Nós falamos por nós: o racismo não tirará nosso direito de narrar nossa existência!

Nós agora falamos por nós! Com nessa decisão, as mulheres negras têm falado mais alto. Na condição de mulher negra e da resistência, a filósofa Djamila Ribeiro chama a atenção dos/das leitores/as em seu livro “O que é lugar de fala? ”, que não há mais condição de falar de diversas manifestações de violências sofridas por nós (mulheres e homens negros) sem estarmos nesse lugar de opressão e de dominação.

Por Áurea Silva e Caio Pinheiro.

A luta pelo acesso à educação sempre foi uma das principais bandeiras do Movimento Negro. Desde o século XIX, as organizações negras vêm pautando esse direito como forma de driblar as inúmeras interdições à emancipação socioeconômica dos afro-brasileiros. Embora não tenhamos vivido sob a égide de um sistema segregacionista – a exemplo do Apartheid na África do Sul -, ontem e hoje as possibilidades de emancipação intelectual dos negros, quer seja via escola ou universidade são dificultadas. Foi da necessidade de se contrapor a esse estado de coisas, que a luta negra reivindicou e reivindica ações afirmativas de reparação.

País de passado escravocrata, o Brasil está longe de ter conseguido superar a correlação entre diversidade racial e desigualdade social. A farsa do paraíso das raças propagandeada pelo “mito da democracia racial”, dissolve-se diante das precárias condições em que vivem milhares de afro-brasileiros. O idílico país onde impera a harmonia racial quando desmentido, revelou que nos bolsões de pobreza, a epidérmica preta é dominante. Democracia racial é o caralho!

A par dessa realidade precisamos compreender como ainda hoje o racismo estrutura as relações sociais. Desqualificada graças aos avanços da Engenharia Genética, a ideia de raça resistiu ao seu descrédito científico. Assim, as atitudes que tentam responsabilizar o negro pelos seus infortúnios, são, na verdade, “mimimi” racista. Contudo, as possibilidades de qualificação profissional e inserção exitosa no mercado de trabalho, possibilitadas pelas políticas afirmativas, destacadamente o sistema de cotas, demonstraram que os insucessos do negro não podem ser creditados à sua pseudo inferioridade racial.

Isso tem raízes no passado! Após a abolição da escravidão (1888) e proclamação da República (1889), ganhou impulso a política de branqueamento. Sob o argumento de que os trabalhadores nacionais – negros livres e libertos – eram incapazes de se adequarem à lógica capitalista, o Estado subvencionou (financiou) a vinda de imigrantes europeus para suprir a suposta “falta de braços”, quando na verdade o objetivo era promover o apagamento físico e cultural da África através da miscigenação.

Mas os homens e mulheres de cor -usando as palavras de Sales Augusto dos Santos -, jamais se resignaram. Buscaram, identificaram, driblaram e continuam driblando o racismo. Protagonistas negros ontem e hoje nos servem de inspiração. Professor Pretextato dos Passos da Silva – (fundou uma escola de instrução primária em 1853 para meninos de cor preta), Abdias do Nascimento (liderança da Frente Negra Brasileira, entidade que elegeu a educação tópico vital), Sueli Carneiro (filósofa, escritora e feminista negra), Djamila Ribeiro (filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira) entre outros (as) simbolizam a certeza de que vale apena lutar.

Decidimos “falar por nós”. Arrombamos as portas das instituições relacionados ao saber científico – outrora hegemonicamente brancas –, tomamos assentos e estamos forjando nossas narrativas, ou seja, epistemológicas. Mesmo longe do ideal, em todos os campos da ciência, embora com pouco visibilidade midiática, temos negros e negras subvertendo o discurso que nos bestializou. Demonstramos que o país perderá muito enquanto o racismo negligenciar a inventividade científica dos negros.

Todavia, coube a intelectuais como Francis Galton (1883), comprometidos com a racialização, incutir no imaginário da sociedade a falsa ideia de que o negro não tinha capacidade de desenvolver habilidades cognitivas igualmente ao branco. Creditava-se a condição intelectual dos seres humanos à condição genética. Portanto, traços comportamentais, habilidades intelectuais, poéticas e artísticas seriam transmitidas dos pais aos filhos. Neste panorama, os negros não eram considerados sujeitos capazes de pensar igualmente aos brancos e, sobretudo, produzir ciência. Refutando esse pensamento, o Movimento Negro em escala internacional vem reagindo afim de liquidar as assimetrias sociaraciais que retroalimentam o racismo estrutural e legitimam a violência simbólica. Banalizar jargões como “chuta que é macumba” é aplaudir a violência simbólica do racismo recreativo.

Nós agora falamos por nós! Com nessa decisão, as mulheres negras têm falado mais alto. Na condição de mulher negra e da resistência, a filósofa Djamila Ribeiro chama a atenção dos/das leitores/as em seu livro “O que é lugar de fala? ”, que não há mais condição de falar de diversas manifestações de violências sofridas por nós (mulheres e homens negros) sem estarmos nesse lugar de opressão e de dominação.

A Assistente Social e intelectual negra Caroline Ramos do Carmo, aponta ser preciso construir novas epistemologias que falem de nós e para nós. É preciso e possível construir narrativas a partir das nossas vivências, das nossas dores, das nossas resistências e, sobretudo, colaborar para que outras negras e negros possam ocupar a academia, politizar-se na direção de uma sociedade menos desigual em termos social e racial.

Enfim, a exemplo dessas lideranças, pautamos nossas vidas no que chamamos de “utopias possíveis”. Nesses tempos onde impera o obscurantismo, silenciar-se é assumir o lado do arbítrio. Sabemos que nem sempre falamos de um lugar ideal. Sim, é possível que nossas inquietações não ecoem. Temos consciência que diante da difícil batalha pela subsistência, muitos acabam negligenciando os motivos de tantos lutarem para subsistir enquanto poucos têm muito mais do que precisam para existir. Mas a vida é feita de escolhas, e nós escolhemos resistir para ver outros irmãos terem o direito e existir. Axé!

Áurea Silva Oliveira é Assistente Social, Servidora Pública, Docente do Ensino Superior, Especialista em Docência do Ensino Superior e Saúde Pública, além de Militante do Movimento Negro.

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



2 responses to “Nós falamos por nós: o racismo não tirará nosso direito de narrar nossa existência!

  1. Sou e estou idosa negra! Na retrospectiva da vida admiro a coragem a garra que negros e negras encaram de frente a realidade contemporânea das faces do racismo.A minha palavra de incentivo aos lúcidos/as corajosos e preparados para enfrentar o dragão “racismo” . Um dia o derrotávamos.

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