Carta autofágica. Uma catarse do íntimo consciente

Aos 74 anos, sinto-me como aquela menina que ganhou uma cesta de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicentemente, mas percebendo que faltam poucas para o fim, rói agora até os caroços. Eu certamente teria reservado as mais maduras, doces e suculentas para o final e as degustaria lentamente. Eu compreendo que a cor tem muito mais importância quando nos retiram a luz.

Por Jamal Padilha.

Carta apócrifa. Agora, após ler a sua carta, e de não queima-la, como me recomendaste, e de devolve-la íntegra a fim de demonstrar que não foi utilizada para nenhum outro fim, senão a confrontação do seu conteúdo e caráter; acredito que este seja o momento azo para radiografar-me como réu ante o meu autojulgamento e, de expor o meu diagnóstico e libelo sentencial.

Sou um Banco de dados com enorme HD. Sou um incorrigível colecionador de memórias e as utilizo para sobreviver ao passado e adaptar-me ao negro presente que vivencio. Nada escapa à sensibilidade perceptiva da minha memória, que a tudo registra, que a tudo recupera e tudo conta, anota e guarda. Agora mesmo, após acabar de ler esta carta apócrifa eu contei a minha idade. Contei meus anos e descobri que com os meus setenta e quatro, terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Alhamd lilah, Graças a Deus.

Degustando os sabores da vida. Aos 74 anos, sinto-me como aquela menina que ganhou uma cesta de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicentemente, mas percebendo que faltam poucas para o fim, rói agora até os caroços. Eu certamente teria reservado as mais maduras, doces e suculentas para o final e as degustaria lentamente. Eu compreendo que a cor tem muito mais importância quando nos retiram a luz.

Agora tenho pressa. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Nem aquelas passando a limpo os familiares. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, seus bens, seus talentos. Eu não tenho nada. Eu não quero nada de ninguém a não ser a mais sincera espontaneidade. Isso sim vale muito para mim. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, utopias de areias que as marés do tempo apagam da memória. Não participarei de conversas em que se estabelecem prazos fixos para reverter à miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de fim-de-semana com a proposta de se atingir a essência da mais profunda espiritualidade. A minha alma já está ao alcance da minha mão! Já não tenho tempo para reuniões intermináveis, meramente circunstanciais para discutir estatutos, normas, procedimentos, regimentos internos e vida alheia. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que apesar da idade cronológica pesar-lhe sobre os ombros, continuam imaturas, vaidosas, pedantes e inseguras porem, perfeitas ante seu próprio julgamento.

Sem lenço e documento. Não uso mais o relógio. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo” onde tentamos sem sucesso auto explicar-nos; fazer-nos entender ante o tamanho desinteresse claramente demonstrado pelos nossos interlocutores moucos.

Dezena do porco. Aos setenta e dois, aprendi que a solidão e aridez do deserto são muito mais reconfortantes que o aconchego dos oásis onde se aglomeram egoístas insensíveis que brandem suas espadas afiadas; que cospem e atiram excrementos a esmo. Jurei para mim mesmo, que não serei mais uma vítima do ódio amigo nem do revide da maldade semiperdida que resulta de batalhas travadas em egos estranhos, totalmente desconhecidos. O estigma da autoafirmação, da individualidade e do ufanismo, da auto realização que a tudo esmaga e destrói conscientemente, por conta do brilho que se supõe irradiar, tudo não passa de blefe ensaiado. Divindades materialistas, literalmente vazias por dentro.

Kaol no latão. Aos setenta e quatro, aplico o brilha-cobre na minha frágil armadura emocional. Mais sensível que antes, Preservo-me. Parece-me coerente a busca pelo amparo da alma contra novas cicatrizes que nos impõem o superficialismo e a incompreensão humana. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pela predominância majestosa das próprias ideias e não os ideais; tanto quanto pela posição que supõem ocupar no espaço restrito da vida ou da administração da empresa familiar, cargo que supõem vitalício, embora o saibam efêmero. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência; minha alma tem pressa… O fim está próximo. O que é a vida senão uma luta incessante pelo adiamento da morte? A vida é o tempo; inútil ou não, estamos a cada dia mais próximos da beira daquele precipício ao fundo do qual nos espera uma desconhecida, ansiosa, de braços abertos, a amante fiel, a morte na dimensão quântica do imensurável. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver o tempo que me resta ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir de seus tropeços, que não se encante e nem ufane com triunfos ocasionais, que não se considere eleita antes da hora, não fuja dela e tampouco negue sua mortalidade, que defenda a dignidade dos marginalizados, que tenha a humildade de dizer, errei, a grandeza de dizer, desculpe-me, a coragem de demonstrar amor em palavras e ações sublimes e que deseje tão somente andar ao lado de Deus. Verdadeiramente!

 Não temo Fantasmas; não eles não existem. Quero agora, aos setenta e quatro anos, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, não de miragens, fogos fátuos. Desfrutar de um amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena e disso não me foge a certeza. Uma certeza que povoa minha realidade de sonhos e me orienta para o final da trilha que já começo a vislumbrar na curva do horizonte. Não me atrevo a aconselhar ninguém, quem sou eu para isso? Não tenho estatura para alcançar a verdade absoluta do existir. Entretanto, me ocorre lembrar que reler aquilo que costumamos escrever para alguém ou para si próprio, é um exercício salutar de auto avaliação. As palavras como o mar, mudam de cor segundo a configuração do firmamento que refletem. O pensar é tão abstrato quanto a dor. É por isso que o pensar às vezes dói, dói num lugar onde não sabemos situar a dor. Possivelmente na alma que desconhecemos.

Jamal Padilha é colunista do Blog do Gusmão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



3 responses to “Carta autofágica. Uma catarse do íntimo consciente

  1. O Grande Escritor Jamal Mohammad Padilha , Sempre passando para o papel traduções de verdades do cotidiano .

  2. Mais um BRILHANTE texto do Jamal Padilha.Nos conceda, pelo menos mais 74 anos,com ou sem jabuticabas…

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