A igreja, suas mudanças e nossos sentimentos

O respeito que até hoje guardo pela Igreja Católica vem, em grande parte, de Padre Amário, que é sem dúvida um desses padres que hoje seria tachado de comunista, de militonto, de esquerdopata e de outras imbecilidades sem tamanho que estão na moda.

Por Julio Gomes.

Há cenas da infância que não se apagam jamais de nossa memória. Uma delas, quando me encontrava nos últimos anos da infância, me remete a meu avô, em um momento em que ele, nervoso, dizia que não gostava de padres, nem de ninguém que estivesse ligado a nenhuma espécie de Igreja. Tratava-os com educação e respeito, mas reiterava, agitado e tenso, que não gostava.

Talvez por haver estudado todo o primeiro grau em um colégio de freiras, instituição particular onde, apesar das amarras típicas dos educandários religiosos, somos tratados com riqueza de atenção e carinho, entristeceu-me aquela atitude de meu avô, que para mim era como um pai, sempre muito querido e amado; e com voz baixa, ainda com a inocência da infância, lembrando das lições do educandário em que nos ensinavam que Deus é amor, indaguei-lhe, muito humildemente, o porquê?

Vovô me olhou com um olhar significativo, que jamais esquecerei, e dominando seu sentimento adverso, talvez pelo tanto que gostava de mim; e decerto visando me fazer compreender melhor a vida, respondeu: “Deus é amor hoje, meu filho. Antigamente, Deus era para vigiar e castigar, e estava sempre do lado do rico e contra o pobre”. Em seguida, mais calmo, narrou o seguinte episódio:

Disse-me que quando a mãe dele morreu (fato ocorrido em torno de 1950), saiu a noite, sozinho e sob o sentimento da perda dolorosa, a procurar um sacerdote católico que pudesse encomendar o corpo mediante as orações de praxe deste credo.

Após muito rodar em seu carro naquela noite fria e chuvosa na cidade do Rio de Janeiro, chegou a um mosteiro situado em local distante onde, após muito bater à porta, sob chuva intensa, lhe veio atender um religioso que, em voz ríspida, lhe perguntou secamente: O que o senhor quer aqui a esta hora?

Após ouvir que se tratava de um falecimento a requerer as devidas exéquias, o religioso fez duas perguntas: O senhor está de carro? O senhor tem a quantia de (…)? Como as duas respostas foram afirmativas, foi-lhe dito que aguardasse ali fora, onde depois de uma angustiosa espera apresentou-se novamente o religioso, agora totalmente paramentado e ostentando suas roxas e ricas vestes, para proceder sem calor humano ao quanto solicitado.

Após a oração de corpo presente, o pagamento da significativa quantia ajustada e a condução do religioso ao mosteiro de origem, restaram para vovô a dor da perda materna e a consolidação do mau sentimento que nutria, ou passou a nutrir, com relação aos representantes de todos os credos religiosos, mantendo-o até a idade mais avançada.

Passaram-se os anos. Nossa família se mudou para a Bahia, vindo morar em Ilhéus. Eu já era, então, um homem, embora jovem, com cerca de 25 anos de idade, estudando na FESPI (hoje UESC). Idealista, militante ativo, guardava no fundo da memória, quase esquecida e em silêncio, a história que me fora contada ao fim da infância, assim como as impressões que a ela estavam associadas.

Foi quando faleceu, em dolorosas circunstâncias, uma jovem que era parente de um companheiro de lutas políticas e sociais, nos levando à solidariedade da presença junto à família enlutada.

Quando o velório se encontrava próximo do horário de se encerrar, vi chegar o Padre Amário, a quem admirava por conta da firmeza de seus posicionamentos religiosos e sociais. Com grande surpresa o vi tirar de uma sacola muito simples, de plástico, seus paramentos de padre e, sem cerimônias, vestir-se com eles em um canto, mas a vista de todos, iniciando as orações com grande sentimento e humildade.

Após o fechamento do caixão, vi Padre Amário entrar no ônibus que estava à disposição dos que não tinham carro, sem nada pedir, e seguir até o cemitério, onde fez as últimas orações junto ao túmulo.

Quando todos já se dispersavam, o padre, de forma discreta, junto a outras sepulturas do Cemitério da Urbis, começou a retirar suas vestes sacerdotais e guardá-las na mesma embalagem humilde, preparando-se para voltar na mesma condução coletiva destinada aos mais pobres, quando não contive minha sede de saber para melhor compreender a vida e me aproximei de Amário, com quem tinha certa intimidade para dialogar, perguntando-lhe, com toda a diplomacia que consegui reunir, sobre as condições e custos para que ele se fizesse presente naquela situação.

Amário, após ouvir-me, endereçou-me um olhar de certo desconforto, e respondeu com a forma educada, simples e direta que o caracteriza que sua presença ali fazia parte de seu Ministério e de seu compromisso com Deus, não sendo necessário nada mais do que um pedido da família para que ele viesse cumprir sua missão sacerdotal.

Findo o diálogo vi Padre Amário se dirigir ao mesmo ônibus coletivo que o trouxera, e nele retornar com seu dever plenamente cumprido.

O respeito que até hoje guardo pela Igreja Católica vem, em grande parte, de Padre Amário, que é sem dúvida um desses padres que hoje seria tachado de comunista, de militonto, de esquerdopata e de outras imbecilidades sem tamanho que estão na moda.
Com seu compromisso cristão, com seu ativismo social, com sua solidariedade irrestrita, com sua humildade que espelha àquela exemplificada pelo Cristo, Padre Amário – assim como outros que eu poderia aqui citar e como o Papa Francisco – representa o que há de melhor na Igreja Católica, no cristianismo renovado e sem discriminações, que acolhe, que perdoa, que cuida, que ama, e que nos faz respeitar e amar a Igreja, que representam de forma tão humilde e tão abençoadamente brilhante.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.

 



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