As sementes malditas, o arroz amargo, o pirão com sabor de sangue.

Por Mohammad Jamal.

Mesmo aqueles desatentos, cabeças ao vento, nem aí de preocupação com o alerta daquela canção soberba e dramática do famoso compositor, Nenho; “Desça daí, seu corno”, tampouco aqueles seguidores fanáticos dos receituários de “influencers” que lhes recomendam e incutem as coreografias da respiração, do cagar, do copular, do penteado, ate da assunção das intersexualidades; das distopias e do refutar a classificação dos gêneros, reconhecidamente, eméritos parasitas das redes sociais, já se aperceberam dos perigos que se nos avizinham. Ate mesmo eles, os internautas de celular, já sentiram o cheiro de cachorro molhado e escutaram à distância os uivos das matilhas de lobos famintos, sedentos por nosso sangue, nossos votos, nosso dinheiro suado no Fundo Partidário e o poder que lhes conferimos por eleição.

 

A arte de governar os povos é mutagênica. Pois é, lá vem ela, D. Política, corporificada com o espírito de Tomás de Torquemada (1420) beber nosso sangue enquanto atocha sem dó ou mínima piedade um falo enorme no combalido ovopositor do povo. A política, no caso do Brasil, não pode ser configurada como um desvio de personalidade porquanto se caracteriza reconhecidamente como uma tara degenerativa rumo à depravação absoluta da moral. É o que vemos com algum estarrecimento tardio. Sendo que, o pior é não nos apercebermos que a política para o eleitor é apenas um fato consumado. Você já pensou em algo que possa reverter ou, minimamente, diminuir os danos continuados praticados pelos políticos, aqueles mesmos que você elegeu? Mas fala sério. Análises pomposas expelidas por articulistas famosos nas principais mídias do país; críticas, apupos e opróbrios, xingamentos, rogo de pragas terríveis tipo o “flagelo de Allah”, ações judiciais, denuncias por improbidade, roubo configurado pela materialidade das provas… Mas eles continuam lá, mamando macio à custa do nosso suado dinheirinho extorquido friamente na forma de impostos e até dos milhões de trabalhadores na informalidade e dos 11,5 Mi de desempregados que não escapam à cobrança.

Algumas divagações literárias, breves prólogos analgésicos para traçar analogias entre a dura realidade na linguagem com que grandes artistas retrataram a imposição da dor e, em aforismo, de como a infligiam em simbolismo na mitologia, nas artes plásticas, na literatura e tal, como James Joyce a discutiu, vendo o efeito causado pela Renascença sobre o homem moderno. Vemos que para ele a arte possui raízes profundas em seu tempo, entretanto ainda mais importante é a relação do artista com a sociedade em que vive. O pintor Francisco de Goya presenciou mudanças sociais importantes e eventos históricos chocantes enquanto ele mesmo teve de lidar com alterações físicas e psicológicas que resultaram em uma obra em constante metamorfose, mas também capaz de uma enorme sensibilidade para expor o mundo como ele enxergava em cada fase de sua vida, talvez, à semelhança como o enxergamos na atualidade, terrífico.

Tento não deixar transparecer amarga ou literalmente apocalíptica a minha antevisão realística sob a luz da literatura e das ciências políticas. Copio Nicolau Maquiavel, (1469-1527), pai da “filosofia” política moderna. Ele estudava meticulosamente o homem e a sociedade tal como realmente eram, e não como deveriam ser. No acervo histórico das artes plásticas há uma pintura conhecida como Saturno devorando seu filho, feita por Goya entre 1819 e 1823 para integrar o grupo de 14 gravuras que cobriam as paredes de sua casa e hoje são agrupadas sob o título de “Pinturas Negras”. Embora as interpretações variem, é seguro apontar alguns temas recorrentes nessas pinturas: mitologia, mortalidade, sofrimento e finitude.

Saturno é a denominação latina para o titã grego conhecido como Cronos. Seu pai era Urano, personificação e senhor dos céus e sua mãe era Gaia, a personificação da Terra. A inimizade entre Gaia e Urano surgiu quando ele aprisionou dois de seus filhos no Tártaro. – Algo parecido com a Operação Lava jato que prendeu Lula e muitos dos seus parceiros. – Para se vingar, Gaia criou uma foice de pedra – a foice do PT era metálica, gente – e congregou seus filhos para que castrassem Urano. Cronos que invejava o poder de seu pai foi o único que aceitou a tarefa e o castrou em uma armadilha criada por Gaia. – isso não nos faz relembrar um episódio recente envolvendo PMDB, o Temer, a Dilma, congresso nacional, etc. e seu impedimento ante os olhos de estarrecidos do PT? – Em seguida tomou o lugar de seu pai como rei, prendeu novamente seus irmãos e tomou sua irmã Réa como rainha. Gaia e Urano o alertaram sobre a profecia de que assim como seu pai ele também estava destinado a ser destronado por um de seus filhos. – Vige, está muito parecido com a realidade, gente! Ou não? O PSL está em guerra civil! – Por isso ele passou a devorar sua prole assim que nasciam. Vejam se Isso não nos faz relembrar por analogias, os fatos recentes envolvendo um rei entronizado e toda a sua Corte, sendo vorazmente atacados por seu próprio rei e mais um bando de insurgentes vestindo vermelho, viciados em muita grana, suco de laranjas e cargos públicos? Ou seria mera coincidência? Essa coisa de autofagia, de comer à própria prole criada e “educada”; ou melhor, “treinada” no mesmo partido, já é lugar comum. “Cabeças de chapas” estão matando os próprios filhos, netos, sogras, correligionários amigos e vendendo as carnes para a oposição por muito menos, por preços de “ovos baratinhos”; tudo por uma reeleição, um posto maior no legislativo ou na governança do dinheiro público, a perpetuação no poder$.

Num figurativismo analógico, valho-me das ideias de François Rebelais e seus livros Gargântua e Pantagruel, onde Brasília seria a Gargamelle em seus banquetes extravagantes: jogar fora qualquer comida é inimaginável; recusar alguma iguaria está fora de cogitação. E, assim, Gargamelle, mulher de Grandgousier, devora tripas de boi até não mais poder – e come tanto que acaba por dar à luz os próprios intestinos. Em meio à confusão, nasce, pelo único orifício então disponível na glutona (a orelha), o gigante Gargântua, que viria a ser o pai de Pantagruel, outro comilão e beberrão memorável. Assim, por meio desses dois personagens, aparecidos nos livros Gargântua (1534) e Pantagruel (1532) François Rabelais fez do grotesco, do escatológico e do humor levado ao limite do absurdo a sua distinção como um dos mais radicais e originais humanistas do Renascimento.

O seu livro conta com um humor bem popular e os gigantes viviam às voltas com prazeres físicos e mundanos da vida, tal como nossos políticos: a comida, a bebida e o sexo; a isso se traduz por política. Rabelais ainda usava a obra para satirizar o ascetismo religioso, os costumes da Cavalaria, a sanha conquistadora dos reis e até mesmo o sistema educacional da época, mas sem causar grandes estragos com seu texto, apesar de alguns protestos, como os que causaram a censura da obra. Mas aqui ninguém censura nada. A porta do bordel político está escancarada e nós, os eleitores, somos, segundo Heródoto, pai da história, as rameiras nessa desavergonhada e permissiva Babilônia.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.



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