Você se torna aquilo que consome

Embora reconheça que cada um tem o direito de gostar do que quiser, penso que ninguém discordaria de que muito do que vem sendo veiculado como sucesso atualmente, no campo da música, tem um conteúdo de qualidade muito ruim.

Por Julio Gomes.

Tenho observado, atentamente, as alterações que ocorrem no mundo da Cultura ao longo dos últimos 30 anos. São mudanças relacionadas ao que é veiculado pela mídia como maiores sucessos; aos temas abordados nos filmes de maior bilheteria; aos modelos de comportamento oferecidos à juventude pelos grandes grupos midiáticos. Mudanças que, para mim, se tornam mais evidentes na música onde, talvez, as inovações tenham sido mais explícitas.

Embora reconheça que cada um tem o direito de gostar do que quiser, penso que ninguém discordaria de que muito do que vem sendo veiculado como sucesso atualmente, no campo da música, tem um conteúdo de qualidade muito ruim. A forma pode continuar boa, sim, com uma “batida” legal, envolvente, um ritmo cativante, mas a mensagem das letras musicais parece piorar a cada dia, numa espiral sem fim.

Não se trata de só querer música de “alto padrão” o tempo todo, pois as produções mais descontraídas sempre tiveram seu lugar: “Chiquita Bacana Lá da Martinica” (1949); “Me dá um Dinheiro Aí” (1969), Rebolation (2009) são ótimos exemplos disso. Mas eram exceções, em um universo de músicas com mais profundidade.

Os nutricionistas nos dizem, com acerto, que nosso corpo é o que nós comemos. Parodiando-os, afirmo que nossa cabeça, nossos valores e nossa conduta social, são o que consumimos culturalmente, são o que lemos (ou deixamos de ler), são os vídeos do YouTube ou canais de TV aberta que assistimos, são as músicas que ouvimos.

O problema não é ouvir uma música besteirol, nem mesmo que existam músicas que só falem de violência, ostentação, baixarias sexuais ou vulgaridades. Todo mundo ouve isso de vez em quando, num momento de descontração, nem que seja em um bar ou em uma festa. O problema consiste em as pessoas só ouvirem isso, e mais nada, a ponto de se impacientarem e recusarem a qualquer outro tipo de música que fuja àquilo de péssima qualidade que se viciaram em consumir.

Sejamos mais diretos: ouvir músicas, assistir a vídeos e outros produtos culturais que só falam de violência gratuita, sem contexto social; de carrões e roupas de marca; de consumo de bebidas e drogas; e de sexo com pura baixaria, fecha a mente da pessoa, te faz ser limitado, obtuso e, se a pessoa se vicia neste ciclo, tende a tornar-se um imbecil, mesmo sem que o perceba.

Insisto na metáfora: se comidas e bebidas ruins estragam seu corpo, produtos culturais de péssima qualidade destroem sua mente e, depois dela, seu caráter e sua conduta.

Assim como na alimentação não consumimos coisas saudáveis o tempo todo, também na cultura acabamos consumindo algum “lixo”, que as vezes pode até ser bem saboroso, a depender da ocasião! Mas esse lixo não pode ser, jamais, nem a base nem a única fonte das nossas energias, sejam físicas ou psíquicas, mentais.

Ouça e dance as músicas do canal FitDance, mas ouça também Pitty e O Rappa; ouça os raps de ostentação (a batida é boa!), mas não abra mão de Racionais; ouça o besteirol que você quiser, mas depois pare para ouvir OQuadro. Ouça alguma música da “baixaria”, mas escute também Padre Marcelo Rossi e a evangélica Aline Barros.

E, sobretudo, não permita que sua mente se feche, porque se isso acontecer, você mesmo travou seu processo de crescimento como ser humano, como pessoa, e corre grave risco de se tornar tão rasteiro quanto as músicas que escuta, de forma exclusiva.

A pessoa que mais pode te fazer progredir é você mesmo. E a que mais pode te atrapalhar também é você. Faça boas escolhas, abra sua mente, conheça um pouco de tudo, mas cresça, cresça sempre, e para isso é preciso consumir produtos culturais – músicas, vídeos, conversas, áudios – de boa qualidade, porque você se torna aquilo que consome.

* Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz

Link para o canal do autor no YouTube.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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