Arbítrio, censura e pós-verdade robotomizada: o que mais esperar do nosso Mussolini tropical?

Mesmo tendo disposição para o debate político qualificado – daí decidir evitar rebater as verborragias que povoam as redes sociais, manifestadas com refinada ignorância pelos mínios – tornou-se impossível não qualificar de fascista o governo Bolsonaro. Reunindo atributos   ideologicamente identificados com o sistema doutrinário forjado por Benito Mussolini, numa Itália combalida pela I Guerra (1924-1918), o “mito” comporta-se como uma encarnação tropical do líder fascista italiano, porém em constante metamorfose catalisada pela força das conveniências.

Por Caio Pinheiro.

Como um animal político camaleônico, Bolsonaro encarna facetas que remetem a figuras históricas controversas. Hora Mussolini, hora Carlos Lacerda (líder entreguista da UDN, inimigo de primeira do nacionalismo varguista), hora Jânio Quadros (presidente eleito pela UDN e defensor de uma pauta extremante moralizante, mas incompetente administrativamente), hora Hitler (arquiteto do nazismo e responsáveis por todos os males que causou), hora Plínio Salgado (propositor do integralismo, movimento político que traduziu no país o pensamento nazifascista), hora paladino da luta contra corrupção, e hora que soma-se às horas em que não responde a simples pergunta: cadê Queiroz?  E assim segue o Brasil presidido por um camaleão, que muda o tempo todo sem conseguir mudar o quadro de desestruturação do país.

Os dias passam e o séquito dos desempregados aumenta. Já temos 14 milhões de cidadãos nessa condição aviltante. A economia patina no mar gelado das incertezas macroeconômicas do Chicago Boy Paulo Guedes. Fica cada vez mais claro a impossibilidade de se reorientar economicamente o país com ladainhas. A reforma trabalhista a curto e médio prazo foi incapaz de gerar os empregos prometidos. Agora as apostas estão voltadas para a nova previdência. Espera-se um milagre. Os investimentos estrangeiros são aguardados enquanto uma manifestação miraculosa. Em resumo, nossos liberais pensam da seguinte forma: arrumemos a casa para recebermos os ocupantes dos quartos que não sabemos quem são, quando e se virão.

Politicamente, mantendo seu discurso moralista, Bolsonaro asfixia-se nas próprias incongruências. Prometeu um governo de puritanos, mas nos fez engolir um conjunto de ministros suspeitos e condenados. Dos seus 22 ministros, seis enfrentam acusações na justiça. São casos que suscitaram processos e investigações por caixa dois, improbidade administrativa, desvio de recursos públicos e irregularidades em negócios com fundos de pensão. Algumas situações são escabrosas, destacando a do ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), aquele do laranjal, acusado de se apropriar dos recursos do fundo partidário destinados às candidaturas femininas do PSL.

Outro infortúnio digno de nota é o vivido pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra, que enfrenta uma ação civil pública ajuizada pelo MPF (Ministério Público Federal) em virtude da suspensão do edital da Ancine para produções de audiovisual que tinha como principais beneficiárias emissoras e televisão públicas. Considerada como a primeira medida de censura praticada pelo governo Bolsonaro, causou prejuízo aos cofres públicos uma vez que o governo federal já havia gastado R$ 1,8 milhões na análise de 613 propostas que disputavam o edital.

Agora pasmem! Essa medida, definida no meio cultural como um ato formal de censura, foi assumido pelos mesmo governo que através do MEC instituiu como tema da redação do Enem 2019 “a democratização do acesso ao cinema”. Eis mais um gesto que deve ser encarado como esquizofrênico. Algo difícil de entender! Com efeito, a censura bolsonarista de fundamentos neopentecostais não foi recebida passivamente. Artistas como o cantor Caetano Veloso, o cineasta Luiz Roberto Barreto e os atores Caio Blat, Caco Ciocler e Dira Paes, em audiência pública (04/11) no STF (Supremo Tribunal Federal) questionaram tais medidas que, segundo eles, impõem novas formas de censura às artes audiovisuais.

Responsável pela audiência, a ministra Cármen Lúcia destacou que o objetivo do encontro não era debater a censura, já que “censura não se debate, censura se combate, porque censura é manifestação da ausência de liberdade, e a democracia não a tolera”. Isso indica que o ministro Osmar Terra e seu Dulce (forma com que os fascistas se dirigiam a Mussolini) não terão vida fácil. De alguma forma, embora parte substantiva da sociedade tenha manifestado simpatia ao arbítrio elegendo Bolsonaro, há setores que resistem e resistirão. Isso é um alento!

