Presidente, vai cair no colo de quem?

Como estão em jogo, no mínimo, dezenas de milhares de vidas humanas, o que realmente importa neste momento é minimizar ao máximo o número de óbitos, pois diante da morte, da perda de um ente querido – ou da própria vida – torna-se não sem importância, mas inteiramente secundário saber de quem foi a culpa.

Por Julio Gomes.

Durante a recente cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde, Nelson Teich, na qual se encontrava presente o Presidente da República, ao discursar neste evento e falando acerca da defesa que sempre fez de reabertura imediata do comércio e do retorno de todas as atividades econômicas, Bolsonaro afirmou que “é um risco que eu corro, porque se agravar, vem pro meu colo”.

O que se deve entender por vir para o meu colo, para qualquer pessoa que tenha um mínimo de capacidade interpretativa, quer dizer que tanto os acertos quanto os erros resultantes da reabertura do comércio deverão ser lançados na conta do Presidente, que assim se coloca no centro absoluto do debate, com se as vidas que podem ser perdidas fossem secundárias, ou mesmo desprovidas de importância.

Vamos, então, averiguar quais seriam as consequências passíveis deste cair no colo do Presidente.

Caso o Bolsonaro esteja correto, e a reabertura do comércio ocorra com um baixo número de mortes – e só Deus sabe o que isto significa na cabeça dele, porque somente até a manhã do dia 20 de abril já temos 2.484 óbitos oficialmente causados pela COVID-19 – a economia estaria “salva” e ele colheria os dividendos políticos positivos.

Ao revés, caso Bolsonaro esteja errado e a abertura do comércio nesta hora venha a causar muitos milhares de mortes – algo que pode chegar a um número inimaginável de perdas humanas – a “culpa” também recairia sobre o Presidente.

Ora, em primeiro lugar, mostra-se tremendamente equivocado este enfoque de reduzir a luta contra a COVID-19 a uma opção pessoal do Presidente, porque a responsabilidade de quem governa vai muito além disso: passa por escutar os técnicos da área de saúde; por pautar-se por seguir orientações científicas; por mobilizar a sociedade civil (empresas, ONGs, instituições diversas) nesta luta; por articular-se com governadores e prefeitos para ações conjuntas; por dar condições aos profissionais de serviços essenciais para que tenham segurança para trabalhar; por prover de alimentos todos aqueles que não têm como se manter; por comprar respiradores, EPIs, medicamentos e testes; por instalar hospitais de campanha e providenciar pessoal capaz de fazê-los funcionar, e tudo isso vai muito, muito além do que seria uma opção pessoal do Presidente.

Entretanto, Bolsonaro se mostra preocupado tão-somente em ocupar o centro da cena política, revelando um egoísmo e insensibilidade que ultrapassam a todos os limites da normalidade, fazendo com que as urgentes ações citadas acima pareçam não fazer parte nem mesmo de suas preocupações.

Como estão em jogo, no mínimo, dezenas de milhares de vidas humanas, o que realmente importa neste momento é minimizar ao máximo o número de óbitos, pois diante da morte, da perda de um ente querido – ou da própria vida – torna-se não sem importância, mas inteiramente secundário saber de quem foi a culpa.

O momento é de tentar evitar o colapso da saúde, que já começa a ocorrer em cidades como Manaus e em outras capitais brasileiras. É de tentar salvar vidas, de pacientes, de trabalhadores da saúde, de todos, o máximo que seja possível.

Queremos que, ao final desta pandemia, as pessoas estejam vivas, sejam elas bolsonaristas, petistas ou apartidárias, pouco importa, nós as queremos vivas!

Queremos, por parte de todos os nossos governantes, e com urgência, providências capazes de manter a nós brasileiros vivos, porque quem morrer cairá, verdadeiramente, no colo de Deus, e a discussão acerca de quem foi a culpa não irá ressuscitar ninguém.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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