Tem gente!

O homem primitivo da idade pedra fez contato com o medo quando ainda nos primórdios da sua irracionalidade; o temor do desconhecido que impactava a sua estúpida animalidade instintiva teria sido uma das suas primeiras reações no sentido da auto sobrevivência. A inexplicabilidade do que via diante a sua primordialidade fazia despertar um sentimento que, para ser mais direto, vou resgatar aqui no nosso futuro presente, o medo, misto de incerteza, de curiosidade; o temor em sua primordialidade racional.

Por Jamal Padilha

Bati à porta do “quartinho” já aflito. Uma cagada coroada, todos sabem, é coisa difícil segurar. Apertado, escutei a voz lá de dentro. _ Tem gente! Tem gente cagando… Tem gente vivendo… Tem gente morrendo e tem gente roubando. E silenciou.

Medrando no meio do medo: O homem sempre temerá o desconhecido, as incógnitas que por mais que nos esforcemos não conseguimos chegar sequer a um resultado aproximado sobre sua real equivalência. Ao aproximar-se de um resultado sempre irá se deparar com uma dízima periódica que o estarrece ante a sua incapacidade lógica, sua pouca racionalidade; sua léxica flutua no vazio dos porquês, não só os exatos quanto os filosóficos. Dai o medo que incute o desconhecido e o improvável por sua imprevisibilidade.

Que partido é esse, gente? O homem primitivo da idade pedra fez contato com o medo quando ainda nos primórdios da sua irracionalidade; o temor do desconhecido que impactava a sua estúpida animalidade instintiva teria sido uma das suas primeiras reações no sentido da auto sobrevivência. A inexplicabilidade do que via diante a sua primordialidade fazia despertar um sentimento que, para ser mais direto, vou resgatar aqui no nosso futuro presente, o medo, misto de incerteza, de curiosidade; o temor em sua primordialidade racional.

Estou com “Furcht”, mas vou escrever. Os fenômenos climáticos preencheram parte da sua perigosa e disputada sobrevivência entre as feras à época. Raios, trovões, terremotos, o fogo e a morte, supomos, já deviam fazer despertar no seu inconsciente primitivo reações do tipo “Furcht”, que significa medo no sentido de receio, temor. A “Angst”, que pode ser mais visceral e imediata, indica uma reação intensa em face de uma ameaça, e desencadeia uma ação (de ataque ou fuga) ou, mais raramente, algo que causa tanto pavor, segundo a teoria freudiana. Nesse paradoxo de emoções incompreendidas, quando o cérebro e psiquismo humano ainda dependiam de alguns de alguns milhares de anos para evoluir da irracionalidade até os níveis vistos hoje na humanidade, que prefiro não denominar inteligentemente eubiótico, racional ou gregário/humanista. Ainda estamos em franco processo de transformação, pois não me parece justo dizê-lo em evolução. Ou não?

Era ainda mocinha quando deu! Entendo as atuais relações humanas ditas civilizadas como se um misto de encarniçada disputa pelas primazias individuais sobre as coletivas; a saciedade dos instintos, o poder, a riqueza, o domínio. Vivemos sob um processo moral e ético sociologicamente apenso ao relativismo. Coisa que não podemos minimizar com meros eufemismos para um atávico niilismo coletivo ou uma simples derivação da moral social na plenitude da sua informalidade. Nesse caso, os pressupostos da inocência dão lugar à ambiguidade e põe dúvidas sobre velhos comportamentos agora considerados popularescos quanto ao cultivo da honradez; da verdade, da justiça… É tudo muito relativo; um relativismo impositivo e convenientemente direcional.

Não aceite cheque. É só um papel. O que representa a verdade para mim; pode não ser verdade para outrem; mas isso não tem importância alguma. A verdade no relativismo é aquilo que eu “percebo” como verdade. E não importam as origens de fatores indutivos que incidem verticalmente do particular para o coletivo. Tudo ocorre independentemente da opinião alheia, do coletivo, ou das conclusões obtidas por outros “indivíduos” supostamente integrantes num conjunto pseudoclassicista sobre o mesmo tema refletido.

Claro, neste caso, o relativismo deteriora as relações humanas e conduz a um estágio de desconfiança mútua; de suspeição permanente; do desagrado ao questionável, ao ambíguo, etc. que alguns relativistas denominam em política de “Democracia plural”.

Sócrates morreu envenenado com cicuta. Se vivo fosse, hoje morreria de vergonha. Esse relativismo não é congênito; ele advém dum evolucionismo sociológico singular e, individualmente exclusivista e tendencioso; àquele mesmo que também influi na inserção de novos termos ou na supressão de outros por caduquice da prosódia nas línguas vivas. Modismos, maneirismos, neologismos… Relativismos. Quase inescapáveis, não fossem os resquícios da velha filosofia da moral ainda que caduca, subsiste, não obstante caçada como bruxa pela Santa Inquisição das conveniências, das políticas exclusivistas… Miríades de fantasias, jogos de palavras, engodos.

“Espelho mágico, espelho meu, existe alguém mais idiota do que eu?”. Prefiro valer-me do termo simbolismo, ao invés do figurativismo, como forma de explicar a minha percepção e entendimento racionais. Algo ilusório que a física explica via expressão algébrica, mas, por exagero teórico, não nos convence. Nesses casos, é como se nos olhássemos frente a um espelho convexo. Estamos gordinhos na virtualidade da silhueta refletida, mas continuamos magros e raquíticos no concretismo ambíguo da nossa dúbia realidade, fantasiada de opulência.

Comeu? Comeu? Acho que estou complicando; ou estaria divagando sobre as “realidades” virtualizadas? Sei não. Vamos aos fatos; vamos falar por simbolismos exemplares; as palavras estão flácidas e fugidias. Vamos tomar por referência a desempenho dos partidos, ou seria covis, cada um puxando a sardinha para o próprio lado não importando as migalhas e escamas que sobram fartas para nós, povo. De meu ponto de vista, prefiro qualificar a política ora praticada como um “Casamento por interesse”. Claro que não saberia definir qual dos cônjuges seria o mais interessado ou o mais avantajado nesse compartilhamento.

Atribulações de um mito: A frase tumular “Deus está morto”, é atribuída a Nietzsche. Nietzsche não matou Deus, nem tentou mata-lo. Quem o fez foram os políticos. O culpado: a descontextualização. E Deus, onde está? Aqui, o problema não é a frase, mas o conceito atribuído a Nietzsche. Ele de fato diz isso: a frase apareceu pela primeira vez em “A gaia ciência” e está também em sua famosa obra “Assim falou Zaratustra”. Mas as palavras têm sido muito mal interpretadas. Nietzsche não se referia à morte literal de Deus nem à morte de Jesus Cristo, e essa não era uma simples declaração de ateísmo. Logo em seguida, o filósofo completa: “Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”. Ele queria dizer que a humanidade havia deixado de ter Deus como força ordenadora do mundo e fonte de valores. Com a morte de Deus, ele metaforiza a morte dos valores sagrados para os homens. Assim, eles deixariam de crer em quaisquer valores impostos tal como vemos neste momento ante a angústia da pandemia, de mãos dadas com seu algoz, a roubalheira e os desvios dos recursos públicos destinados a salvar vidas, canalizados para contas gordas de alguns políticos, servidores e empresários, todos latrocinas. Esses sim assassinaram a Deus friamente.

Jamal Padilha é colunista do Blog do Gusmão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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