Concessionária de Corpos

Se você leu Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo); George Orwell (1984); Júlio Verne (Vinte mil léguas submarinas); Franz Kafka (O Processo); H. G. Wells (A guerra dos mundos), Machado de Assis (O Alienista) e por aí vai… Entenderá perfeitamente os porquês e as influências que me levam a mergulhar na ficção possível, quase risível e algo relaxada que nos aguarda numa não tão distante posteridade, o amanhã. A fábrica de corpos.

Por Mohammad Jamal.

Esse surpreendente Mundo Novo. Estamos vivendo um mundo diferente daquele que foi objeto e inspiração para a obra de George Orwell descrita no livro 1984; à época, assustadoramente realista e chocante. De lá pra cá a humanidade avançou claudicante no âmbito das ideologias e quase estagnou no humanismo e nas relações internacionais onde predomina agressivamente um feroz colonialismo individualista pelo poder absoluto e a caça irrestrita pelo domínio dos bens de capital e recursos naturais dos países abaixo da sua linha de poder. Simultaneamente, ao poderio avassalador das armas e do capital agregam-se os avanços tecnológicos no campo da cibernética, da automação, das pesquisas no campo da medicina e farmacologia, incluindo-se aí o mapeamento dos genomas com a biotecnologia celular e molecular e o desenvolvimento das armas de destruição em massa, via energia atômica e a malignidade mortal das bactérias e vírus para uso estratégico sobre as massas. Algo semelhante tal como vemos agora nesse pipocar de vacinas para a Covid custeadas por financiamentos a fundos perdidos com milhões de dólares pelos governos dos países mais ricos e uns poucos gatos pingados, em desenvolvimento, na ânsia de evitar a falência das suas já combalidas economias.

O livro 1984, nessa “atualidade”, passou a condizer-se como sucinto relato da sociopolítica antiquada e sobejamente superada porquanto ainda baseada na recondução primitiva dos indivíduos a uma ressocialização conveniente ao ‘sistema’ através a infringência de privações fisiológicas, dor e o sofrimento físico e psicológico ao proletariado. Metodologia muito comum na Idade Média, depois ressuscitada e largamente empregada durante a dominação do ditador sanguinário Stálin para submeter o povo russo, dentre alguns outros semelhantes com idênticas metodologias que também fizeram suas histórias escritas com sangue humano, Haile Selassie; Idi Amin; Saddam Hussein, al-Gaddafi, etc. Diferente neste contexto, a geopolítica da União Soviética se refletiu na escolha do modelo econômico soviético, concebido originalmente para garantir a sobrevivência da URSS num contexto de quase autarquia, atenuo.

Só como o que me faz bem! Mas neste artigo – parêntese, por favor – porque abominei; não suporto mais ver por isso não leio nem ouço mais nada sobre a “Cov”, faz tempo; porque essas saturações impositivas das mídias pelos próprios interesses e audiência, tanto quando em sendo usadas como veículos dos interesses políticos financeiros predominantes, apenas se prestam a incutir e disseminar o desespero coletivo e agravando o sofrimento e angustiando mais a população diante de um problema gravíssimo de saúde pública cuja solução nos transparece longe, mesmo quando, precipitadamente, os interessados nos grandes negócios buscam desenvolver o remédio milagroso que será vendido a peso de ouro, enquanto os efeitos colaterais imprevistos, “Allah wahdah yaelam”, só Deus sabe.

Adoro a boa literatura. Já li muitas coisas pelas quais me apaixonei, livros inesquecíveis que agreguei às minhas memórias. E outros que detestei dadas as morbidades deprimentes contextualizadas nos temas centrais; horror, dor, sofrimento: Edgar Allan Poe; Dante; Stephen King; Jose Mojica Marins, (Zé do Caixão); Stephen King; Ira Levin, Sarney (Marimbondos de Fogo) por isso, impus racionalmente o silêncio e aversão total sobre “notícias”, fatos insolúveis e estatísticas mórbidas sobre a “Cov”. É que não vejo finalidades e muito menos utilidade alguma nas exacerbações midiáticas sobre uma pandemia cuja solução sequer as maiores mentes do mundo tem algo a dizer sobre o assunto, porquanto ainda desconhecem a solução definitiva para esse mal.

Onde o impossível acontece. Se você leu Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo); George Orwell (1984); Júlio Verne (Vinte mil léguas submarinas); Franz Kafka (O Processo); H. G. Wells (A guerra dos mundos), Machado de Assis (O Alienista) e por aí vai… Entenderá perfeitamente os porquês e as influências que me levam a mergulhar na ficção possível, quase risível e algo relaxada que nos aguarda numa não tão distante posteridade, o amanhã. A fábrica de corpos.

