A Dança das Vampiras

A “Noite da Agonia” E o pau comeu solto na corte de D. Pedro! O auge da crise ocorreu com a publicação no jornal Sentinela da Liberdade, de um texto assinado pelo “Brasileiro Resoluto” (pseudônimo de Francisco Antônio Soares) acusando dois oficiais lusos de traidores. Ofendidos, resolveram punir o autor do artigo. Na noite de 5 de novembro de 1823, os mal informados oficiais surraram a bengaladas o farmacêutico Daniel Pamplona Corte Real que nada tinha com o episódio. Pamplona, que não era brasileiro de nascimento, queixou-se à “soberana Assembleia” e o assunto foi discutido em plenário – onde Martim Francisco e Antônio Carlos, exaltados, bradavam por vingança, na sessão do dia 10 de novembro, com um significativo comparecimento da assustada população. Tipo as sessões da nossa egrégia Câmara. E não deu em nadinha, Assembleia foi dissolvida e, pra variar, em nossa Câmara, nobres legisladores engordam na pachorra enquanto tentam proteger ciosos seus pontuais Cofbreak calóricos, vespertinos, dos esfomeados ratos convivas que infestam o palácio legislativo. Uma desratização se faz necessária, murídeos são causadores de inúmeras e perigosas zoonoses.

Por: Mohammad Jamal.

As “Noites de Anemia”. A cidade em agonia sobrevive insone; há um clamor generalizado, porque ninguém não consegue fechar os olhos por mínimos instantes para um justo e merecido sono reparador. O terror está espalhado por toda a cidade, indiferente aos clichês pomposos dos endereços de condomínios e bairros grã-finos, tipo Barro Vermelho, Vilela, Rua do Mosquito, Vila Juerana, Itariri, tanto quanto nos recantos mais humildes, onde nem o Correio entrega correspondências; tipo Sítio São Paulo, Jardim Atlântico I, Condomínio Praias do Atlântico, Torres do Sul, etc. dentre outros tantos onde só moram pés rapados. Ate parece que estamos vivendo na romena Transilvânia, terra do conde Drácula, chupador emérito do sangue alheio, o pai de todos os vampiros. O caso é seríssimo. Elas chupam mesmo! Não importa seu grupo sanguíneo, seu baixo hematócrito, sua palidez anemiforme; sua deficiência de hemácias e baixa hemoglobina no sangue circulante.

A falta que nos faz o Inspetor Geral (de Nicolay Gogol)! Ainda ontem, já meio fraco e cambaleante, fui me deitar com Damiana logo depois de assistirmos ao erudito Programa do Ratinho, pra rebater aquela matança sangrenta da tardinha que assistimos no Datena. Como sempre, sem outra solução, nos cobrimos dos pés à cabeça com aquela velha coberta “dorme bem” que ganhamos de uma ONG de nome muito sugestivo a, Nordestino Também é Gente. Debaixo da coberta devia estar fazendo uns quarenta graus de calor, mas fazer o que? Era a nossa única salvaguarda contra as vampiras. Nessa estufa suarenta, mas necessária, eu ate aprovo os habeas corpus concedidos aos inúmeros flatos, podres, ministrados parcimoniosamente por minha companheira de cama, mesa e trabalho, minha suprema ministra, a Damiana. Que seria de mim, sem ela, sua المهبل e macia poupança? جحيم

É carma teosófico? Maldição? Há algo bíblico pairando sobre a cidade!

Na mitologia cristã, maldição é a ação efetiva de um poder sobrenatural, caracterizada pela adversidade e sofrimento. Vão vendo as coincidências. A água cara que nos chega às torneiras, não é boa. As águas da baia do Pontal e de algumas praias turísticas não ficaram vermelhas e sanguinolentas, tal qual o rio Nilo, mas tem bosta e, claro, milhares de coliformes fecais por centímetro cúbico. As rãs que saíram aos milhares do rio Nilo, por aqui foram substituídas por gordas ratazanas egressas bem alimentadas dos lixões, criadouros espalhados estrategicamente nas vias públicas. Os egípcios também sofreram agruras por infestações de moscas e piolhos, à semelhança da infestação por moscas e muriçocas que grassam livres em imensas nuvens negras sobre a cidade, privando-nos do sono tranquilo, sugando nosso sangue, causando anemias, espalhando doenças. É carma! Só pode ser carma.

O vidente cartomante matou a charada.

