Inquisitivo e Confessional. Porque?

Sabedoria, dignidade humana? Para que servem hoje em dia? O gênio, o talento, são dádivas divinas, ou não? Uma aflição divina. Uma chama breve e pecaminosa de dons naturais, (rejeito as virtudes demoníacas da arte) mas o mal é necessário. Porquanto constitui alimento para algumas genialidades no âmbito da materialidade cumulativa. Que fariam eles sem o brilho dos metais?

Por Jamal Padilha.

Moralistas, meros palermas intelectuais. A sensibilidade literária enquanto doutrina e os pressupostos que a constituem se assentam na ideia de que o homem, enquanto inatamente virtuoso e benevolente, deseja de modo sincero o bem estar de todos e, consequentemente, é capaz de sentir e compreender não só às suas próprias emoções, mas também àquelas sentidas e experienciadas por outrem. Os ideais patentes nesta doutrina do século XVIII assumem-se como características indispensáveis enquanto definição do caráter do indivíduo, e em sentido mais lato, de ética social, de moralidade pública de humanismo.

Sem temor às ratoeiras. Quando leio as notícias sobre Operações pega-ratos, Lava jato bem como alguns ensaios políticos do grande ficcionista e intelectual Luiz; dá-se comigo as mesmas angustias de quando deito a ler os repetitivos .

Textos Selecionados – mais conhecidos por Delações Premiadas – dos intuitivos ladrões da República de São Saruê, nosso deflorado e extorquido Brasil. Claro, falta aos textos, romance, paixões sublimes ao estilo shakespeariano e sobram lascívias e luxúrias carnais untadas pelo sêmen podre da ganancia pelos valores materiais, esputos que embalam a retórica dos eloquentes instintos dos nossos inventivos representantes políticos quando, de lá dos altos púlpitos da nação, manipulam sábios as massas marionetes enquanto enriquecem a custa de vidas humanas abatidas pela Covid-19.

Desperdícios. Lembro-me que lá em casa tínhamos uma ampulheta muito antiga, uma relíquia que eu admirava extasiado. Ela servia para marcar o tempo das aulas de piano e pelas longas duas horas que eu havia me dedicado aos meus estudos formais. A velha ampulheta teria sido dada de presente por meu avô ao meu pai, por isso, ela ocupava lugar de destaque sobre o piano, quando o executávamos e depois posta sobre a estante imponente, frente aos inúmeros livros, como se uma guardiã das memórias que a literatura havia aprisionado para a posteridade. Desperdícios.

A beleza, quer dizer, o desafio da conceituação espiritual de beleza, sem academicismos. Quem não nega a própria habilidade artística para criar o belo a partir do espírito? Sim, eu nego, é exatamente o que nego peremptoriamente apaixonado. A meu entendimento, na visão do imaginário coletivo, nosso trabalho como artista é só trabalho mesmo… Produção. Nosso criacionismo literário dissipa-se como as brumas das manhãs invernais, lentamente, sobre o deserto vazio e gélido dos seres sem almas, que nos transparecem personagens que teatralizam sombras míticas na caverna de Platão; sombras assustadoras, diga-se. O caráter do indivíduo atual nos assusta e estarrece. Feras, lobos, chacais…

Senhor Xis. Alguém cujo nome não me vem agora à memória o nome, me questionou certa vez se eu realmente acreditava que a beleza em toda a sua subliminaridade, poderia ser fruto do trabalho. Sim, eu acreditava tal e qual agora. Sim, eu acredito. É assim que nasce a beleza. Assim, espontaneamente, indiferente ao meu ou ao seu trabalho e aos sabores preferidos das massas. Beleza, ela preexiste à nossa presunção de artistas. Meu caro amigo, seu grande equívoco, respondi, é considerar a vida, a realidade, como uma imitação. E ela não consiste nisso. A realidade nos distrai e degrada, nos simplifica e banaliza, às vezes até nos enfurece pela presunção de supor poder nos modificar a alma e obscurecer nossa percepção e sensibilidade. Somos imunes a essa “instintivisação” que domina o homem/consumo. O acumulador de riquezas a qualquer custo, que vendeu sua alma por trinta moedas de cobre e anda por aí palhaço arrogante, bolso cheios de moedas sujas, passeando suas penas de pavão feitas de plástico ordinário, indiferente à sua finitude. Quem o percebe?

Contraponto: Velhos, feios, pelancudos, mas lindos por dentro. Sabem; às vezes penso que os artistas mais se parecem com caçadores que miram no escuro. Nem sabe qual é o seu alvo, tampouco se o atingiram. Mas não se pode esperar que a vida ilumine o seu alvo e estabilize a sua mira. A criação da beleza e da pureza é um ato espiritual. Não, veementemente, não. A beleza atual pertence aos sentidos. Somente aos sentidos. Não é possível alcançar o espírito através os sentidos. Não é possível. É somente através do absoluto controle dos sentidos, que se pode, algum dia alcançar a sabedoria, o conhecimento, a verdade e a dignidade humana na plenitude da sua sensibilidade.

A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.

Clarice Lispector, Sabedoria, dignidade humana? Para que servem hoje em dia? O gênio, o talento, são dádivas divinas, ou não? Uma aflição divina. Uma chama breve e pecaminosa de dons naturais, (rejeito as virtudes demoníacas da arte) mas o mal é necessário. Porquanto constitui alimento para algumas genialidades no âmbito da materialidade cumulativa. Que fariam eles sem o brilho dos metais?

A arte existe para que a realidade não nos destrua. (Friedrich Nietzsche) A arte é a fonte mais elevada da educação, o artista é um ser exemplar. Deve representar um modelo de equilíbrio e força. Ele não pode ser ambíguo, embora a arte o seja. A literatura é a mais ambígua de todas as artes. É a ambiguidade transformada em ciência. Você que leu esse meu texto, pode interpretá-lo como desejar. Temos diante de nós uma série completa de combinações de palavras, um número insuspeito e inesgotável de confabulações coloquiais. Um paraíso de duplos sentidos com os quais você se diverte entre sorrisos ruidosos ou confortavelmente centrado, silencioso e reflexivo. A Covid-19 não conseguirá alterar o caráter coletivo dominado pela ausência absoluta de dó e solidariedade. Os acumuladores têm fome e sede monetária e, não há como escapar deles.

O medo da obnubilação, do vazio, da desinspiração. A vergonha é uma angustia espiritual. Ter medo de não escrever bem me angustia. E eu e tantas outras pessoas que escrevem não estamos imunes a esse sentimento. Quando nos esquivamos de ler e escrever, nos degradamos intelectualmente. Manter distância dos escritos, impossível. Não podemos perder o contato com o emocional que nos cerca e envolve a alma com o terno abraço das ninfas que inspiram nossos sonhos míticos corporificados em literatura. As brumas das manhãs geladas sobre as serras lá do Sul estão vivas e indeléveis nas minhas memórias. Vou-me envelhecendo agrilhoado a ferro e eletronicamente rastreado pelo tornozelo ao “sistema” de uma existencialidade com forte sabor amargo da mandrágora, nada cidadã; Sentindo-me um ‘educando’ sem chances de evoluir ao sistema aberto, porque o domiciliar é onde me encontro agora, casa cercada por lobos, hienas e chacais veganos, avessos à carne e sangue, que só comem e bebem dinheiro vivo. Grito e bufo à janela enquanto posso. Faço o que faço e, se mais não faço é porque não sei como fazê-lo.

Jamal Padilha é colunista do Blog do Gusmão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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