O Impávido colosso em ruínas. Foi assim: despertei desta noite com um gosto amargo do passado à boca. Diante o espelho, sem querer, estupefato analiso superficialmente o meu “transportador”, meu corpo. Horrorizado, vejo um ser muxibento, encarquilhado e recurvado pela quilometragem percorrida nesses 74 anos de estradas esburacadas e desertos escaldantes. Olhos pelancudos, careca, barba branca, dentes postiços entre outros implantados, capengas e balouçantes. As mãos frágeis têm dedos finos com tendões calcificados. Já não posso dedilhar o piano, nenhum acorde. Meu transportador está fumarando, queimando óleo. Com enorme pavor miro mais abaixo, as partes. Meu falo outrora atlético, um Adolfo Schwarzenegger dos bons tempos, pende murcho, cabisbaixo. Perdeu conteúdo e enchimento, talvez tentando confundir-se com seu parceiro, também vítima dos infortúnios da senectude, o saco. Esse envoltório flácido se distendeu com o peso dos meus três testículos; espichou como as cordas de um alaúde; já está quase ultrapassando abaixo dos joelhos, semelhante a uma funda bíblica, daquela que Davi usou pra derrubar o valente gigante Golias. Eu torcia pelo gigante, não sei os por quês, imagina!

Não adianta “desaniversariar”. Mas o inevitável da amarga existencialidade física se corporifica insidiosa e sem pena. É chegada a hora de trocar meu transportador por um modelo novinho em folha, ou este aqui vai me deixar na estrada qualquer hora desta. Vou procurar uma Agência de Corpos hoje mesmo. Não dá mais pra ficar armengando com sucatas e peças de outros veículos na Oficina São Damião. Estou um caco velho. Subir a ladeira do Rombudo? Ate pensar nisso me cansa.

Até a Próstata! A Concessionaria de Corpus: A moça, vendedora bem curvilínea, uma gostosura, aplica-me aquele certeiro olhar perscrutador. Lembram-se de O Grande Inquisidor? (de Dostoiévski)? Pois é: fezes, urina, sangue, próstata, memória, reflexividade… Um olhar de scanner, tomográfico, ressonância magnética e as porras buscando diagnosticar meu poder de compra, minhas economias de aposentado, o limite do meu Cartão Bolsa Família Internacional, meu caixa. Só depois dos resultados financeiramente diagnosticados foi que ela abriu aquele sorriso da Globo; dentes perfeitos de um banco ofuscante facetados a madre pérola cinzelados com aplicações de cifrõezinhos dourados. Ela _ E aí meu doce de batata doce? Veio ao lugar certo. Já tem alguma coisa em mente? – e emendou – Então fala aqui no meu ouvidinho!

A gostosa fala. E mandou mais: _ Temos modelos pra todos os gostos: grandes, médios, fortões, longilíneos, fofos, atléticos, com cara de intelectual, olhos verdes, azuis ou castanhos, loiros, brancos, albinos, negros, morenos, até com vitiligo, tem heterogâmico, G, LB, GLB Plus, trans., uni e bissexual! Próxima semana será o lançamento do top de linha importado, o Tri Sexual 2021 autônomo elétrico, a gasolina e GLP! Etc. Etc… Eu já estava zonzo com toda essa ladainha da vendedora. Meus pensamentos corriam soltos, atabalhoados nos corredores das ciências envolvidas no desenvolvimento desses inúmeros modelos de corpos de todos os tipos. E tudo isso em laboratório, sem uma transadinha sequer. Que horror. Reprodução assistida, inseminação in vitro, gestação em potes com placentas artificiais, crescimento e evolução programada pontualmente para os 25 anos de idade, já prontinhos para comercialização nas revendas e concessionárias autorizadas, imagina? E a moça, a vendedora gatona, ainda me assegurou que fariam o upload das minhas memórias para meu novo corpo transportador sem nenhum custo, grátis, contanto que não fosse necessário deletar seletivamente lembranças ruins ou episódios desagradáveis. Viria o pacote inteiro sem cortes e com todos os dados. Com apagamentos seletivos custaria uma nota.

Números primos, pobres. Fiz minhas contas, pensei nos meus remédios de uso contínuo, na mensalidade do Club dos R.M, no plano de saúde, água, energia, créditos no celular. E conclui vencido pala razão do bom senso. Aí arrisquei: Moça, você não teria um alemão bem baratinho? Ela, já toda animada. _ Ah… Quer um alemão grandão, atlético, loiro, olhos azuis, né? Ai veio o baque: Não senhora. Eu estou perguntando se a senhora tem um Fusca usado, bem conservadinho com precinho camarada! Já emplacado, sem multas e com CRV pago!

Só vi a rabada. Ficou na lembrança. Só a vi de costas após aquela rabanada. Ela saiu num rompante deixando para trás aquele perfume de mulher e a visão incrível daquela poupança dividida, cada uma das bandas procurando lugar para se acomodar no rabetão. Vou pra Cuba. Lá tem Cadillac 1940; Hudson 2 portas, Plymouth 207 Sedã, Packard Clipper, todos rodando numa boa e ninguém critica. Ser velho e ter carro antigo por aqui é foda.

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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