A velha Ilhéus e a nova ponte

Não se trata, aqui, de problemas ocorridos pouco antes da inauguração da ponte, pois sua obra durou cerca de quatro anos, ao longo dos quais nenhum projeto de melhoria urbana adjacente à área da Nova Ponte foi executado. Os administradores públicos se alternam no tempo, mas o descuido permanece o mesmo, com algumas poucas e raríssimas exceções.

Por Julio Gomes.

Manhã do dia 27 de julho de 2020, véspera do 486º aniversário de fundação da cidade de Ilhéus. Ao passar pelas Avenidas Soares Lopes e Dois de Julho, deparamo-nos com o novo cartão postal da cidade: a Nova Ponte Ilhéus – Pontal, estaiada, bela, moderna, a erguer-se imponente, alterando para sempre a paisagem da Terra de Jorge Amado.

Impossível não olhar a Nova Ponte, seja a noite, com sua iluminação em que se alternam variadas cores; ou de dia, onde se mostra mais alta do que o Outeiro de São Sebastião e o Morro de Pernambuco.

Mas é igualmente impossível não reparar o entorno da ponte, o Centro da cidade e as vias onde desaguará seu tráfego, assim como o forte contraste de tudo isso como o novo que a ponte representa, porque ao redor da Nova Ponte se observa o mesmo velho descuido de sempre.

Passando pela Avenida Soares Lopes, chama a atenção o matagal, alto em alguns lugares, cortado na véspera em outros, porém sempre com o mesmo aspecto de tristonho abandono.

Prosseguindo pela mesma Soares Lopes, vemos as cenas de quase sempre: lixeiras públicas, as poucas existentes, abarrotadas, derramando. Calçamento sempre esburacado no passeio público, clamando por manutenção jamais realizada. Asfalto sofrido, gasto; e os restos de uma obra largados ao lado do BOBs, na antiga Central de Turismo, onde canos, areia, calçamento quebrado e entulho desvalorizam a paisagem.

Infelizmente, não se trata de exceções. Um pouco adiante, em cima do que deveria ser o jardim da orla, ergue-se uma construção com térreo e primeiro andar, cujas obras não pararam nem mesmo durante a pandemia, consubstanciando o feio e o absurdo.

Seguindo em direção à catedral, nota-se os arbustos cercados de brotos, evidenciando o descuido mais elementar, tudo sempre em meio a uma limpeza sofrível, precária; e na Av. Dois de Julho, que até poucos anos atrás foi um local de boa vida noturna, com bons restaurantes e singular urbanização, com seus canteiros e sua iluminação com postes especiais, mostra-se hoje o mesmo ar de decadência e desleixo.

Junto à catedral, na mesma data de hoje, quem passou teve o profundo desgosto de ver a prefeitura arrancando duas belas e grandes árvores, talvez para que ali, no futuro, seja colocada a barraquinha de algum apaniguado, que a transformará em um bar desprovido de banheiro, função que ficará destinada, talvez, ao matagal da Avenida.

Nem mesmo o entorno da nova ponte escapa à desídia geral. Na vertente ao norte, junto ao Centro, os canteiros receberam os tapetes de grama pela metade: 200 metros antes do início da ponte é o barro vermelho que ressalta dos canteiros novos. E as áreas no entorno da ponte, cheias de matagal, já apresentam aquela erosão que é filha do descuido, por não se ter feito uma cobertura vegetal adequada junto à obra finalizada.

Não se trata, aqui, de problemas ocorridos pouco antes da inauguração da ponte, pois sua obra durou cerca de quatro anos, ao longo dos quais nenhum projeto de melhoria urbana adjacente à área da Nova Ponte foi executado. Os administradores públicos se alternam no tempo, mas o descuido permanece o mesmo, com algumas poucas e raríssimas exceções.

Querida Nova Ponte, seja muito benvinda a Ilhéus. Não repare a conduta deseducada e pouco cidadã de muitos de nós, moradores da cidade; e perdoe, desde já, pelo inacreditável descuido de nossos administradores locais. Não se deixe abater, Nova Ponte, tão desejada e tão bela: nós a amaremos, e nos orgulharemos de sua presença, a alegrar nossas vidas e a nos mostrar que é possível sonhar e construir um futuro melhor.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



One response to “A velha Ilhéus e a nova ponte

  1. Companheiro eterno Dr Júlio do PT ,como sempre lhe chamei e estar n minha agenda celular , vc tá parecendo que seja um profissional ambientalista , humanista e não professor de história
    e advogado . Sua visão é de muitos q não teve oportunidade de colocar no papel a tristeza da falta de conservação e receber essa beleza de cartão postal que essa ponte . Parabéns e santafelicidade .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *