Os dramas num mundo distante e desconhecido: A paixão de Aysha

Havia angústia e estupor estampados em seu semblante contraído, um rosto prematuramente envelhecido para seus vinte e oito anos; olhos tristes lacrimejantes, a tez branca do seu rosto transparecia murcha, sem viço algum, lábios ressequidos na palidez; o hijab (1) só lhe ocultava os cabelos que, ante o desespero corporificado, supus brancos farinhentos – (No Islã, o hijab é o vestuário que permite a privacidade, a modéstia e a moralidade, ou ainda “o véu que separa o homem de Deus”). Não obstante sua enorme emoção, ela conseguia falar pausada e compassadamente, o que me fez estarrecer em admiração, tamanho seu domínio e autocontrole evidentes.

Por: Mohammad Jamal.

Não pude conter minha admiração vendo a enorme força emocional contida num corpo mirrado, magrinho, delicado, mas ainda assim não totalmente abatido. Aparentando estoica resiliência, ela continuava lutando. Todo esse quadro impactante alterou minha fleuma masculina de muslime, mas dissimulei minha surpresa com um curto sorriso complacente e confortador, como se lhe afagasse com um abraço solidário. – Por aqui o homem não abraça a mulher senão no recato da alcova – por isso, o meu sorriso simbólico era o máximo que eu lhe poderia oferecer em termos solidários adequados à contida cordialidade dos nossos costumes.

Como se uma chuva de fagulhas de fótons, centenas de pensamentos contendo suposições e possíveis equivalências existenciais transpassaram meu cérebro em tempestade, ávido por antevisões plausíveis que fossem capazes de produzir tamanho sofrimento em alguém tão frágil e vulnerável, além de tudo, do sexo feminino, uma mulher. Meus pensamentos varreram o universo das minhas memórias recolhendo os mais variados e violentos referenciais, inclusive aqueles memoriais dramáticos da literatura russa da qual sou um apaixonado, tendo lido quase tudo que foi traduzido dela, um tesouro.

Com algum esforço, consigo recompor meu equilíbrio e serenidade interior, abalados. Não lhe posso oferecer água para beber, sal, chá ou convidá-la a sentar-se, este é o rito padrão por aqui. Fingindo calma, resguardo um silêncio respeitoso enquanto fito-a nas mãos ansiosas que se contorcem convulsivamente como se lutassem entre si e, no lapso enquanto me recomponho, dou mostras de que estou pronto para ouvir seu relato confessional. Estou sentado sobre uma almofada tendo minhas costas apoiada à parede, à mão, segura entre os dedos, tenho uma chávena com uma tisana de Karkadet (2) e hortelã verde que vou degustando com pequenos e compassados goles, cuidando para não derrama-lo minha com mão ainda trêmula, sobre Kandura (3) branca de linho que estou vestido.

Houve um breve silêncio. De início as palavras brotaram dos seus lábios num ritmo soluçante, agoniado e tormentoso. Percebi que o ar lhe faltava, sufocada; ela transparecia equilibrar-se com dificuldade, estonteada como se à beira de um precipício. Por um breve ínterim, suas mãos antes conflituosas haviam interrompido a luta que travavam entre si, um armistício duvidoso, pois as fitando bem, ainda se podia aperceber evidencias de certo nervosismo e tensão entre ambas. Eu não as toquei, mas imaginei-as úmidas de suor frio, era quase uma evidência.

Não posso omitir que, a essa altura, eu já me apercebia curiosamente ansioso para intuir uma solução, um refrigério para deter a torrente angustiosa que afogava em sofrimento essa frágil mulher. Por alguns instantes cheguei a duvidar da minha lógica racional, do meu razoável conhecimento sobre o psiquismo feminino e da habilidade que sempre demonstrei para formular contornos de objeções convincentemente, a ponto de calar réplicas, de alentar angustias, aplacar rancores e serenar ânimos, fazer calar os gritos dolorosos nas almas feridas pela injustiça. Temi por isso.

A cena me fazia remontar aos escritos das tragédias clássicas dadas à sua aparente natureza dramática. Lidas ou teatralizadas, em geral solenes, cujo fim é excitar o terror ou a piedade, baseada no percurso e no destino do protagonista ou herói, que termina, quase sempre, envolvido num acontecimento funesto. Pela tragédia se expressa o conflito entre a vontade humana e os desígnios inelutáveis do destino, nela se geram paixões contraditórias entre o indivíduo e o coletivo ou algo transcendente à existencialidade. Ou não? Ibsen, Goethe, Shakespeare, Nietzsche, Oscar Wilde… Socorro. Que compensação poderei oferecer em contraponto argumental desta delação existencial voluntaria carregada com toneladas de sofrimento íntimo?

A confitente finalmente começa a debulhar as contas do seu Masbaha (4).

Aysha _ Senhor Jamal, amo meu esposo, aprendi a amá-lo muito desde o primeiro dia da nossa núpcia. Não suportarei compartilha-lo com outra esposa. Não terei coragem de mata-lo por isso, penso em tirar minha vida. Ele está entabulando núpcias com outra mulher. Morrer é minha vontade, mesmo sabendo da eternidade no tártaro e fogo ‘iiblis bayn alshayatin fi aljahim (entre os demônios no inferno). Se for o que me cabe.

Excertos: para fazer-me entender: Os muçulmanos derivam a permissibilidade da poliginia no Islam do verso do Alcorão: “E, Se temeis não ser equitativos para com os órfãos, esposai as que vos aprazam das mulheres: sejam duas, três ou quatro. E se temeis não ser justos, esposai uma só.” [Sagrado Alcorão 4:3] Deste verso, é evidente que a poliginia não é nem obrigatória, nem encorajada, mas apenas permitida. O Alcorão também adverte sobre a dificuldade de lidar com justiça entre várias esposas: No entanto, tornou justo e equitativo lidar com as esposas como uma obrigação. Se alguém não tem certeza de ser capaz de lidar com justiça com as esposas, o Alcorão diz: “E se temeis não ser justos, esposai uma só.” [Sagrado Alcorão 4:3] A injunção do Alcorão, assim, tornou a poliginia restritiva, quando comparada com a prática prevalente no mundo.

Eu _ Aysha, tenha calma, raciocine com serenidade sobre as razões peculiares aos nossos costumes. As paixões açuladas pelo fogo das emoções são como cortinas pesadas que te impedem de ver a realidade. Você é uma esposa muito amada e respeitada por seu marido. Você é muito importante na vida dele e, abandoná-lo, será como amputar-lhe as mãos, tira-lhe a visão, as esperanças. Você é sua primeira esposa e será sempre lembrada antes de qualquer outra pessoa. Seu filho é a descendência e a história dessa família, quiçá patriarca da geração do seu pai. Você sabe como são voláteis os casamentos, notadamente aqueles por contratos temporários. Certamente é esta a forma em que seu esposo pretende ligar-se a outra mulher. A sua casa será sempre a tenda para onde ele retornará em busca do calor humano e da acolhida amorosa que você proporciona a ele. Volta pra tua casa, prepara uma boa sopa quente para ele e o enlace no abraço carinhoso com que você o aguarda ao chagar cansado da lida. Seu esposo é seu homem, e o será enquanto você desejar sua companhia. Tenha fé. adhhab mae Allah adhhab fi salam (Vá com Deus, vá em paz).

A exigência da justiça exclui a fantasia de que o homem pode possuir tantas esposas quanto quiser. Também elimina o conceito de “esposa secundária”, pois todas as esposas têm exatamente o mesmo status e têm direitos e reivindicações idênticas sobre o marido. Também implica, de acordo com a Lei Islâmica, que, se o marido não fornecer apoio suficiente para qualquer de suas esposas, ela pode ir ao tribunal e pedir o divórcio.

Que suaves canções trazem hoje os ventos? Que danças fazem hoje as dunas? Que perfume invade hoje minha tenda? Hasteio minha bandeira, demarco meu território para que possa se sentir amparada longe dos beduínos.

Era o que para tinha hoje, nesse mar de banalidades superficiais em que navegamos constrangidos. Apenas um exercício ficcional para quem ainda lê.

  • (1) Véu islâmico; (2) flor semelhante ao hibisco; (3) roupa masculina longa, geralmente em cor branca; (4) rosário islamita.


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