A prática do isolamento

É lamentável quando médicos que atuam na política (e com poder de decisão) deem importância pouco significativa para uma situação drástica que tem tirado vidas de forma tão rápida e dramática. É constrangedor testemunhar a falta de prontidão humanitária dos recursos públicos para conter um desastre vultuoso que ameaça a comunidade.

Por Ramayana Vargens.

Ilhéus conta com bons médicos. Nomes de comprovada competência (em todas as áreas) que há algum tempo atendem a comunidade e que conquistaram a confiança das famílias. Esse time tem sido reforçado e renovado com bons profissionais que vieram de outras partes para morar e trabalhar na região. Ilhéus tem um dedicado corpo de enfermagem, excelentes psicólogos, boas equipes de assistência social e socorristas tarimbados. Contamos com bons cursos de medicina e de outras áreas da saúde. Não falta material humano, disposto e habilitado, para enfrentar o COVID-19. Esta é uma certeza. Mas e a estrutura hospitalar e a capacidade de gestão em momentos de crise?

São muitas as dúvidas. Em relação aos hospitais, temos ilhas de excelência- não uma boa estrutura geral capaz de atender todas as demandas de saúde da população (principalmente das comunidades mais carentes). Convivemos com um quadro de dificuldades, sacrifícios e deficiências nos diversos níveis de atendimento básico. As inúmeras falhas no sistema mostram um quadro preocupante muito anterior ao coronavírus. Numa situação de acirramento da pandemia, quais são as reais condições do município?

Quantos leitos estão preparados para receber os casos mais graves? Quantos respiradores (indispensáveis para sobrevivência dos pacientes) nós dispomos? Quais as providências para capacitar um maior número de profissionais na operação e monitoramento dos equipamentos especializados? Quais as medidas em andamento para ampliar a capacidade de atendimento? Existem estratégias para melhorar as precárias condições sanitárias do município e minimizar seus efeitos nocivos? Como frear a proliferação acelerada do vírus que pode ocorrer nas áreas desassistidas dos altos, das periferias e da abandonada zona rural?

São muitas as preocupações que continuam sem esclarecimentos. Não há um canal eficiente, de ampla ressonância, que informe, atualize e oriente a comunidade com dados sobre a evolução local da crise - são repassados, apenas, informes pontuais. Qual a logística que garantirá o abastecimento de itens essenciais (para os cidadãos e os postos de pronto atendimento)? Quais os espaços preparados para receber o número de acometidos que exceda a capacidade hospitalar? Cabe lembrar que Ilhéus é ponto de convergência de populações vizinhas, que não encontram recursos suficientes em seus municípios. Qual o plano de contingência para garantir a segurança em distúrbios provocados por tensões
geradas durante a crise?

Confinada no limite restrito de suas casas, a maioria da população fica mais exposta e sensível às mensagens duvidosas e desestruturantes das redes sociais. Sentimos falta de uma voz firme, de uma liderança segura e pró ativa que forneça indicações confiáveis sobre como proceder em momento tão crítico e tenso. A comunicação oficial que repercute na cidade é, somente, a de um carro de som que repete o que todos já devem saber: “fique em casa, lave bem as mãos, use álcool gel…” Precisamos de respostas consistentes para nossas preocupações e problemas imediatos. Estamos carentes de decisões responsáveis que se antecipem às graves repercussões que o coronavírus pode trazer para Ilhéus.

É desanimador assistir dirigentes municipais em ritmo lento (ou quase inoperância) diante de um quadro global de emergência, em que líderes mundiais conclamam um esforço de guerra em suas nações. É lamentável quando médicos que atuam na política (e com poder de decisão) deem importância pouco significativa para uma situação drástica que tem tirado vidas de forma tão rápida e dramática. É constrangedor testemunhar a falta de prontidão humanitária dos recursos públicos para conter um desastre vultuoso que ameaça a comunidade.

A conclusão que resta é a triste constatação que algumas desautoridade, há muito tempo, estão recolhidas na sua inércia de isolamento social.

Ramayana Vargens é professor, jornalista e produtor cultural.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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