Coronavírus e nossas vidas: algumas reflexões

Penso que uma atitude de negação sistemática das cautelas que a realidade impõe, ou de extrema negligência com cuidados básicos pode nos levar, no atual momento, a um retorno antecipado para o mundo espiritual. Você quer testar esta hipótese e pagar para ver? Eu não!

Por Julio Gomes.

O acompanhamento atento e reflexivo acerca da evolução da pandemia e de nossas atitudes têm conduzido a algumas reflexões importantes, que julgo dignas de compartilhamento.

A primeira delas diz respeito ao que podemos fazer. Residindo no interior da Bahia, sem ocupar nenhum cargo público importante, sem ser rico nem pessoa de destaque social, o que fazer para ajudar com relação à tragédia que vemos abater-se sobre milhares de pessoas e de famílias brasileiras? O que fazer para ajudar àqueles que se encontram expostos, trabalhando nas instituições de Saúde?

Um eventual auxílio pessoal a algum amigo mais necessitado decerto conta pouquíssimo, é uma gota d’água no oceano. Faz diferença apenas, talvez, para quem o recebeu, por alguns pouquíssimos dias, e nada mais do que isso. Podemos e devemos ajudar desta forma, mas sem ilusões quanto ao modestíssimo alcance de tal ato.

Não sendo grande empresário, nem prefeito, nem governador, nem juiz ou algo equivalente, as ações ficam restritas, a mais das vezes, ao cuidado pessoal e no âmbito da família, únicos onde nós – pessoas comuns – realmente podemos fazer diferença.

Ao ter de ir para o trabalho, cumpre, sim, tomar todas as cautelas ao alcance: manter o distanciamento possível das demais pessoas, higienizar sempre as mãos, usar máscaras, retornar para casa assim que puder e, após isto, procurar o mais possível não sair. É o que temos feito. O que mais uma pessoa comum pode fazer, além disso?

É bem pouco, sem dúvida, e por isso mesmo penso que seja uma obrigação agir desta forma. É tudo o que, em minha insignificância social, está ao meu alcance, e por isso mesmo deve ser feito com empenho e zelo.

A outra reflexão diz respeito ao fatalismo – ou predestinação – e ao livre arbítrio.

Embora isso possa surpreender a quem conheça este autor, que é festeiro, esportista, amigo da vida social intensa, desde a feira do Malhado até uma boa casa noturna, considero tudo isso plenamente compatível com uma sólida fé em Deus, até por precisar de Sua misericórdia para alguns pecados.

Crédulo até a alma, penso que Deus nos concede um tempo determinado sobre a Terra, ao fim do qual nos chama de volta à pátria espiritual. E aí não adianta espernear, dizer que não quer ir. Não haverá “peraí” nem “nextante”: basta uma centelha de ordem do Altíssimo e a vida se acaba, instantaneamente.

Entretanto, se não podemos estender nossa permanência no mundo dos vivos contrariando as determinações divinas, penso que seja possível, sim, anteciparmos nosso retorno para o além: atitudes extremamente irresponsáveis, destrutivas ou temerárias, expondo-se perigosa e desnecessariamente a riscos, a doenças ou a situações potencialmente mortais podem nos fazer ir de encontro à morte antes da hora prevista, pois Deus nos deu o livre arbítrio, mas respeita nossas decisões, mesmo quando são extremamente infelizes, tal como ocorre em um suicídio.

Penso que uma atitude de negação sistemática das cautelas que a realidade impõe, ou de extrema negligência com cuidados básicos pode nos levar, no atual momento, a um retorno antecipado para o mundo espiritual. Você quer testar esta hipótese e pagar para ver? Eu não!

Por isso, penso que cuidar de si próprio seja, também, uma bendita obrigação. Se temos a certeza da morte, também queremos adiá-la o quanto possível, pois mesmo sendo mundanos, tortos, pecadores e cabeças duras, desejamos, ardentemente, viver, e viver com abundância, tal como recomendou Jesus, que acolhe amorosamente aos doentes do corpo e da alma.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *