O que a luta dos ThunderCats contra Mumm-Ra tem a nos explicar sobre os embates entre Mandetta e Bolsonaro?

O problema é que no meio dessa luta entre os ThunderCats e Mumm-Ra existe uma legião cada vez maior de despossuídos e desesperançados. São milhares de brasileiros(as) para os quais a esperança virou um grito sem eco.

Por Caio Pinheiro.

Já não sei mais se devo odiar ou amar Bolsonaro. Explico! Nesses dias de quarentena, quando minha obsessão pela pátria foi potencializada, o mito e sua estupidez calculada acionaram lembranças desencadeadoras de sentimentos paradoxais.  Na verdade, sei lá o porquê, comecei a associar o presidente-mito a alguns personagens malignos dos desenhos animados que adorava na infância. Hoje resolvi rememorar dos ThunderCats e seu arqui-inimigo, um ser do mal chamado Mumm-Ra, “o rei de vida eterna”. Mas o que tem alhos com bugalhos?

Seguindo o roteiro comum das animações, os ThunderCats falavam de valores hoje muito caros: amizade, solidariedade, obstinação, bom-senso, superação e empatia. Não era possível perceber nos episódios uma ordem hierárquica (níveis de importância) entre esses valores, mas, no conjunto, todos acabavam remetendo ao ideal de um mundo mais inclusivo e justo.

Lion-O e os ThunderCats Cheetara, Panthro, Tygra, WilyKit, WilyKat e Snarf lutavam para proteger o “Olho de Thundera” – fonte de poder dos ThunderCats – que se encontrava incrustado na empunhadura da “espada justiceira”. A principal ameaça era Mumm-Ra, que, contando com o apoio dos mutantes, queria tornar-se senhor absoluto do “Terceiro Mundo”. O egoísmo e a frouxidão das suas convicções, sempre adequadas às conveniências, faziam desse personagem uma criatura odienta.

Transpondo-me para nosso mundo, que, nessa altura, mais parece uma realidade ficcionada, a marcha dos despautérios presidenciais autoriza-me a apelidar Bolsonaro de “BolsoMumm-Ra”. Recorrendo à comparação, penso que Luiz Henrique Mandetta (ministro da saúde), sua equipe e milhões de brasileiros compromissados com o enfretamento da Covid-19 fundamentados em evidências científicas, podem ser comparados aos ThunderCats. No lado sombrio, BolsoMumm-Ra, amante do mal, lança mão da hipnose retórica para assassinar centenas de vidas nesse cantinho do “Terceiro Mundo” não ficcional.

Consequência! O número de contaminados e vítimas mortais aumenta exponencialmente dia a dia. O isolamento social, medida que pode conter a curva de contaminação (aumento do número de infectados), está sendo reiteradamente desrespeitado. Vários são os motivos alegados para essa espécie de desobediência civil. Alguns justos e outros moralmente condenáveis. Entre estes está a cobiça desmedida de alguns empresários, e, infelizmente, o comportamento transloucado de Bolsonaro, que nessa altura assumiu a categoria de principal garoto-propaganda do boicoto ao isolamento social.

O problema é que no meio dessa luta entre os ThunderCats e Mumm-Ra existe uma legião cada vez maior de despossuídos e desesperançados. São milhares de brasileiros(as) para os quais a esperança virou um grito sem eco. Pais e mães que assistem às desgraças causadas pelas desassistência e inanição, mas, mesmo assim, reagem dentro das suas minguadas possibilidades, sem esquecer de ajudar o poder público a impedir o crescimento da Covid-19.

Sob esse espírito, de norte a sul, brasileiros (as) estão se unindo. Correntes de apoio e ações espalham-se por todos os cantos. Ocorre silenciosa uma mudança de comportamento. Há um Brasil mais solidário nascendo, mesmo que forças contrárias tentem abortá-lo. E nisso deposito minhas esperanças. Acredito na força transformadora das coletividades organizadas. Normas e regras promotoras de justiça social dependem da sociedade civil organizada.

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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