A Política espantou o presidente

O que a Política pode fazer contra a pandemia? Investir nas soluções apontadas por quem estuda cada área envolvida no complexo esforço de compreensão do comportamento do vírus e dos meios de enfrentá-lo. Essas pessoas são conhecidas por aí como Cientistas. E o que dizem os Cientistas à Política? Em resumo, dizem que o isolamento social é o melhor meio que temos para enfrentar o vírus.

 

Por Thiago Dias.

A palavra política é usada há muito tempo. É natural que as palavras nessa condição ganhem muitos sentidos.

Hoje política significa um monte de coisa. Um desses sentidos é especialmente usado. Refiro-me ao que a associa às piores coisas da vida pública. É comum ouvir por aí, em tom negativo: “Fulano está fazendo política”.

O comportamento de grande parte dos políticos contribui para o uso corrente da palavra nesse sentido. E o que nos indica o predomínio desse significado? O tamanho do desprestígio da política.

Aqui não cabem discussões sobre a história do entulhamento semântico da palavra política. Cito-o apenas para contrapor essa conotação negativa à emergência da Política, esse patrimônio das civilizações. A ameaça do novo coronavírus nos expõe ao óbvio: a Política é o único caminho para evitar uma catástrofe.

O que a Política pode fazer contra a pandemia? Investir nas soluções apontadas por quem estuda cada área envolvida no complexo esforço de compreensão do comportamento do vírus e dos meios de enfrentá-lo. Essas pessoas são conhecidas por aí como Cientistas. E o que dizem os Cientistas à Política? Em resumo, dizem que o isolamento social é o melhor meio que temos para enfrentar o vírus.

Entrevista do ministro da Saúde. A ausência de Bolsonaro é um alívio que o combate do coronavírus exige. Foto: Renato Strauss/Ministério da Saúde.

Nesse contexto, não se trata de endeusar a Ciência. Trata-se de reconhecer seu papel e permitir que ela atue. Para isso, ela precisa da Política, que, por sua vez, depende de mulheres e homens capazes de fazer justiça aos poderes que lhes foram confiados.

A crise provoca o chamado à Política. Não à política em que as pessoas não confiam. Esse chamado expressa a confiança que fundamenta, mesmo sob todo o entulho semântico, nosso pacto social. E o que os princípios desse pacto protegem em primeiro lugar? A vida.

A crise provoca um chamado dos instintos coletivos de sobrevivência à Política. Isso espanta muita gente, sobretudo os políticos, porque sua responsabilidade é maior.

A imagem da entrevista coletiva do ministro da Saúde neste domingo ilustra o que quero dizer. Mandetta está no centro da tela – e das atenções. Ao seu lado, dois membros do Ministério. Jornalistas mandaram perguntas pela internet. Ele respondeu com o decoro e discernimento que o cargo lhe exige.

A ausência notável de Bolsonaro na coletiva é o alívio que o combate à crise exige. Ufa! Podemos respirar e discutir o destino das nossas vidas com o mínimo de responsabilidade. A Política espantou o presidente.

Thiago Dias é repórter e redator.



2 responses to “A Política espantou o presidente

  1. Tem muito a aprender com as tragédias, inclusive a votar! Esses candidatos autoritários com o pavil curto não sabem tomar decisão, faz rever as guerras o preconceito as proibições etc…

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