Monarca, mito, besta-fera e vingador: o que a “Caverna do dragão” nos diz de Bolsonaro?

Na contramão da maioria dos líderes mundiais, o mito coloca-se acima das autoridades científicas. Em tom profético, insiste que a Covid-19 – doença que já ceifou milhões de vidas mundo afora – no Brasil se manifesta na forma de pequenos surtos gripais.

Por Caio Pinheiro.

À semelhança de Luís XIV, monarca francês que verbalizou “O Estado sou eu”, marcando o caráter absolutista do seu reinado, onde todas as garantias individuais foram suprimidas por um governo autocrático, despótico e teocrático, Bolsonaro, até aqui presidente da República, também tenta se afirmar simbolicamente como “monarca absoluto”. Para os amantes da alternância democrática do poder, o “mito” torna-se ameaçador da sucessão democrática, visto que se mostra refratário à transitoriedade do seu cargo. O mito utilizará artifícios para se manter no poder à semelhança da ditadura?

Alguns sinais preocupam. Na contramão da maioria dos líderes mundiais, o mito coloca-se acima das autoridades científicas. Em tom profético, insiste que a Covid-19 – doença que já ceifou milhões de vidas mundo afora – no Brasil se manifesta na forma de pequenos surtos gripais. Para sustentar mais esse absurdo, apoia-se na tese pseudocientífica da “natural imunidade” dos brasileiros. Daí sentenciar que “o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajuda a não proliferar isso daí”.

Pelo andar da carruagem, eu, simples mortal, começo a especular que o coronavírus é um ser extraterrestre com poderes de invisibilidade, e Bolsonaro, depois de ter sido abduzido, voltou à terra tendo como tarefa comandar uma invasão alienígena, que, pelo quadro, objetiva liquidar a espécie humana. Mas calma, não se assuste, apenas estou tentando acompanhar o modus operandi do pensamento bolsonarista. Resolvi seguir o conselho do deputado Sargento Isidoro: “para conversar com doido, só outro doido”. Então, interessado em entender o mito, ao mesmo momentaneamente, me dei o direito de ser doido.

Contudo, fiquei um tanto preocupado, pois, como diz o senso comum, loucura pega. A julgar pela atuação da milícia digital bolsonarista, começo a crer que esse ditado poderia ser convertido em verdade científica. Nas redes sociais os apoiadores de Bolsonaro agem como se estivessem infectados pelo que chamo de “acefalopatia bolsonarista aguda”. Ao modo da besta-fera mor, vociferam ódio. Enquanto escrevo essa crônica, identifico aberrações sendo ditas contra o ministro da saúde, Luís Henrique Mandetta. Defensor do isolamento social, Mandetta, outrora uma das estrelas do “Dream Team” bolsonarista, agora tornou-se o inimigo a ser execrado. Motivo: optou pela ciência invés do achismo”.

Todo esse ódio me trouxe reminiscências da infância. Época em que aproveitava as férias escolares para assistir todos os episódios de “Caverna do dragão”, meu desenho animado predileto. A trama dessa animação girava em torno de Hank, Eric, Diana, Sheila, Presto e Bobby, jovens que ficaram presos num mundo mágico. Para enfrentar todos os perigos desse mundo, os seis jovens contavam a proteção do “Mestre dos Magos”, criatura do bem. Todos enfrentavam as constantes investidas do “Vingador”, ser do mal. Essa besta-fera queria destruir todas as belezas, desejava viver num mundo que refletisse seu mundo interior. Tinha poderes mágicos, dos quais a hipnotize era o mais temido. Graças a ele, conseguia fazer legiões perseguirem a autodestruição. Seria Bolsonaro nosso Vingador?

Chegando perto do fim dessa reflexão, gostaria de dizer que todo conhecimento tem como objetivo alcançar a veracidade dos fatos. Com efeito, senso comum, religião, filosofia e ciência constroem suas verdades. Conduto, o conhecimento científico é a maneira através da qual a maior parte da humanidade compreende o mundo no qual encontra-se imersa. E, nesses dias, em que todas as formas de conhecimento continuam válidas, a ciência, que se baseia nos rigores lógicos e técnicos do método científico, deve ser tomada como o caminho mais segura para sairmos desse labirinto de incertezas que nos aflige.  #FIQUEEMCASA!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



2 responses to “Monarca, mito, besta-fera e vingador: o que a “Caverna do dragão” nos diz de Bolsonaro?

  1. Caio, bom dia. Meu nome é Valdeir, vc me conhece, não tenho procuração pra defender o Presidente Jair Bolsonaro, agora vamos colocar as palavras certas no lugar certo. Ele usou a palavra gripesinha se referindo ao Dr. Drauzio Varela.

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