Sobre a reabertura – ou não – dos templos religiosos em Ilhéus

Religiosidade, penso eu, é amor ao próximo e a si mesmo, ao idoso que se encontra em nosso lar, aos fragilizados, às pessoas dos grupos sociais que, voluntariamente ou por força de nossas obrigações, temos de frequentar.

Por Julio Gomes.

No dia 23 de maio foi publicado, em Ilhéus, o Decreto nº 037/2020 que, entre outras coisas, dispõe sobre “regras de funcionamento dos templos de qualquer culto ou religião” e, na prática, autoriza a abertura de todos a partir do próximo dia 1º de junho.

Não se pretende, aqui, fazer uma discussão de natureza teológica, até porque isto seria impossível em poucas linhas, já que o Decreto abrange a igreja católica, todas as denominações evangélicas, os diversos centros espíritas, as religiões de matriz africana (candomblé, umbanda) e as de origem oriental, como a Seicho-No-Ie, isso para sermos sucintos.

Pretendemos, isto sim, falar ao coração de cada pessoa, trazendo o seguinte questionamento: Qual a real necessidade de nos reunirmos em uma situação onde o distanciamento social se torna quase impossível, e onde estaremos excluindo pessoas maiores de 60 anos e deverão se auto excluir todos os portadores de determinadas comorbidades (portadores de imunodeficiências, por exemplo) para exercermos nossa prática religiosa? Ou questionando de forma mais simples: Qual a necessidade de em um momento de grave risco de morte por contágio irmos ao local físico de culto para entrarmos em contato com Deus?

As igrejas, sobretudo evangélicas, dispõem de admirável aparato de comunicação social tais como emissoras de rádio, canais de televisão, mídias na internet e em redes sociais, no que foram secundadas, embora talvez com menor eficácia, pelas demais denominações religiosas (católicos, espíritas, etc.), podendo chegar aos seus seguidores com facilidade similar ao acesso a uma emissora de TV aberta.

Também podemos, no lar, realizar a leitura de um texto sagrado, fazer a oração neste grupo e assim reforçar a prática da oração em família, tão esquecida nos dias de hoje.

Podemos orar também em momentos determinados, como ao acordar, antes das principais refeições e ao deitar, sendo certo que se a prática religiosa coletiva é importante, a mesma prática individual, seja em forma de oração, meditação ou outra de acordo com o credo escolhido, é igualmente fundamental e existe em todas as denominações religiosas.

Por fim, cumpre salientar que se a ida coletiva aos locais de culto ficou impedida, a assistência religiosa não ficou, já que os diversos ministros religiosos não deixaram de assistir, consolar, orientar, doutrinar, amparar àqueles fiéis que lhes solicitaram a assistência da Palavra, e até mesmo, em muitos casos, a assistência material da comunidade religiosa a que pertencem.

Sim, faz falta aos nossos corações a congregação nas igrejas ou similares, e também me ressinto desta falta. Mas o momento ainda é de cautela, de restrições, de abstinências.

Acompanho desde o início da pandemia na Bahia os boletins emitidos pela Secretaria Estadual de Saúde, que somente ontem, dia 27/05, demonstrou o perfil (omitindo nomes, evidentemente) do 496º ao 531º óbito ocorrido em nosso Estado.

No Município de Ilhéus, há uma semana todos os 31 leitos de UTI para COVID-19 estão ocupados (100% de ocupação) e o número destes pacientes internados em leitos clínicos simplesmente não é divulgado no quadro resumido que é mostrado à população. Também não há disponibilização de testes para quem os queira fazer (como ocorre em Salvador) e continuam as queixas de pessoas com sintomas, mas que apesar de solicitarem reiteradamente não são submetidas a testagem.

Religiosidade, penso eu, é amor ao próximo e a si mesmo, ao idoso que se encontra em nosso lar, aos fragilizados, às pessoas dos grupos sociais que, voluntariamente ou por força de nossas obrigações, temos de frequentar.

Neste momento me alinho com as denominações religiosas – e não quero aqui citar quais foram – que decidiram permanecer fechadas, apesar da permissão legal de funcionamento, porque entendo que o amor a Deus e ao próximo consiste, neste momento, em dar nossa humilde contribuição no combate à COVID-19, ficando o máximo possível em casa, em isolamento social, exercendo a prática doutrinária, a oração (em rede de comunicação, em família e/ou sozinho) e a solidariedade que expressa esse amor, dentro das possibilidades de que se dispõe, em uma atitude responsável que nos coloca em paz com nossa consciência e com o Ser Supremo.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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