Ódio, frustação e medo: combustíveis dos desejos exequíveis!

A crise sanitária tornou-se crônica, e, considerando o avançar do processo civilizador, outras virão. A natureza tem depósitos virais contra os quais a imunidade humana está vulnerável. Então, pergunto: como iremos enfrentar as próximas intempéries? Precisamos priorizar as demandas coletivas. Iniquidades interditam o espírito coletivista. Eis nosso maior desafio. Combater a Covid-19 tem sido tão complicado, afinal, de que maneira fazer isso num ambiente no qual impera o “salve-se quem puder

Por Caio Pinheiro.

Exacerbação ideológica, incompetência administrativa e moralismo fantasioso são ingredientes dessa sopa de dejetos chamado governo Bolsonaro. Opositor desde sempre do projeto de país bolsonarista, jamais me rendi à retórica do “quanto pior melhor”. Sem hipocrisia, fiquei na torcida para que o Messias acertasse. Combater implacavelmente a corrupção, respeitar os direitos fundamentais, sensibilidade e eficácia na gestão da questão ambiental, aparelhamento técnico dos órgãos governamentais e transparência no acesso aos dados da administração pública, eram alguns acertos que desejava, esperava. Todavia, o capitão e seus asseclas demonstram-se incapazes de transpor o abismo entre retórica e prática.

Para piorar o quadro de desgovernânça, o presidente, acochado pelos problemas judiciais envolvendo seus filhos e o fantasmagórico Fabrício Queiroz, rende-se ao fisiologismo do corrupto centrão. Repleto de criaturas pantanosas, os parlamentares do baixo-clero cobram um preço alto para não impietchmar o mandatário-mor. Como pagamento, Bolsonaro loteia seu supostamente imaculado governo, abrindo mão de frágeis convicções em favor das impositivas conveniências. E assim, a velha política sobrepôs-se. Amargamente, a lógica aristotélica mostrou que ter poder político negando que “homem é um animal político”, gera um passivo difícil de pagar.

Mas desde que o Brasil é Brasil as elites vivem num movimento pendular entre brigas e reconciliações. Os jogos de cena mantem-se! Apesar de Amilton Mourão – general vice-presidente – querer alçar as forças armadas a condição de poder moderador, tentando resgatar o texto constitucional de 1824, é o judiciário que age enquanto força moderadora, mas nem por isso com isenção. Entre os espetáculos midiáticos da Lava jato e o absolutismo do Supremo Tribunal Federal (STF), os privilegiados têm seus privilégios privilegiados em detrimentos dos desprivilegiados. Vejamos o exemplo da foragida Márcia Oliveira de Aguiar, mulher de Queiroz, que antes de se entregar à polícia já tem garantia a prisão domiciliar pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha. Teria destino diferente se fosse filiada ao PT? Mas o motivo é justo: precisará prover os cuidados do marido doente. Êta juiz humano…

Do outro lado, frustra ver a esquerda tímida. O campo progressista, pouco engajado na elaboração de um projeto alternativo de país, concentra-se em projeções retóricas em torno do que aconteceu e acontecerá. Diuturnamente, os progressistas se autocarbonizam na fogueira das vaidades! A esquerda, onde assento meu lugar de fala, continua longe do povo, oxalá, as exceções. É minha opinião: estamos nos perdendo no mundo das Lives. Sim, o ciberespaço nos permiti desafiar o ostracismo que a mídia corporativa há séculos nos impõe, todavia, necessitamos exercitar a pedagogia dos exemplos. O povo precisa saber que somos uma ideia de nação mais justa em essência.

A crise sanitária tornou-se crônica, e, considerando o avançar do processo civilizador, outras virão. A natureza tem depósitos virais contra os quais a imunidade humana está vulnerável. Então, pergunto: como iremos enfrentar as próximas intempéries? Precisamos priorizar as demandas coletivas. Iniquidades interditam o espírito coletivista. Eis nosso maior desafio. Combater a Covid-19 tem sido tão complicado, afinal, de que maneira fazer isso num ambiente no qual impera o “salve-se quem puder”.

Às vezes penso que estamos vivendo no limbo. Aquela “terra de ninguém”; território do sofrimento, amargura, desalento, violência, violações, desacertos, infortúnios, desapreços, ódio, ganância, manipulação, arrogância, vaidade patológica e escravidão aos institutos. Contudo, tenho esperança, essa força invisível que anda de mãos dadas com o desejo. Lembro: desejar, ao contrário dos céticos, não é flertar com o inatingível. Desejar é pensar naquilo que humanamente pode ser exequível. Axé!

No âmbito das minhas relações interpessoais, ou mesmo nas arenas políticas em que coloco ao digladio minhas ideias, sou criticado, quase sempre por companheiros mais ortodoxos, por negar-me a torcer pelo “mais pior melhor”. Isso é ato de egoísmo! Por mais que tente me alternar entre egoísta e altruísta – postura esperada de um autointitulado existencialista – jamais priorizas.

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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