgente. Permiti afugentar a desesperança, e com ela as dores da alma responsáveis por ceifar milhões de vidas desesperançadas. Como disse um amigo poeta: ser feliz é um ato de coragem!

Todavia, ter coragem não implica acertar nas escolhas, pois viver é submeter-se ao escrutínio das desventuras. Se o tempo é inexorável, a vida é um emaranhado de caminhos permitidos, mas nem sempre ideais. Então pergunto-me: qual caminho escolher? Essa pergunta é perturbadora, já que muitas escolhas precisam ser ‘’para sempre”. Com efeito, escolher o “para sempre” quase nunca é uma decisão que se toma sozinho. Desta feita, enquanto o “para sempre” encontra-se interditado, opto pelo “para mim”. Mesmo esmagado pelas lembranças do feromônio que me nutria de esperança, ao menos até o porvir decidir, aquieto-me em mim, sem jamais esquecer do qual forte é o esperançar no “para nós”.

E assim sigo: dias de dor, dias só, dias de medo, dias incertos, dias de sono, dias de fuga do sono, dias claros quando estou escuro, dias passando por dia. Mas tudo vai passando mesmo que tema não passar. São impressões de quem decidiu caminhar para dentro. Mesmo sendo tentador olhar para fora, há escolhas que são feitas longe das nossas vontades. Somente o tempo mostrará o desfecho. O tempo é esperança. O Tempo é caminho. O tempo é Exu. O tempo é rei e eu não posso mais correr de mim mesmo, porque nunca mais é tempo demais para deixar de ter esperança. Enquanto espero sob a obscuridade do amanhã, apego-me à luz da esperança que inspirou a tessitura desse caminho de palavras.

.Caio Pinheiro é professor, especialista em história do Brasil e história regional e mestre em história.



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