Afinal, de que o brasileiro gosta?

E aqui na Bahia aprendemos que o ano só começa depois do Carnaval! Precisa dizer mais alguma coisa? Pois Bem! Agora, em plena pandemia, com mais de 90 mil mortos no Brasil, vejo este povo – este mesmo povo – dizendo desesperadamente que quer trabalhar!

Por Julio Gomes.

Somos conhecidos, pelo menos entre nós mesmo, por sermos um povo que gosta de festas, de domingo, de feriados, de farras, praia, sol e cerveja. Embora seja uma visão um tanto estereotipada do brasileiro, não se pode dizer que seja incorreta.

Sempre ouvi dizer que sexta-feira é o dia da cerveja. Até concordo, pois quem trabalhou a semana inteira tem direito de ter este prazer fugaz, erigido como mania nacional.

Da mesma forma, embora isso não seja dito, vejo que as pessoas encaram com grande contrariedade o fato de ter que trabalhar no sábado pela manhã. Consideram isso coisa de operário, de peão obreiro, aqui vistos pejorativamente, revelando uma face obscura de nosso caráter.

Também desde que comecei a me entender como gente, sempre escutei falarem que segunda-feira é o dia da ressaca e da preguiça. Nunca consegui entender isso. Já na fase adulta da vida passei a achar que a pessoa deveria ter administrado mal seu fim de semana, bebido demais e descansado pouco. Engano! Eu ainda não havia percebido que a malícia brasileira vai muito além das aparências.

Entre profissionais liberais e empresários de maior destaque, como médicos, advogados e outros que se entendem como membros deste seleto grupo, observei que para muitos há um costume e até um orgulho, em Ilhéus, de na sexta-feira só trabalharem até meio dia, antecipando a cerveja de final de expediente para a hora do almoço e, entre amigos, emendá-la por todo o fim de semana.

E aqui na Bahia aprendemos que o ano só começa depois do Carnaval! Precisa dizer mais alguma coisa?

Pois Bem! Agora, em plena pandemia, com mais de 90 mil mortos no Brasil, vejo este povo – este mesmo povo – dizendo desesperadamente que quer trabalhar!

Dizendo, de olhos arregalados, que os CNPJs das empresas são importantes, que a economia não aguenta, que o Brasil não pode parar e que sem o trabalho de todos os dias a crise colocará o país em um buraco sem fundo, sem solução!

Atônito, vejo que até mesmo aposentados que têm boas rendas, militares da reserva, respeitáveis senhoras idosas – algumas delas que nunca trabalharam fora de suas casas – fazerem campanha desesperadamente nas redes sociais pelo retorno imediato (dos outros, obviamente) ao trabalho!

Será que a Covid-19 mudou o caráter do povo brasileiro? Como, então, vejo muitas destas mesmas pessoas que fazem acirrada campanha pela volta imediata ao trabalho permanecerem confortavelmente em suas casas, ou se reunirem em fartas festas, como se o perigo de contaminação não existisse?

Por último, vejo uma preocupação imensa com a volta às aulas. Em um país onde inúmeras autoridades já declararam, de forma correta, que não haverá réveillon nem Carnaval se não for disponibilizada uma vacina para imunização em massa, vejo pessoas querendo o retorno imediato de professores e alunos às salas de aula!

Hoje, bem mais maduro, beirando a velhice e aprendendo com a vida e suas duras lições, compreendo melhor o que o brasileiro quer, o que realmente ele gosta. Descubro que aquilo que realmente o satisfaz é ver outro brasileiro se lascar, enquanto ele dá risada, cinicamente, protegido em seu conforto e em sua segurança.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.


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