Idiotização dos intelectos sob a ditadura dos imbecis

Esse bagulho tá mais pra cocô de burro.

Será que alguém por aqui ainda não notou que estão nos imbecilizando? Que estão nos “videotizando” e, por complemento, nos “ciberbestializando” como se fôramos apêndices inúteis de um sistema robotizado irracional, dependente de tudo aquilo que se vê como modismo na metalinguagem pseudo silenciosa dos obtusos pacificados comandados por expertos “influêncers” das redes sociais via ciberespaço dos smartphones? Já estamos quase nos expressando em libras, tamanha a influência da comunicação em tempo real, diga-se, vazia de conteúdo, mas intensamente ativa a ponto de fazer-se “dependente” e, varar as madrugadas de olhos secos fixos nos perfis do instagram, compartilhando no wahtsapp, pavoneando fantasias no facebook, Linkedin abarrotado…?

Por Mohammad Jamal.

Recuso peremptoriamente a lobotomia e a emasculação intelectual. Quero não.

Revendo minhas lembranças no âmbito literário conclui que, estamos menos para o drama 1984 (George Orwell) por seu conteúdo sociopolítico e muito mais para a romance O Videota (Jerzy Kosinski) por seu conteúdo afásico ambientado e embalando no retardo psicológico que acomete muita gente, essas, ditas com pequenas limitações de caráter intelectual. O romance O videota é um brado de alarme, uma tentativa de expor o caráter imbecilizado que se tenta imputar a todos na realidade contemporânea tanto quanto a escancarada demarcação entre o que é ou não digno de ser considerado relevante. Não que essa característica seja absorvida passivamente por todos (longe disso, aliás), mas não se pode negar que tal intuito esteja presente em boa parte das programações televisivas, nos apelos musicais, nas peças teatrais, Internet, e até em certos livros e Cartilhas contendo figurinhas nada sutis, imerecidamente publicados. Há cadência no Videota e poucos parágrafos de descrição ou em que o narrador encaminha a história com suas “próprias palavras”.  O desenrolar da trama se dá em grande medida pelas conversas que os personagens mantêm entre si. Isso é um feito bastante interessante, visto que o protagonista de O videota nunca solta mais do que algumas frases esparsas, curtas, insignificantemente vazias.

Se ele é bi ou heterógeno, não transparece nada. Está mais para “trípede”!  Rememorando discretíssimas similitudes com “O mito da caverna de Platão”, para quem teve o privilégio de lê-lo, em O Videota, seu personagem tema, Chance, Chance é uma figura reclusa, preocupado apenas em cuidar do jardim da casa em que mora e em assistir à televisão, mudando incessantemente de canal. Morou durante toda a sua vida (ou pelo menos o que ele se lembra dela, visto que ele é portador de uma boa porção de retardamento), na mansão do “velho”, (eis aqui o confinamento na presumida Caverna de Platão) onde era responsável pelos cuidados com o jardim. Quando seu patrão morre, ele descobre que seu nome nunca constou em lista alguma de empregados da mansão, ainda que os registros dos outros funcionários fossem bastante minuciosos e, descritivamente apurados. Diante dessa situação, o destino lhe da um pé na bunda e agora, no olho da rua, Chance, passa a vagar a esmo, até que sofre um leve acidente com um carro dirigido pelo motorista do financista e magnata Benjamim Rand. O episódio resulta em uma estadia de Chance na mansão Rand como compensação, onde, rapidamente, o velho jardineiro se integra ao cotidiano da casa, tanto no que tange ao doente e já quase moribundo magnata, Sr. Rand, quanto com a Sra. Rand, Elizabeth.

Sigo todas as novelas e adoro os “Testemunhos”.

O que há de peculiar em Chance é o fato de que somado a sua condição mental retardada logo, nitidamente deficitária, é que ele assiste televisão o tempo inteiro. Ao descrever as reações e o comportamento de Chance, o autor Kosinski o faz através comparações e referências televisivas. Todo o parco arsenal de conhecimento de mundo de Chance repousa em suas lembranças de telespectador, ou seja, ele não enxerga além do que a televisão pode lhe proporcionar, ele é quase alienado do mundo, a TV é o alfa e o ômega, o meio e o limite de sua capacidade de percepção.

O mais engraçado nesse interstício é que essa condição de conceber a realidade em termos televisivos não o impede de se tornar gradativamente uma das pessoas mais influentes do mundo, sendo que seu nome é cotado para presidir altas cúpulas de associações de financistas, representações diplomáticas, fazer análises da conjuntura política e econômica, etc. tal como assistimos passivamente acontecer aqui há poucos tempo. Um palestrante semianalfabeto murmurando frases curtas e desprendidas de qualquer nexo com a realidade contextualizada e cobrando uma nota por suas pregações. A bizarra eloquência de Chance acaba por intimidar as pessoas, que mesmo sem o entenderem porra nenhuma, simulam ter compreendido as “epifanias” concisas em tons epistolares ditas pelo protagonista. No sentido lato desta colocação, a história se assemelha levemente ao conteúdo da fábula A Roupa Nova do imperador.

_ Capim?

_ Não; estou servido, obrigado.

O romance O Videota é uma bela crítica a bestialização compulsivamente promovida pela televisão, não que ela seja essencialmente má ou boa (em minha opinião é péssima), mas não se pode perder de vista a força que ela possui na “sociedade do espetáculo” e seus shows às vezes muito caros para capturar uma gente relativizada no precinho barato do corriqueiro banal. A ironia do autor é refinada, embora levada às últimas consequências, e se estende para além do âmbito da TV, pois se uma realidade permite que uma pessoa como Chance, sem expressão e perdido na vacuidade do não-pensar-só-absorver, se torne tão influente, certamente Kosinski se dirigiu a ela de alguma forma. A ascensão de Chance como CEO-Influencer de uma gigantesca população dita civilizada, ele mesmo um contemporâneo e reprogramado, contato massivo das redes sociais, “curtidor nato”, filhote das Redes de TVs, guindado aos mais altos cargos do país, não é senão a coroação da ignorância, da superficialidade que é confundida com sabedoria por uma sociedade que não consegue romper a superfície de uma percepção meramente estéril.

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.



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