Consciência Negra e negros conscientes: nem sempre faces da mesma moeda!

Para as organizações negras, novembro é um mês emblemático, visto que no seu transcurso são desenvolvidas ações para celebrar o dia da Consciência Negra. Associado à morte de Zumbi dos Palmares, um dos maiores ícones da resistência à escravidão, o dia 20 de novembro foi definido como marco temporal da tomada de consciência em torno da seguinte questão: o que é ser negro no Brasil?

Por: Caio P. Oliveira e MC Ogiva.

Sem dúvida, esse é um questionamento que nunca perdeu ou perderá sua pertinência; pois, embora seja real que na última década nós negros conquistamos espaços que nos eram até então interditados, os obstáculos para conter nossa ascensão socioeconômica ainda continuam intactos. Contudo, devemos celebrar algumas conquistas: pela primeira vez na história do ensino superior brasileiro os negros são maioria nas universidades públicas. A universidade pública, espaço outrora hegemonicamente branco, enfim, passou a refletir com maior fidedignidade quantitativa a composição racial do país.

Todavia, estamos diante de um dado que precisa ser circunstanciado historicamente, sob o risco de tomarmos como dada uma realidade que demandou muita luta e conscientização para ser materializada. Assim, desde o final do século XIX, quando se deu a abolição da escravidão, ratificada em 13 de maio de 1888 através da Lei Imperial nº 3.353, a população negra vem buscando emancipar-se da condição marginal na qual foi imersa, encampando lutas por pautas fundamentais para a conquista da cidadania e questionando o lugar atribuído aos afrodescendentes na estruturação do Brasil como Estado-Nação.

Com efeito, a luta pelo direito à educação foi prioridade de muitas organizações negras, tendo como exemplos a Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1931, o Teatro Experimental do Negro (TEN), constituído em 1944, além do Movimento Negro Unificado (MNU), estruturado em 1978.  Foi da FNB a proposta de se criar uma escola, o Liceu Palmares, com o fim de ministrar cursos aos seus associados. O TEN, por sua vez, ao propor um teatro feito por atores negros, promoveu a alfabetização através da educação cênica, já que o contato com as grandes obras da dramaturgia requeria habilidades intelectuais adquiridas através do letramento. Já o MNU, ratificou as reivindicações das organizações que o antecederam e chamou atenção para a necessidade de se reavaliar o papel do negro na história nacional.

Mesmo assim, o racismo continua estruturando nossas relações sociais, e, macabramente, insiste em sepultar os negros na subalternidade. Como analisa o jurista Silvio Almeida, mesmo desmoralizadas nos meios acadêmicos e nos círculos intelectuais, as teorias racistas e suas práticas ainda reverberam na cultura popular, onde é possível “ouvir sobre a inaptidão dos negros para certas tarefas que exigem preparo intelectual, senso de estratégia e autoconfiança como professor, médico, advogado, goleiro, técnico de futebol ou administrador”.

Para os negros, a manutenção dessa perspectiva tem sido perniciosa, na medida em que contribui para a naturalização da ausência de pessoas negras em escritórios de advocacia, tribunais, parlamentos, cursos de medicina e bancadas de telejornal. Ao tempo em que normaliza que pessoas negras sejam a maioria em trabalhos precários e insalubres, presídios e morando sob marquises. Devido a manutenção dessa visão de mundo, segundo Silvio Almeida, “nos causa a impressão de que as coisas estão fora do lugar ou invertidas quando avistamos um morador de rua branco, loiro e de olhos azuis ou um médico negro”.

Então, questiono-me: como mudar essa realidade? O caminho para essa mudança passa pela conscientização do que implica ser negro num país que cinicamente vocaliza o mito da democracia racial, para o qual, os grupos étnicos-raciais que compõem o tecido social vivem em absoluta harmonia, inexistindo, portanto, disparidades para além das características físicas entre “brancos” e “não brancos”.

Faz-se, desta feita, urgente conscientizar. E é nesse ponto que diálogo com o poeta Ogiva MC, quando diz não ser correto jogar “para baixo do tapete a história de sangue, suor, luta e resistência do povo negro. Que a lei Aurea foi só um papel que não deu liberdade de consciência. Que os irmãos precisam saber que Zumbi morreu a bala, e que Mandela tirou cadeia para livrar seu povo das algemas. A consciência negra tem de ser algo muito maior do que uma data, senão governantes brancos continuarão a falar pelo povo preto.

Consciência negra implica conhecer as ideias dos que lutaram pela conscientização dos negros. Aqualtune (princesa e comandante militar), Zumbi dos Palmares (líder do Quilombo dos Palmares), Dandara (esposa de Zumbi), Tereza de Benguela (rainha do Quilombo de Quariterê), Maria Firmina do Reis (escritora e professora), Luís Gama (escritor e ativista político), André Rebouças (engenheiro e ativista político), Francisco José do Nascimento (marinheiro e ativista político), José do Patrocínio (farmacêutico e ativista político), Mãe Menininha do Gantois (Iyálorixá), Laudelina de Campos Melo (empregada doméstica e ativista política), Carolina de Jesus (escritora), Abdias do Nascimento (intelectual, ator e político), Grande Otelo (ator e cantor), Ruth de Souza (atriz) e Marielle Franco (socióloga, ativista e vereadora) devem ser referências ao povo negro que quer ser e se fazer consciente da sua negritude.

Que nesse dia de fomento à Consciência Negra, possamos aprender com Exu, que mesmo sem riqueza, vivendo como um vagante, aprendeu os segredos da concepção com Oxalá, porque se dispôs como um observador capaz de ver o profundo do superficial. Que sejamos como Oxóssi, nos tornemos caçadores de conhecimentos, com os quais seja possível melhor proteger nos proteger da ignorância racista. Enfim, que inspirados no arquétipo de Oxalá, construamos sobre a terra movediça da discriminação racial um terreno sólido de respeito à diferença. Que sejamos um povo livre de fato. Axé!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.



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