Voltando aos ministros encalacrados, citarei pontualmente os hereges injustamente acusados e condenados. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é investigado por suposta fraude em licitação, caixa 2 e tráfico de influência. A ministra Tereza Cristina, da agricultura, é investigada por suposto favorecimento à JBS quando era secretária do agronegócio do Mato Grosso do Sul. General Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, foi condenado em 2013 pelo TCU por assinar contratos irregulares no valor de R$22 milhões de reais. Onix Lorenzoni, ministro da Casa Civil, admitiu ter recebido caixa 2 da JBS, mas não foi apenado porque pediu perdão e o então Juiz Sergio Moro, já de olho gordo no STF lhe perdoou. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, àquele que viu Jesus na goiabeira, encontra-se acuada por duas investigações conduzidas pelo ministério público contra a ONG Atini, fundada com seu apoio e acusada de discriminação contra os povos indígenas. Marcos Pontes, Ciência e Tecnologia, investigado desde 2006 pelo ministério público por envolvimento em atividades comerciais – vedado pelo código militar aos oficiais na ativa. Por fim, Paulo Guedes, alvo da operação Greenfield, suspeito de gestão fraudulenta dos fundos de pensão de empresas estatais.

Com esse time de seres puritanos, moralmente ilibados, nossa república caminha no caminho da regeneração? Enquanto isso, nosso povo, culturalmente órfão e repulsivo à reflexão, continua alheio aos infortúnios que sepultam diariamente suas esperanças. Presas em narrativas insustentáveis factualmente, como disse Marcia Tiburi, “as pessoas já não podem mais pensar, porque os pensamentos próprios foram substituídos por próteses, na forma de discursos, ideias, imagens, mecanismos, aplicativos e programas.

Bolsonaro e seus asseclas alimentam-se do inconsciente, e quem produz o inconsciente são aqueles que detêm o poder sobre os meios de linguagem. Daí o pacto com a mídia corporativa ser um dos principais alicerces desse governo do desgoverno. Graças a essa aliança espúria as pessoas continuam a repetir o que lhes é designado, lobotomizadas que estão no mundo da pós-verdade. Nas redes sociais há centenas de sujeitos delirantes, que não acreditam no que vê, no que ouve, no que se tornou evidente por meio dos argumentos sólidos. São zumbis andando no ciberespaço com um único propósito: ocultar a realidade.

Todavia, amanhã será um novo dia!  Como no México, Bolívia, Argentina e Chile, o neoliberalismo começa a sucumbir dado a precariedade da sua eficácia socioeconômica. Avesso a ideia de sociedade, de alteridade e, por isso, destruidor dos direitos fundamentais, por essas terras, na sua versão bolsonarista, o neoliberalismo também gerará uma turba de indivíduos desassistidos que reivindicará a semelhança dos “coletes amarelos na França de Macron” sua parte do bolo. Quando chegar esse momento, de nada adiantara um novo AI-5, pois “AÍ OS CINCO BOLSONAROS” serão fritos no óleo da revolta popular, pois, não sendo peixes, indispõem de inteligência suficiente para fugir desse óleo. A revolta popular ainda é superficial, mas tornara-se profunda em breve!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestrando em História, Práticas Sociais e Representações.



One response to “Arbítrio, censura e pós-verdade robotomizada: o que mais esperar do nosso Mussolini tropical?

  1. Me deixa feliz este espaço para esta pessoa publicar um texto robotizado como este.
    Isto é uma prova que a liberdade de expressão continua vívida.
    A construção deste texto é arcaico e apresenta puramente sentimento de derrota frente ao medo de mudança, ao estagnatismo.
    Precisa-se perceber que o povo cansou do FALSO SOCIALISMO implantado, um pseudo suporte a sociedade embasado que amargava uma falência projetada. Muitos dos ajustes necessários hoje, a redução, o corte, e fruto do falso socialismo, que felizmente tem sido estirpado.
    Os resultados estão começando a surgir.
    Sim, precisa de tempo, para efetivas mudanças.

    Que seja enterrado este sentimento “social” que mata a sociedade “dando o pão” e “fechando os olhos”.

    Vamos viver a realidade!

    Orgulho pelo futuro do Brasil!

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