Médica pergunta em tom de desabafo: “e se os profissionais de saúde não aguentarem mais?”

Imagem ilustrativa.

Texto de Maíra Kalil, médica e cirurgiã torácica. 

Lidar com doença e morte faz parte da nossa rotina. O sofrimento, a dor, o limite, a morte no dia a dia. Mas a conversa no corredor, as piadas durante a cirurgia, o bolinho dividido na copa, o cafezinho no conforto médico, a retirada da máscara ao final da cirurgia aliviavam a tensão, tiravam o peso e tornavam possível seguir, sem carregar tudo para casa.

Há cinco meses vivemos numa rotina de tensão extrema. Nada de momentos relaxantes. Só tensão e atenção aos mínimos detalhes. Repassar as etapas, se encher de máscaras, macacões, óculos e apertos. Um respirar apertado, a dor na pele do rosto, o suor escorrendo por dentro do macacão, o medo de tudo embaçar e perder a visão lá dentro da unidade. Ficar com fome e com sede. A dúvida se os não diagnosticados são de fato negativos. A concentração máxima nas etapas, sem tempo para descontração ou piadinhas. A visão de perto e diariamente do que tem assustado o mundo. A angústia e o medo em cada pequena quebra de protocolo. Um higienizar sem fim para não levar isso para casa.

E no descanso, a mesma falta da família que todos sentem, a mesma saudade dos amigos e da liberdade, a mesma preocupação com os filhos em sofrimento, além de todos os afazeres domésticos necessários.

Nas ruas e nas redes sociais um monte de gente se aglomerando e flexibilizando as regras, pois “não aguentam mais”.

E se eu não aguentar mais? E se você precisar de assistência médica e os enfermeiros, médicos, técnicos, fisioterapeutas não estiverem lá porque cansaram?

E não aguentando mais, me arrumo para mais um dia.



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