Ainda estão achando engraçadinho?

Nada mais que venha de Bolsonaro me surpreende: qualquer estupidez, qualquer asneira, grosseria, baixaria ou violência que venha a cometer não fará mais do que, para mim, confirmar a conduta doentia e a absoluta inaptidão para exercer o alto cargo que hoje ocupa.

Por Julio Gomes.

Terça-feira, dia 19 de maio de 2020. Neste dia, no Brasil, ultrapassamos um triste marco: tivemos 1.179 registros de mortos pela COVID-19 em um único dia, nas 24 horas anteriores àquela data.

Na mesma data também assumimos outro triste protagonismo: O Brasil liderou, pela primeira vez, a lista dos países em que mais mortes foram identificadas em 24 horas, em decorrência da mesma doença, número que superou os 933 óbitos identificados nos Estados Unidos no mesmo período, deixando este país em segundo lugar.

Tudo isso, lembremos, em números oficiais, que aqui no Brasil são assumidamente subnotificados.

No mesmo dia em que toda esta tragédia coletiva era anunciada, o Presidente Bolsonaro, em live com o jornalista Magno Martins, afirmou entre risos “que quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”, mantendo a sua coerência de deboche para com a doença e a morte de dezenas de milhares de brasileiros.

Nada mais que venha de Bolsonaro me surpreende: qualquer estupidez, qualquer asneira, grosseria, baixaria ou violência que venha a cometer não fará mais do que, para mim, confirmar a conduta doentia e a absoluta inaptidão para exercer o alto cargo que hoje ocupa.

Não há graça no adoecimento e morte de pessoas queridas. Nem no sofrimento de quem perde um parente. Não há graça nenhuma em termos um general no Ministério da Saúde, que não é médico, e que após assumir esta pasta já nomeou pelo menos mais 18 militares para o mesmo Ministério, sendo que nenhum deles tem formação técnica na área de saúde.

Não há graça nenhuma em um Presidente gritar para repórteres “calar a boca”, nem nas infindáveis estupidezes que são cometidas diariamente, enquanto assistimos a morte de brasileiros e a completa desmoralização do Brasil no cenário internacional, a ponto de sequer sermos convidados a participar da Aliança Global, promovida pela OMS – Organização Mundial de Saúde, para decidir acerca da busca de tratamentos, vacinas e formas de enfrentamento da COVID-19, acentuando ainda mais nosso isolamento diplomático e nosso retrocesso nas relações internacionais.

Entretanto, se nas atitudes de Bolsonaro nada me surpreende, confesso que me causa profundo desgosto o fato de que pessoas de meu convívio, a quem sempre devotei sincera estima, acharem “engraçadinho” o que o Presidente fala, havendo algumas que ficam até mesmo a esperar qual será a asneira do dia para poderem fazer piada, dar risada, divertindo-se com a desgraça alheia e repetindo a mesma atitude debochada e repulsiva adotada pelo ocupante da Presidência.

Algumas pessoas que se notabilizam por orientar a conduta social, ou mesmo espiritual de outros seres humanos, dizem, sabiamente, que quando não houver nada de proveitoso a ser dito, devemos considerar a opção ficar calados.

Quem não encontra uma palavra de consolo, uma proposta de melhoria para algo, uma expressão de fé no futuro pode, de fato, abster-se de falar besteira ou de rir da desgraça alheia, para que, pelo menos, não contribua com a banalização de atitudes estúpidas; e para que conserve, em relação a si próprio, o respeito de seus semelhantes.

* Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz

Link para o canal do autor no YouTube.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *