O vírus do golpe

Fica complicado para países dependentes, como o Brasil, contar com a ajuda externa. Especialmente com o desprestígio internacional que marca o atual governo. A gestão confusa e pouco eficiente das finanças nacionais (controle fiscal desequilibrado, câmbio desfavorável e esvaziamento dos ativos) mostra que o país não está preparado para enfrentar os graves eventos que se avultam. Não tem muito fôlego para sair do sufoco.

Por Ramayana Vargens.

Diante de um paciente na UTI, o médico avalia: a chance de sobrevivência é de 0,02 %. O mesmo percentual previsto para o crescimento do PIB nacional em 2020. O número expressa que o doente tem poucas possibilidades de escapar do pior. Caso idêntico ao da economia do Brasil, se o governo não mudar, rápida e radicalmente, suas formas de tratamento à situação crítica do país. Infelizmente, o Executivo tem demonstrado que a ambição do poder não permite correções de rumo nas equivocadas e danosas estratégias governamentais. A prioridade continua sendo usar a máquina estatal para manter-se no comando da nação. Seguindo esse objetivo, o presidente tenta creditar aos inevitáveis prejuízos causados pelo Convid-19 o fracasso de sua política econômica.

A economia é a única (e mais poderosa) trincheira que sobra ao presidente para defender o que resta de sua popularidade e garantir o apoio institucional que ainda o sustenta. O rigoroso discurso de combate à corrupção, durante a campanha, foi sendo diluído por fatos e denúncias. No ambiente virtual que criou a torcida organizada eleitoral do presidente é fundamental manter um tom veemente de incitação e enfrentamento. Provocação, desafio e ânimos exaltados são alimentos indispensáveis para a unidade de um contingente formado a partir da paixão exacerbada (ódio a Lula e repúdio ao PT). O presidente fala e age para seus seguidores – grupo que não se mobilizou em torno de propostas políticas fundamentadas. O papel do líder alfa é estimular o comportamento combativo para transformar qualquer contrariedade em confronto e porrada. Assim, quando o jogo republicano e os meios legais não legitimarem suas decisões, há a possibilidade de rebelar seus apoiadores para criar um clima de conturbação social e tomar medidas de exceção.

Se a terapia neoliberal (versão Paulo Guedes) da equipe econômica não vinha apresentando resultados, a coisa ficou pior com a crise do covid-19. O centro nervoso do mundo está fortemente infectado com a mais perigosa doença que pode atingir a economia global: uma recessão generalizada. A máquina que gira os negócios no planeta ficou comprometida. O circuito trabalho-produção-geração de riquezas entrou em pane. Os motores mais potentes – China, Estados Unidos e Europa – enfrentam sérios problemas e prejuízos incalculáveis. Os recursos que dispõem como reservas estão sendo destinados para a recuperação interna. Fica complicado para países dependentes, como o Brasil, contar com a ajuda externa. Especialmente com o desprestígio internacional que marca o atual governo. A gestão confusa e pouco eficiente das finanças nacionais (controle fiscal desequilibrado, câmbio desfavorável e esvaziamento dos ativos) mostra que o país não está preparado para enfrentar os graves eventos que se avultam. Não tem muito fôlego para sair do sufoco.

E o que está ruim sempre pode piorar. Como liderar um esforço para superar quadro tão drástico, quando a opção é se colocar isolado como um franco atirador que atira para todos os lados? O presidente não se entende com a classe política, não sintoniza com os governadores, intimida o judiciário e ataca a imprensa. O pacote de reformas (anunciado como solução redentora) não consegue avançar (devido à necessidade frequente de remendos). Até agora, as medidas adotadas pelo governo achataram o poder aquisitivo da população, travaram a indústria, o comércio e o setor de serviços. E treze milhões de desempregados não veem luz no final do túnel.

Sem equilíbrio para construir um caminho de consenso e cooperação coletiva para sair da crise, o mais fácil é encontrar um bode expiatório para responsabilizar pelos resultados dos danos econômicos e sociais (que já se acumulavam antes do vírus). As medidas protetivas e restritivas exigidas pela pandemia fornecem o falso álibi perfeito, na tentativa de encobrir as falhas presidenciais. Quem discordar ou reagir pode ser acusado de agitador e baderneiro. E, assim, construir a argumentação para levar a torcida às ruas, pedindo o fechamento do Congresso e do STF. Facilitar a progressão do coronavírus (em nome da salvação da economia) é ampliar as possibilidades de descontrole social – ambiente que sempre fortalece os ditadores. Talvez engane os mais incautos, como aquela famosa desculpa do pistoleiro, que se defende dizendo: “Eu só puxei o gatilho, quem matou foi a bala”.

Ramayana Vargens é professor, jornalista e produtor cultural.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



One response to “O vírus do golpe

  1. Já estamos na fase pós coronavirus? Opinião antecipada, individual e apaixonada, portanto sem valor.

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