Dialogar com sonhos, “Navegar é preciso, viver não é preciso” (*)

Esta semana um grande amigo que não gosta de festas ou comemorações fez aniversário, mas nem por seu recato, temperamento resguardado na singeleza discreta das suas condutas, não pôde escapar de afetuosa comemoração. Foi ele quem me ensinou a ler e escrever de carreirinha! Sei que ele não gosta que o perfilemos segundo a impressão que nos causa, mas digo: É elegante, terno e amorosamente romântico, às vezes apaixonado, é capaz das maiores demonstrações de violência e dramaticidade; embora a distimia o faça triste e depressivo, o contraponto da bipolaridade emocional arrebatamentos dramáticos; sua personalidade multifacetada o faz ir das lágrimas copiosas aos êxtases de felicidade entre beijos e afagos. A personagem, amiga, admirada, amada e cultuada, atemporal porque nunca envelhece, é o Livro. Dia 29, ontem, foi seu aniversário, O Dia do Livro.

Por: Mohammad Jamal.

Assim, com a física quântica dos sonhos e tendo o Universo Numa Casca de Noz (Stephen Hawking) eu dobro o espaço tempo. Viajo pelo mundo na caravela de Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen cujas aventuras foram compiladas por Rudolph Erich Raspe e publicadas em Londres em 1785. Aceito a minha própria companhia e, compreendendo-a, comprazemo-nos maravilhados empreendendo distantes viagens míticas ao tempo e espaço etéreo, o universo da literatura.

Bons amigos e parceiros, fomos à Pérsia do grande conquistador Alexandre, O Grande, com quem aprendemos uma célebre e inesquecível frase: “Ladrão, é também aquele que faz da genialidade de outro; a sua própria.”. Foi entre a Pérsia antiga e a França que em 1721 conhecemos dois amigos missivistas muito fluentes e satíricos, Rica e Usbek – Cartas Persas – (Montesquieu). Um fino traço irônico é explicitado logo na primeira carta: “Somos Rica e eu talvez os primeiros persas que, levados da sede de aprender, saímos do nosso país, abandonando as doçuras de uma vida sossegada para afadigar-nos em busca a sabedoria” (MONTESQUIEU, p. 31). Também fomos a Roma onde conhecemos Calpurnia, bem muxibenta, um caco, terceira esposa de Júlio Cesar. Aquele que se engraçou perdidamente pelos encantos de uma egípcia fogosa, gostosona, uma potranca no cio, e depois “sifu” no senado onde ardiam de inveja das suas fornicações e poder e urdiam sua queda em golpe violento. Com muito sangue, Cesar foi apunhalado no corredor do senado, inclusive por Brutus, seu filho adotivo; coisa parecida com o controle de natalidade aplicado pela PM que acontece na Cidade de Deus/RJ. Fomos ao Coliseu, más lá só vimos centuriões exibicionistas vestindo minissaias, sem calcinha, um horror. Nada de shows. Estavam em falta de material humano, figurantes cristãos, para contracenar com os leões.

Viajamos a França onde conhecemos Robespierre, Danton, Marat, Desmoulins, Fabre, Chabot, Delaunay, Basire, heróis da Revolução Francesa que foram formalmente decapitados na Place de la Concorde. A essa altura, Luís XVI e Maria Antonieta já haviam ido para o vinagre, testar a afiação do gume da guilhotina. – (E por aqui nada acontece, nenhum político ladrão vai para o vinagre. Eles vão pra suas mansões, Paris, Veneza, Aspen… E nós aqui embaixo, só fumo mesmo) Viajamos à Constantinopla pré-islâmica onde sultões possuíam depósitos apinhados de gatonas opulentas, mulherões reservadas, guarnecidas por eunucos torados. Confesso que temi por minhas bolas. Homens fortíssimos falando fino com vozes “castrati” tipo Farinelli. Ah… Eu ficaria semanas falando sobre nossas viagens míticas ao tempo e espaço etéreo do universo da literatura. Até pensamos numa ida ao Brasil Colonial, ver umas índias peladas, pegar um bronze, dar um rolé no reino de D. Pedro II, mas tinha gente morrendo de tuberculose aos montes, Augusto dos Anjos, cuspindo revolta ante a morte iminente, Castro Alves, debruçado sobre as Espumas Flutuantes, os poemas épicos de Basílio da Gama, Gregório de Matos e suas poesias satíricas, para a época, claro. Nada que nos instilasse algo novo. Mas ainda assim, Passeamos pelo Os Sertões, (Euclides da Cunha) Memórias do Cárcere e Vidas Secas (Graciliano Ramos) que nos incutiu pejo e amargor. Salvou-nos Macunaíma, o Herói do Brasil, com que (Mário de Andrade) desenhou o brasileiro cagado e cuspido, fidelíssimo ao perfil, nosso principal produto de exportação, a verve irresistível do apologismo ao ócio absoluto, viver, apenas viver.

Algumas pessoas habituadas a ler os meus escritos neste blog poderão pensar erroneamente chocados com o tom prosaico e pouco reverencioso com que trato o nosso “turismo literário” e imaginarem-me superficial e leviano ante as pontuais referências banais com que trato aqui às obras clássicas, tragédias e dramas da literatura dos grandes mestres. É que mergulhar fundo em análises teóricas e reinterpretações intelectualizadas calçadas nos saltos altos do preciosismo linguístico ou numa erudição que não possuo, transparecem aqui e agora petulância e presunção. Escrevo, porque gosto de escrever; é minha melhor terapia. Não cultivos hortas de meritocracia, eu não crio pavões ou aves alegóricas notórias por suas plumagens chamativas, não garimpo fama, destaque, renome, notoriedade ou seguidores. Célebre é a Anitta com sua linda traseira rotunda, uma cúpula igual à Mesquita Süleymaniye de Istambul. O Brasil atingiu sua maioridade e maturidade, a índole do brasileiro ninguém muda. Longos discursos tipo aqueles do Fidel, argumentos eloquentes, retóricas baratas, assunção de posições como “acreditado influencer”, pressupor-se capaz de modificar a opinião pública com argumentos ideológicos, esquerda, Gramscismo, beatificação de corruptos, reentronização de ladrões no poder da nação, são delírios, petulâncias, perda do contato com a realidade, a razão, o bom senso. Eu escrevo para divertir, quebrar a rotina, relaxar, tentar fazer alguem sorrir nos finais de semana, sem o tédio de uma leitura chata, sentido “pregação”, ainda mais quando os “emoticons e figurinhas” insistem tomar o lugar das palavras grafadas que se referem a sentimentos e sensações. Ah que preguiça né!

(*) Poeta português Fernando Pessoa.



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