Não nos satisfazemos com a conveniência das conformidades

Sem dúvidas, precisamos repensar nossos consensos. A esquizofrenia das posições governamentais amplia o abismo entre ricos e pobres. Banaliza-se a miséria, ao tempo que tentasse liquidar a riqueza das nossas diferenças. Naturalizar a tragédia parece ser o objetivo maior daqueles que ocupam o executivo federal. E agora, vamos ficar fingindo que está tudo de boas? Ainda há algum espectro de bom-senso?

Por Caio Pinheiro e Rans Spectro.

Sim, estamos abandonados! Esse sentimento de orfandade já é comum em milhões de brasileiros. Resolutos, assistimos ao aniquilamento de todas nossas potencialidades enquanto nação. Nas ruas, o número de marginalizados aumenta exponencialmente. De país do futuro, viramos a pátria do obscuro. Nosso amanhã nasce repleto de interrogações indecifráveis. Hostis à memória histórica – antídoto eficiente contra a ignorância cidadã – ficamos incapazes de entender o porquê de vivermos tempos tão caóticos.

Abraçamos explicações superficiais para nossas mazelas. Salvo minguadas exceções, a inércia tomou conta de quase 200 milhões de almas nesse canto oriental da América do Sul. Imersos num tempo acelerado, discernimos quase nada para além do óbvio. Urge enxergarmos sobre as muralhas dessa ignorância que liquida a prosperidade coletiva. Até quando optaremos pelo conformismo no lugar do protagonismo? Tratamos a miséria enquanto um ser onipresente, contra o qual reagir é uma atitude humanamente impossível.

Há desorientação total. Economia, política, institucionalidade, justiça, saúde, educação e cultura funcionam para atender um grupo seleto de cidadãos. País geograficamente continental, construído sobre as chagas da escravidão, possuidor de uma insuportável desigualdade social, o Brasil retroage rumo à barbárie. Aqui, mais do que nunca, se aplica perfeitamente a máxima de que “o homem é o lobo do próprio homem”. E aí, vamos ficar de boa?

Sem dúvidas, precisamos repensar nossos consensos. A esquizofrenia das posições governamentais amplia o abismo entre ricos e pobres. Banaliza-se a miséria, ao tempo que tentasse liquidar a riqueza das nossas diferenças. Naturalizar a tragédia parece ser o objetivo maior daqueles que ocupam o executivo federal. E agora, vamos ficar fingindo que está tudo de boas? Ainda há algum espectro de bom-senso?

E as luzes do bom senso são apagadas a cada dia no já estreito horizonte das nossas possibilidades. Algo como se o ideal esperançoso de “fim do túnel” se convertesse em um lastimável “fundo do poço”. Charco de lodo moral que se evidencia como norteador ideológico dos que detém o poder executivo na esfera federal, devidamente reverberado pelos seus asseclas e partidários.

Vejam, não se trata de mera leitura tendenciosa dos fatos. Menos trágico seria. Objetivamente, é a ignorância evidente nos sentidos coletivos que incomoda. Impossível ignorá-la. Cegueira e insensibilidade acometem os que pactuam com a desgraça generalizada. Estes, fazendo uso de insuportável maquiavelismo, são perigosos. Estão organizados, por isso, para frear seus ímpetos assassinos, faz-se urgente desmascarar estes ladrões de amanhãs.

Vivemos tempos sombrios, onde a ciência é alvo constante de desmerecimento e mentiras convencionadas. Uma espécie de dogma religioso esquizofrênico foi alçada ao patamar de verdade conveniente. Sejam bem-vindo à pátria dos valores invertidos! E isso ganha contornos ainda piores de absurdo quando o líder político mor do país e a agência federal de notícias têm conteúdos publicados em redes sociais, bloqueados, classificados vergonhosamente (não para eles) como “fake news”. Perceberam a gravidade da situação?

Ante tudo isso, algumas perguntas ficam no ar: até quando esse descalabro seguirá? Até onde tudo isso vai? Vamos mesmo assistir impassíveis esse circo de horrores? As respostas para essas questões só podem vir das ruas, da capacidade de articulação dos segmentos organizados e movimentos sociais. Não há mudança possível sem o desejo soberano do povo.

Contudo, não há como conviver pacificamente com a barbárie. Necessário se faz uma resposta popular, do contrário a vivacidade do amanhã estará sempre sombreado pela desesperança. Daí, mesmo que os amantes do pensamento único venham covardemente nos chamar de ridículos, deixamos aqui nossa contribuição. Acreditamos que tudo isso vai e pode passar, mas desejamos ficar ombreados com aqueles (as) que jamais deixaram de se importar, curvando-se à conveniência do conformismo.

É assim que precisam pensar e agir ao menos os que em algum momento sentiram o peso da exclusão social. Se importar importa e é importante num mundo no qual se importar deixou de ser importante. Nós, optamos pela importância de se importar. Somos fruto da resiliência. Concebidos em ventres livres, aprendemos a grandiosidade do importar-se. Com efeito, continuaremos aquilombados e resistindo em prol da importância humana nesse quadro que ainda está longe ser o quadro no qual e pelo qual iremos alinhar nossos horizontes. Sejam bem-vindos ao nosso universo particular!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Rans Spectro é um otimista apocalíptico, astrólogo canastrão e sócio fundador da OQuadro Corporation. 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



One response to “Não nos satisfazemos com a conveniência das conformidades

  1. O Brasil diz ser democrático, porque nos obrigam a votar? quando não comparecemos somos multados e os valores pagos são revertidos para o fundo partidário, daí a obrigatoriedade do voto. Bolsonero está fomentado uma guerra civil com o intuito de um golpe de Estado, por isso sinceramente sou e sempre serei contra as eleições, meu sonho utópico é uma revolução popular, ressaltando a efetiva participação do povo e não de partidos políticos. Parabenizo vcs pelo artigo.” Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

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