Para não inculpar injustamente as nossas autoridades públicas no executivo e legislativo, censurando-as imerecidamente; concluí que seria melhor e mais sensato pagar por uma consulta – aqui não tem cartomantes nem videntes pelo SUS – e ir correr atrás de socorro xamanístico. Procurei então Pai Edeltrudes, famoso cartomante, leitor de búzios, mãos, pés, etc. para um diagnóstico clínico sobre o futuro e a possível sobrevivência da raça humana nessa cidade após as eleições de 2020. Saí do consultório muito mais pesaroso e aflito que quando entrei acalentando um alento. As previsões soturnas do nosso “Pai Diná” devastaram minhas já claudicantes esperanças.

No Gabinete, a psicologia de Caligari e o prenúncio do surrealismo social. Apavorado, eu aguardava ansioso o início dos “trabalhos”. O homem solenemente vestindo um manto branco, tomou assento numa cadeira trono; levantou o dedão anular e convocou sua assistente, a quem prefiro chamar de “partner” aquelas dos shows de mágicas. Moça bonita, coxas grossas, traseira curvilínea, uma gata. Calma, isso agora não vem ao caso. Muito rápida e eficiente, a gostosa instrumentadora, num piscar de olhos ela já trazia, sobraçando sobre seus lindos peitões agudos, um monte de documentos em papel ofício, possivelmente listas diversas; baralho tarô, búzios, conchas, um mocotó de boi, uma galinha preta e uma bucha de chumaços de cabelos negros, grossos, lustrosos e anelados que indicavam claramente a região onde foram capinados. Sem perda de tempo, tal como um consulta de SUS, Pai Diná jogou as cartas e interpretou as mensagens, fazendo o mesmo os búzios e as conchas, leu o mocotó de boi e em seguida fez o mesmo com os dois pés da galinha preta. Por último, amassou entre as mãos e cheirou o enorme chumaço de pent… Melhor dizendo, cabelos enquanto franzia o cenho carrancudo com cara de quem não gostou. Passou então às inúmeras folhas de papeis impressos, ao que nos transpareceu, listas e mapas com apurações dos resultados das últimas eleições municipais.

Átila, o Huno (406 – 453) ficou conhecido como a Praga de Deus. Trêmulo, mãos suando frio; esperei pelo pior. Pai Diná foi curto e grosso: _ “É carma e maldição juntos! Pelo que li nestas listas de votações, ainda tem muitas pragas para recair sobre a cidade, que me parece prima-irmã da egípcia que foi quase trucidada, não fosse à rendição total após as mortes dos primogênitos. E tem uma praga estranha aqui nas listas que me parece muito dolorosa para alguns! Uma nuvem de bichos alados, barbudos, roliços, grossos, pescoços longos com um papo embaixo e cabeça chata enorme! Eles encobrirão a cidade e se enfiarão em tudo e em todos os orifícios que couberem, por mais apertados que sejam. Que horror”. E assim, deu por encerrada a consulta.

Não, supositórios não, por favor. Não sei onde arranjei forças para tentar obter algum aconselhamento adicional heroico. Com muito sacrifício, perquiri: o senhor não nos aconselharia alguma precaução, algum paliativo, por favor.

Pai Diná: _ Bom… Fiquem longe das urnas eletrônicas. Recomendo vaselina alcanforada, analgésicos, roupas grossas e nunca se agachem pra pegar um sabonete caído ao chão do banheiro. É só… Próximo? Ai eu fiquei estático, quase em choque quando me surpreendi relendo mentalmente a cena do agridoce meio amargo, Nelson Rodrigues, no seu magistral “Os Sete Gatinhos”, quando a gorda de seios gigantescos, mal amada e sexualmente desassistida e carente, para se vingar do marido, cuja principal preocupação era manter integro o hímen virginal da filha mais jovem, que, entretanto, a despeito do cuidado e zelo do pai, já se havia emputecido profissionalmente nas noites do Rio; arroz de festa como garota de programas baratos. Voltando à gorda carente e sedenta por sexo, involuntariamente privada daquilo que lhe dava prazer; num ímpeto desesperado ela dá vazão à sua revolta desenhando nas paredes do banheiro/sanitário compartilhado pela “família”, uma revoada de vários caralhinhos alados em diversos tamanhos. O Nelson Rodrigues é para mim um grande catador de caranguejos podres nos mangues lodaçais dos rios imundos que irrigam as mentes emparedadas e reprimidas no confinamento das angustias existenciais. E o Carma, a maldição? Deixa pra lá, são apenas muriçocas; elas também chupam os bacanas.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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