Será que acordaremos do pesadelo mais altruístas e menos egoístas?

É o peso do desconhecimento, do preconceito, da apatia e do desdém. E tudo isso funciona, para a nossa alma, como uma espécie de corrente, que carregamos por aí, corrente essa que geralmente é encarada como característica, algo bom.

Por Caio Pinheiro e Rodrigo Melo.

Perder-se para achar-se! Essa frase bem que poderia estar na porta de algum centro de meditação, onde espiritualistas se reúnem em busca do sonho mais alentado pela filosofia, quer seja, a autocompreensão humana. Mas, ficcionismo à parte, esse é um quadro experimentado por milhares de pessoas mundo afora. A crise sanitária nos coagiu ao auto- isolamento. Limitadas as relações sociais, fomos obrigados a caminhar sobre o terreno movediço das incertezas inquietantes.

Sem estarmos preparados, começamos a percorrer territórios desconhecidos, pois a ligeireza dos papéis sociais que desempenhamos adiou ou mesmo apagou a ciência dos mesmos. Fazemos esse percurso já fadigados por questões que tornam o caminhar penosamente insuportável. Hoje precisamos enxergar o que estávamos habituados a ver. Há uma geração sucumbindo ao adoecimento da alma. Em muitos o deseja de viver foi obscurecido!

Contudo, otimistas e amantes da natureza humana, acreditam num porvir floreado. Insistem no caráter pedagógico das dores. Proferem frases do tipo: não é possível que não aprenderemos nada com toda essa desgraça! Creem numa “Era do altruísmo”, onde o bem-estar comum será a meta da existência humano. Mas, sinceramente, tudo isso pode ser apenas uma utopia inalcançável. Longe do ceticismo, o fluxo dos acontecimentos aponta para um amanhã repleto de amarguras. Seremos nós o nosso maior problema?

Somos fruto de nossas escolhas! Essa, sem dúvidas, é uma verdade áspera. Amantes do livre arbítrio, alimentamos a ideia de que tudo podemos, sem, contudo, na maior parte das vezes, dimensionarmos as consequências dessa controversa liberalidade. E assim, mais do que nunca, tornamos os desejos imperativos. Nada pode interromper o ébrio desejo da satisfação imediata. Daí rimos do “morra quem morrer”!

Viver é muito perigoso, disse o grande escritor. Ao mesmo tempo, é necessário e inevitável existir – a evolução, certamente, vem das experiências acumuladas. Acontece que o ser humano é falível e não é raro esquecermos do essencial, perdendo tempo e nos embrenhando nos emaranhados criados por nossas próprias aspirações, quase sempre egoístas. A vaidade, muitas vezes imperceptível, é quem guia quase todas as ações.

Passamos grande parte dos dias tentando escalar a imensa árvore que nos foi colocada à frente. Entretanto, em vez de seguirmos pelo tronco, rumo ao alto, rumo a evolução, nos desviamos, por ignorância ou inconsequência, até os galhos, que são frágeis e não raro se quebram por conta do peso que carregamos. É o peso do desconhecimento, do preconceito, da apatia e do desdém. E tudo isso funciona, para a nossa alma, como uma espécie de corrente, que carregamos por aí, corrente essa que geralmente é encarada como característica, algo bom.

Muito ainda terá que acontecer, muita chuva ainda terá que cair, muitas pedras rolarão, para que o mundo seja um lugar justo para todos. Hoje, há uma justiça para cada um. Vivemos um momento extremamente difícil e, para o nosso azar, temos governantes insensíveis que colocam suas conveniências à frente do bem comum: desvios, desmandos, intolerâncias e verdades tão falsas quanto se sentir poderoso por ter uma arma na mão. E o pior, uma gigantesca manada segue comportamentos assim, porque precisa de líderes, por mais toscos e inverossímeis que possam ser. Muitas vezes, para serem seguidos, esses líderes só precisam ser ruins. “Viver é muito perigoso”, disse o grande escritor, “porque o aprender a viver é que é o viver mesmo.” A humanidade ainda está engatinhando nisso aí.

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Rodrigo Melo é escritor.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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