Antropóloga diz que imagem de “meninão” do prefeito Mário Alexandre estimula desobediência na quarentena

Imagem desenvolvida por Marão não ajuda na crise da Covid-19.

Na última terça-feira, 7, o prefeito Mário Alexandre lançou um vídeo nas redes sociais em que tentou, pela primeira vez, expressar sua autoridade. Apesar do tom duro e taxativo em defesa do isolamento social, muitas pessoas não levaram a sério a mensagem. O aborrecimento demonstrado com a desobediência aos decretos municipais gerou vários comentários irônicos.

Esse fato motivou o BG a entrevistar a professora e antropóloga Georgia Couto. O tema principal da conversa, gravada nesta quarta-feira, 8, foi o comportamento de grande parte da população de Ilhéus diante da autoridade do prefeito Mário Alexandre.

Assim como muitos leitores deste blog, Georgia Couto também ficou surpresa com o grande movimento nas ruas, apesar da quarentena e dos decretos do prefeito que determinam o fechamento temporário do comércio e a suspensão do transporte coletivo.

Georgia Couto. Foto do arquivo pessoal.

Demora em ouvir a OMS.

Georgia Couto considera o governo federal fluido e inquieto. Não tem sustentação para “dominar” a sociedade. “Dominar” com base no conceito de Max Weber, que passa pela legitimidade conferida pelas leis, e sobretudo, pelo voto. O governo federal está enfraquecido. O ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, monta ações e o presidente Bolsonaro desmonta.

Ao não ouvir as medidas sugeridas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o governo Bolsonaro gera inconsistência e medo na população. Ilhéus é um reflexo disso no momento em que muitas pessoas decidem ir às ruas em desobediência às determinações municipais.

Na opinião da professora, o prefeito Mário Alexandre demorou a agir. Ilhéus é uma cidade turística com aeroporto, porto e rodovias, com fluxo de passantes intenso no verão. Por ter essas características, as ações de combate ao coronavirus na cidade deveriam ter acontecido mais cedo. O fato de o prefeito ser médico e não ter tomado as providências adequadas sugeridas pela OMS incentivou mais incertezas.

Representação “líquida”.

Segundo Geórgia Couto, Ilhéus possui um gestor com representação escorregadia, ou como disse Zygmunt Bauman, “líquida”. A percepção geral da população é de insegurança em relação a ele.

Além da luta contra o coronavírus, travamos também uma luta política, na qual ninguém compreende muito bem o que está acontecendo. Lembrando Émile Durkheim, há um estado de “anomia” (ausência de leis). No momento ocorre desrespeito às leis existentes, situação que torna a vida em sociedade desregrada e deixa a população de Ilhéus confusa.

O comportamento do prefeito de Ilhéus é caricato. Ele faz jus às expressões “boa gente” e “meio malandro”. Ao não impor a autoridade que o cargo requer, sua representação fica deslegitimada. A aparência de “meninão” confunde o povo. As pessoas questionam quem devem respeitar. Diante da representação do “moleque” que dança nos palcos das festas, e das incertezas passadas por ele, as pessoas não percebem a gravidade da pandemia e seguem lotando feiras e o comércio.

O gestor e o “menino/malandro”.

Georgia Couto afirma que falta ao prefeito a capacidade de impor a vontade do gestor aos demais, em nome do interesse público. A população percebe que as determinações feitas por ele, seguem o protocolo, mas não expressam a sua própria vontade. Desta forma, ele não consegue ter a obediência, pois a dominação legal não se consolida de forma plena. A representação do “menino/malandro” se sobrepõe à do gestor.



9 responses to “Antropóloga diz que imagem de “meninão” do prefeito Mário Alexandre estimula desobediência na quarentena

  1. Antropóloga, o presidente foi eleito por 58 milhões de eleitores. Se isso não for legitimidade, eu não sei mais o que é. O conceito de democracia para vocês da esquerda é singular: a democracia somente será abalizada se nós estivermos no poder. Critique, critique muito mesmo. Tem mais 02 anos até as próximas eleições,tá?
    Beijo, querida!

  2. Bom dia Sr José Roberto! Sei que o isolamento acaba nos deixando meio confusos nas interpretações, mas eu aconselho o Sr a reler o texto escrito por uma especialista como é Professora Georgia. Vou te dar uma dica meu querido: leia sobre os pensadores científicos que ela mencionou! Depois, quem sabe, o Sr possa tecer a sua opinião de forma mais embasada e dentro das premissas pétreas do Estado Democrático de Direito. Abraços querido!!

  3. Claro que houve legitimidade na eleição e essa foi definida lá em Out 2018, o que se espera é a postura de um líder e náo de um moleque irresponsavel que continúa no palanque, cada fala dele em rede nacional estimula a sociedade náo dar importancia a gravidade do covid19. Esperamos que ele se posicione da forma como o cargo requer e pare de intrigas com as autoridades científicas, será que o mundo está errado? Que esse imbecil se cale.

  4. Sim, sem dúvida foi eleito por 58 milhões. Mas, depois de 1 ano e 3 meses. Tem muita gente arrependido. Do aposentador, empresário e até ala militar, já estão na reclamação. Pela última pesquisa, o Bolsomito perde até para o Mandetta, em média 32% ainda apoio o presidente. Pois é, alguém tem coragem de gritar, salve Bolsomito na fila do INSS?

  5. As pessoas desobedecem por natureza por que ver os problenas ai todos são livres pra decidirem obedecer ou não so se os governos forçar

  6. Parabéns Geórgia.
    Sempre sucinta nas falas, colocações precisas, pautadas em uma gestão defasada tanto municipal quanto a federal.
    Sábias palavras e belas colocações. Lhe admiro muito.
    Bjs querida.

  7. De fato, assiste razão à Mestra e Antropóloga Georgia quando afirma peremptoriamente com fundamento em Émile Durkheim de que vivemos no presente um estado de “anomia”. Ou seja: ” ausência de leis”. Daí, o desregramento social. É como se estivéssemos em um barco à deriva ao mar. Neste momento de caos na saúde, não seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) é realmente um ato inconsequente com prejuízos incomensuráveis à sociedade. Parabéns Professora Georgia!

  8. Muito bem, Mestra Georgia. Em poucas palavras baseadas no seu vasto conhecimento definiu muito bem os motivos pelos quais o povo não está dando crédito ao Pefeito ,muito menos ao Presidente da República que ñ tem capacidade de gerir os destinos dessa Nação. Muitos não irão entender porque são papagaios de notícias fake via zap.

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