Descobri que sou gay

Por Julio Gomes.

A publicação em toda a imprensa nacional, a partir da coluna da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de São Paulo, de que o Presidente Jair Bolsonaro afirmou que usar máscara é “coisa de viado” me fez cair na real: descobri que sou perdidamente gay!

Na verdade, eu já estava desconfiado de minhas fortes tendências homossexuais há algum tempo. Atitudes como respeitar as leis de trânsito e até parar o carro antes da faixa para pedestres atravessarem; ficar um tanto pesaroso por consumir carnes e assim causar a morte de animais; ter ânsia de choro em momentos de emoção, além de outras do mesmo gênero, já indicavam que eu estava no armário, sem querer me render à realidade.

Tudo começou quando parei de querer resolver as coisas impondo minha vontade pessoal a todos. Aquela coisa de achar que poderia ser irracional resolver tudo na porrada já era um primeiro sinal de que eu estava com perigosas tendências andróginas!

No início, resisti muito. Fiz muita musculação, tentei aumentar meu nível de testosterona no sangue, me tornei até semi atleta ciclista, viajando de bike de Ilhéus até o interior de Goiás. Imagine, tudo isso para tentar afirmar minha frágil masculinidade, encobrindo minha alma gay.

Mas a realidade foi se impondo. Quando achei horrorosa a fala de Bolsonaro dizendo que uma colega deputada era feia demais e não merecia ser estuprada, vi que realmente havia algo errado comigo.

Tudo piorou quando me afastei radicalmente de campanhas políticas que tinham armas como símbolos. Ao compreender que armamentos só devem ser usados em último caso, vi que não havia mais retorno.

O pior foi quando passei, abertamente, a apoiar a causa LGTBQI+, e aprendi até o significado de cada uma destas letrinhas! Quer boiolagem mais escancarada do que essa?

Por fim, passei a ficar chocado, revoltado e profundamente triste quando homossexuais eram agredidos; e a ter ânsia de choro quando eram mortos a troco de nada. Neste parágrafo, especificamente, não estou ironizando. Isto vem de dentro de meu coração.

Mas retorno à ironia: hoje, especialmente após a fala de Bolsonaro de que máscara para prevenir Covid é “coisa de viado”, vi que já sou quem sou, mesmo sem querer, pois desde os primeiros dias da pandemia passei a usar esse adereço feminilizante e não saio jamais sem ela. Nunca! Never more, para usar um estilo drag queen!

Agora vivo um grave conflito: já fui militar do Exército, já trabalhei como segurança, fui durão como sindicalista e, para piorar tudo, ainda sou casado com uma mulher a quem amo, há 30 anos, e sou pai de três filhas. Como posso me assumir de vez?

Meu Deus, devo ter “fraquejado” muito na hora H, pois só tivemos três filhas mulheres…

Quem puder, me socorra em meu dilema, pois apesar de me perceber emocional, sensível, por vezes frágil, sentimental, capaz de ir até as lágrimas e, por tudo isso, irremediavelmente gay, ainda tenho uma perversa, terrível e compulsiva atração sexual por mulheres, que não me deixa em paz nem por um só instante!

Se ser homem é ser estúpido… Socorro, não quero mais ser homem!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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