Corte de árvores e mudança de atitude

É preciso, sim, defender cada árvore de nossa cidade, pois não podemos perder as poucas que ainda temos (em toda a Av. Itabuna, por exemplo, não se acha uma árvore sequer); nem cair na falácia de que “árvores foram plantadas”. É mentira! Não se planta árvores, planta-se mudas, que, se sobreviverem – o que é difícil ante as dificuldades naturais, o descuido e o vandalismo que sofrem – poderão se tornar árvores, mas somente daqui há 15 ou 20 anos.

Por Julio Gomes.

Nesta semana a cidade de Ilhéus viveu momentos de alvoroço, polêmica e até reação pública, ante o corte de diversas árvores na Avenida Soares Lopes, destruindo, além delas, os ninhos e desalojando centenas de pássaros, sobretudo maritacas, que nidificavam naqueles grandes vegetais. Conseguiu-se a admirável façanha de, rapidamente, a golpes de tratores e motosserras, causar grande e simultâneo prejuízo à flora e à fauna.

Como até as ações mais indesejáveis podem trazer algo de bom (veja-se, por exemplo, os avanços tecnológicos surgidos durante as guerras), houve um fato surpreendente e, nas proporções em que ocorreu, absolutamente inédito em nossa cidade: uma grande comoção popular contra o corte daquelas árvores, que ocupou intensamente as redes sociais durante toda a semana, resultando, entre outras ações, em um abaixo assinado e também em convocação para concentração pública – mesmo em tempos de pandemia – contra o infeliz ato da Prefeitura de Ilhéus.

Esta reação popular merece especial destaque, pois as gerações mais antigas sempre foram mestras em atribuir às árvores situadas em Ilhéus as mais tristes ações, acusando-as de sujar ruas, de entupir redes de águas pluviais, de quebrar calçadas e alicerces de edificações, de sujar e causar prejuízo em carros com as fezes de pássaros e galhos que delas caem. Confesso que nunca vi inofensivas árvores serem agraciadas com tanto protagonismo negativo como acontece em nossa cidade!

Desta vez, porém, foi diferente.

Seja pelo deprimente espetáculo das centenas de pássaros em desespero, esvoaçando sem rumo no espaço urbano após a perda irreparável de seus ninhos; seja porque aquilo que há cinquenta anos é dito nos meios de comunicação e nas escolas sobre as árvores finalmente tocou nossas almas, parece que descobrimos subitamente o que o mundo inteiro já sabia: que árvores quebram a aridez das cidades, que amenizam o clima, que permitem a existência de uma fauna urbana mais rica, que amenizam a paisagem e o espírito humanos com seu verde natural, que fornecem sombra benfazeja e tornam o ar mais leve e puro, enfim, que árvores são bem vindas e imprescindíveis para um espaço urbano moderno e melhor.

Esta mudança de atitude das pessoas – quero crer nisso – reflete uma mudança de mentalidade em que as árvores não são mais vistas como inimigas, mas como parte essencial do espaço urbano em que queremos viver, onde nosso bem-estar é prioridade.

É preciso, sim, defender cada árvore de nossa cidade, pois não podemos perder as poucas que ainda temos (em toda a Av. Itabuna, por exemplo, não se acha uma árvore sequer); nem cair na falácia de que “árvores foram plantadas”. É mentira! Não se planta árvores, planta-se mudas, que, se sobreviverem – o que é difícil ante as dificuldades naturais, o descuido e o vandalismo que sofrem – poderão se tornar árvores, mas somente daqui há 15 ou 20 anos.

Lamentamos, mais uma vez, o triste corte de árvores feito pelo Poder Público em Ilhéus. Mas saudamos, surpresos e quase felizes, a forte reação da comunidade ilheense em sua mobilização contra o ato absurdo.

Que sejamos, todos nós, capazes de aprender com nossos erros e prosseguir trilhando caminhos melhores, que nos levem a um futuro mais humanizado, onde a natureza deixe de ser vista como nossa inimiga e passe ser tratada como aquilo que sempre foi: nossa melhor parceira.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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