Consultório do Dr. Caligari ambulante

Um bom vinho Borgonha e, música suave na digestão, sentados na varanda falando de amor e do nosso relacionamento que vai às mil maravilhas.

Por: Mohammad Jamal

Pisei em rastros de corno! Tem dias que se agente bem soubesse continuaria na cama. O dia de hoje foi um deles. Depois de ter lido e dormido muito durante esses dias das orgias chamados carnaval; saio de casa ainda sonso e assustado com a nudez e libidinagem desenfreada. Pois é, lá estava eu perdido numa xícara de bom cafezinho na Biboquinha quando eis que sem tempo para fugir em desabalada carreira, me aparece do nada o efusivo e bem falante Lindinalvo.   Oi seu Mamede, bata! Cabem explicações. O Lindinalvo é um dos 25 seguranças do bom condomínio em que resido; o Red Clay Residence (tradz: Barro Vermelho Residencial) no aprazível bairro Teotônio Vilela, muito “in”, diga-se. Pois é, vou prolongar ligeiramente este parágrafo para deixar mínimos detalhes sobre o perfil psicológico, ou talvez psiquiátrico do nosso falante e expert segurança, Lindinalvo. Ele corporifica uma terrível e perigosa mistura Nelson rodriguiana temperada com pitadas de Charles Bukowski adicionados com discretos traços do Costinha com cobertura  com farta colheradas de Henri Miller. Uma bomba de césio. Pois é, bati e ele sequer me deixou olhar o relógio em busca de uma desesperada tentativa de escapar por compromisso agendado. Não deu.

Afagando meu saco: O senhor é um turco brasileiro bacana seu Mamede. Sabe das coisas, dá conselho e não é metido à besta como esse monte de cornos que moram aqui e pensam que tem um rei enfiado no rabo!… E emendou: _ Ainda ontem levei minha namorada para comer lá em casa. Como sempre, foram momentos inesquecíveis aqueles desfrutados com ela. Eu já havia preparado pra ela uma deliciosa moqueca de manjuba; feita no capricho. Ela adora manjuba graúda! Um bom vinho Borgonha e, música suave na digestão, sentados na varanda falando de amor e do nosso relacionamento que vai às mil maravilhas.

Será que ela dá um caldo? Sempre que tenho um tempinho, faço questão de trazer a Claudimeyre pra comer aqui em casa. Ela tem um restaurante lá na Rodoviária e, pelo que me disse, anda um tanto enjoada da própria comida; por isso adora variar uma comida fora. Eu me esmero pra agradá-la, afinal, essa vai ser minha companheira; tenho planos de futuro junto com ela. Contudo venho enfrentando um enorme dilema e o medo da nossa relação deteriorar para separação se ela não encarar com normalidade alguns aspectos típicos da minha família. Aliás, nada demais do que se vê cotidianamente por aqui.

Oráculo, Assessor, quiromante, terapeuta… Socorro. Recorro ao senhor para pedir conselhos num dilema muito sério. Só confio no senhor (lá ele). A sua inteligência e experiência no trato desses assuntos será primordial para garantir a permanência da Claudimeyre ao mau lado.  Ela é a namorada que eu amo intensamente e quero casar com ela. O meu problema tem a ver com a minha família. Eu tenho receio que a minha gata não se identifique com o “conjunto” e isso gere conflitos em nosso relacionamento. Ainda ontem estávamos conversando sobre nosso futuro, quando ela me saiu com este provérbio estranho: “É mais fácil um corno manso; um veado ou um ladrão passar pelo buraquinho do cu de uma agulha, que um político falar a verdade”. Por isso o meu temor, seu Mamede. Vou passar tudo ao senhor. Vamos aos fatos.

Famíglia Cosa Nostra. Papai é chefe do tráfico e tem atuação muito forte no Rio. Ele conheceu a minha mãe numa casa de tolerância, um brega, e conseguiu tirá-la dessa vida. Hoje ela tem sua própria casa na zona com mais de duzentas mulheres e homens, e não precisa mais exercer esse trabalho pessoalmente, só de vez em quando pra se manter sempre atualizada e por dentro das tendências do mercado.

Manos e minas. Tenho três irmãos e duas irmãs que eu conheço pessoalmente. O mais velho é deputado federal. O segundo tinha problema, mas mudou muito a vida depois que cumpriu a pena por sequestro e estupro, e hoje é bispo da Igreja da Glória de Justos. Já ressuscitou mais de catorze mortos, curou mais de 3.000 aidéticos e reside hoje muito bem, com a graça de Deus, com suas quatro esposas lá em Jurerê Internacional.

Olha a cabeleira do Zezé! Meu terceiro irmão abandonou a milícia que ele comandava no Complexo do Alemão; se arrependeu dos presuntos que ele tem no currículo. Saiu do armário faz uns oito meses e hoje é travesti, trabalha na Rua do Jóquei Club em São Paulo, mas ele faz só ativo. Apesar de ter virado a casaca e largado o Mengão pra virar Vascaíno por causa do Ronaldo, ele é um menino bom e não causa preocupação na família. A gente vê que ele tá bem encaminhado.

Indefinição de Gênero. A minha irmã mais velha casou com o avô da ex-namorada dela, que está em estado vegetativo por causa de um derrame que ele teve quando o bicho pegou na época do mensalão. Ela abriu sua própria empresa em parceria com um sindicato, um despachante e um cartório, e hoje vende autopeças procedentes de veículos desaparecidos de outros Estados. E a minha irmã caçulinha trabalha de dia como atriz nas Brasileirinhas e de noite ajuda a mamãe, só que ainda na fase do atendimento direto ao cliente, pra poder pegar o know-how do negócio a partir da base.

As puladas de cercas no brega. Pra completar; ainda tenho duas meias-irmãs produto das horas-extras de papai lá no bairro da Lapa. Elas estão atuando lá pras bandas do Sul da Bahia. A Nini maçaneta presta serviço numa Secretaria Municipal de Saúde e a Valderês na Secretaria de Assistência Social. Ambas já compraram apartamentos na capital e algumas propriedades agrícolas. Iam muito bem, mas telefonaram ontem solicitando a indicação de um bom advogado criminalista. Acho que não deve ser nada. Elas sempre gostaram de advogados.

Puxando o pino da granada Bom, seu Mamede, a minha pergunta é a seguinte: o senhor acha que eu devo revelar de uma vez ou ir revelando pouco a pouco à minha namorada que eu tenho um irmão deputado e duas meias-irmãs em Cargos de Confiança?

Chamando cachorro de cacho.

Na verdade, se me perguntarem qual o conselho ministrei ao Lindinalvo, não saberei dizer. Depois dos agradecimentos, abraços e apertos de mãos, saí zonzo, taquicárdico, exausto. Esqueci minha Ferrari não sei onde; fui andando pra casa; errei o caminho e estou aqui perdido quem cego em tiroteio tentando ligar para o Condomínio pra solicitar um helicóptero pra vir me pegar no bairro Nossa Senhora das Vitórias. Não sei como vim parar aqui?

 

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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