A bomba atômica, seus efeitos e a questão racial

Ainda aguardamos os dias em que a detonação das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki serão compreendidas com esta dimensão que de fato tiveram: um ato de genocídio racista praticado em nome do objetivo de supremacia política.

Por Julio Gomes.

Manhã do dia 06 de agosto de 1945. O avião bombardeiro norte-americano B-29 sobrevoa os céus do Japão. O potente quadrimotor se aproxima de Hiroshima, furtivamente, e lança uma enorme bomba que mudaria tristemente o destino da humanidade, para sempre.

Às 8:16 horas da manhã explodia, a 580 metros acima da cidade japonesa, a primeira bomba atômica, pulverizando, calcinando, fazendo com que voassem pelos ares e virassem poeira prédios, automóveis e seres humanos. Entre 90 mil a 166 mil pessoas perderam a vida, a maioria mulheres, idosos e crianças.

No dia 9, três dias depois, a mesma cena se repetiria sobre a cidade de Nagasaki, matando entre 60.000 e 80.000 pessoas, a maioria instantaneamente e outros, talvez menos felizes, queimados e vítimas de câncer causado pela radiação, em sofrimentos atrozes, morreriam nos dias, meses e anos seguintes à terrível explosão.

Sempre que se comenta sobre as bombas atômicas, isto ocorre quase sempre para tentar justificá-las como armas para pôr fim à 2ª Guerra Mundial no oriente, pois a Alemanha e a Itália, aliadas ocidentais do Japão, já haviam se rendido; ou então para explicar a nova ordem mundial que se seguiu àquele momento histórico, caracterizada pela Guerra Fria, disputa entre os blocos capitalista e comunista representados, respectivamente, por Estados Unidos e União Soviética.

Neste momento que marca os 75 anos das duas explosões nucleares, desejo abordar esta questão crucial para a humanidade, mas sob outro ponto de vista.

Quero aqui ressaltar que o genocídio cometido no Japão teve uma forte e indisfarçável presença do racismo contra os povos não brancos, aqui representados, segundo a ótica racista, pelos miúdos, amarelos e insolentes japoneses, que ousaram enfrentar militarmente a maior potência do mundo, de igual para igual.

Decerto que ao fim da 2ª Guerra Mundial, quando os americanos ainda lutavam contra as forças nazistas, a terrível arma nuclear já poderia ser utilizada. Mas como fazer isso contra europeus? Contra povos brancos, arianos, “civilizados” como os alemães? Não! Tal ideia decerto repugnava aos governantes brancos norte-americanos, pois seria como soltar a bomba sobre eles mesmos, sobre o mundo branco, ocidental e cristão, o que até por mera hipótese seria absolutamente inaceitável.

Que outros povos, não brancos, não europeus, não ocidentais, “não civilizados” padecessem miseravelmente sob os terríveis efeitos da bomba atômica.

Ainda aguardamos os dias em que a detonação das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki serão compreendidas com esta dimensão que de fato tiveram: um ato de genocídio racista praticado em nome do objetivo de supremacia política.

Enquanto isso não acontece, o povo japonês segue sua trajetória, sendo hoje um país plenamente desenvolvido, educado, rico, próspero, com alta expectativa e qualidade de vida. Simplesmente a terceira maior economia do mundo, em uma sociedade onde o respeito às leis a ao próximo são onipresentes.

Quanto aos Estados Unidos – que jamais apresentaram um pedido formal de desculpas ao Japão e a seu povo – mostram hoje dificuldades para se manterem como potência hegemônica e exibem níveis de exclusão, violência e desequilíbrios em sua sociedade que são incompatíveis com a grandeza de seu desenvolvimento econômico, e que se manifestam sobretudo entre os negros, imigrantes e latinos que lá residem.

As bombas, de ontem e de hoje, continuam explodindo principalmente sobre os povos não brancos.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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