Covid-19 em Ilhéus: resistência, disciplina e agradecimento

Não é uma gripezinha. A Covid-19 está levando embora pessoas cada vez mais próximas de nós e as pessoas comuns, como eu e você, devem fazer a parte que lhes cabe, continuando com todas as cautelas possíveis dentro da realidade de cada um.

Por: Julio Gomes.

Vê-se que muitas pessoas já “decretaram”, por si mesmas, o fim da epidemia de Coronavírus em Ilhéus. Ou pelo menos, já decidiram ignorar as mais elementares medidas e condutas de proteção ao contágio, com exceção, às vezes, do uso da máscara em locais públicos, talvez por obrigação social, para evitar problemas com as demais pessoas, para não serem chamadas a atenção em público.

Esta conduta de muitos decerto se relaciona com o que vimos na semana passada e continuamos a ver, com altos e baixos, nesta semana: uma elevação do número de óbitos, tornando-se vulgar termos quatro, as vezes cinco ou mais notificações de óbitos por dia causados pela Covid-19. Além disso, permanecermos com as UTIs sempre no limite de sua lotação, ou completamente lotadas. Tudo isso segundo números oficiais, que todos sabemos que podem estar sujeitos a subnotificações.

Penso que seja verdadeira loucura o que vejo em nossa cidade: alguns estabelecimentos comerciais chegam a lotar; pessoas não cuidam de manter a mínima distância entre si e outros simplesmente aboliram o uso de máscaras, até mesmo nas vias públicas e em seu local de trabalho.

Faço este texto dirigido não àqueles que se enquadram na conduta acima, mas aqueloutros que, disciplinados, conscientes do grave risco e do trágico momento que vivemos, não abrem mão de manter todas as cautelas possíveis ao seu alcance, em casa, no trabalho, no comércio, nas relações familiares.

Dirijo-me sobretudo àqueles que, assim como eu, não negligenciam, em hipótese alguma, do uso da máscara facial ao sair às ruas; que ao fazê-lo mantém a distância necessária quanto às demais pessoas; que evitam as saídas desnecessárias, reunindo todas as tarefas do dia em uma única saída de casa, o quanto seja possível; que ao fazer seu exercício buscam estar sozinhas e em locais o mais vazios possíveis; àqueles que assim que retornam ao lar continuam deixando os calçados junto à porta e indo direto para o banho; àqueles que, sendo idosos ou portadores de alguma enfermidade debilitante, sabem que devem permanecer em casa porque suas chances de sobreviver a uma eventual contaminação são menores do que as das demais pessoas.

Dirijo-me prioritariamente a estes para que não se sintam sozinhos, para que não desanimem em seu esforço, em sua disciplina, em sua rotina de cuidados, por vezes solitária e incompreendida.

Na atual fase da pandemia em Ilhéus todos nós já perdemos pessoas conhecidas. Muitos já perderam amigos e, outros, perderam parentes. A continuidade das medidas de acautelamento, da conduta de autoproteção – e por extensão de proteção aos outros – mostra-se mais necessária do que nunca.

Há poucos dias vi-me fazendo algo que nunca pensei fazer, e que me tocou profundamente. Recebi um telefonema de meu pai, que tem 79 anos, querendo vir a Ilhéus passar alguns dias em minha casa, e pedi-lhe que não viesse, argumentando que aqui a pandemia avança na letalidade. Pedi-lhe que permanecesse no pequeno município do interior de Goiás onde mora. Lá a Covid-19 tem efeitos bem menos graves. Nunca pensei em pedir a meu próprio pai, idoso, que não viesse à minha casa. Mas foi necessário nesse momento, e o fiz, apesar do revés emocional que este ato me causou.

Compartilho estas linhas e estes fatos, expondo até mesmo questões pessoais, para que as pessoas que perseveram em suas cautelas não se sintam sozinhas, não desanimem, não abram mão de sua rotina de disciplina, não se sintam deslocadas nem rejeitadas por estar agindo da forma que muitos deveriam agir para evitar mais mortes.

Não é uma gripezinha. A Covid-19 está levando embora pessoas cada vez mais próximas de nós e as pessoas comuns, como eu e você, devem fazer a parte que lhes cabe, continuando com todas as cautelas possíveis dentro da realidade de cada um.

Finalmente, a você que se cuida, que mantém sua disciplina de prevenção, minha solidariedade e meu profundo e mais sincero agradecimento, porque ao agir assim você também beneficia a mim e aos meus familiares. Que Deus o(a) abençoe!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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