Estou com dinheiro, estou bem!?

Ao chegar à casa do assistido, o preletor viu que se tratava de suntuosa mansão de grandes muros e largos portões, em que adentrou. Saltando de seu carro, divisou grande e elegante casa de dois pavimentos, cercada por piscinas, jardins e nobres recantos

Por Julio Gomes.

Quando criança, e em boa parte de minha adolescência, muitas vezes ouvi meus parentes mais próximos, sobretudo os mais idosos, dizerem: fulano está muito bem. Mora em tal lugar, tem uma ótima renda, tem patrimônio, está muito bem mesmo!

Como se tratava da conversa de pessoas mais velhas, limitava-me a ouvir calado, como ocorria antigamente. Mas a boca fechada a indagações não impedia que elas se represassem na alma, achando algo estranho, incompleto ou mesmo simplesmente desprovido de sentido naquelas palavras, embora não conseguisse, àquela altura da vida, formular nem compreender claramente tais conceitos.

Passaram os anos. Estudei, trabalhei, me formei, fui pai e casei (não necessariamente nesta ordem) e fui em busca do sustento da família, como devem fazer todas as pessoas responsáveis por um lar.

Mas a lembrança e a desconfiança para com a expressão “fulano está com dinheiro, está bem”, nunca saiu de dentro de mim, permaneceu latente.

Há não muito tempo atrás, ao assistir uma palestra em uma instituição religiosa, quando já contava mais de 50 anos, o relato do palestrante me fez visitar novamente àquele questionamento represado em meu ser.

Dizia o palestrante que fora convocado a prestar assistência religiosa a determinada pessoa, que se encontrava muito mal de saúde, em deplorável estado psicológico e sem paz de espírito.

Ambos moravam no interior de São Paulo, assistente e assistido, porém há cerca de 300 km de distância entre si, o que fez com que, inicialmente, o responsável por ministrar a assistência religiosa resistisse ao convite. Porém, instado por instâncias superiores, apesar de um tanto contrafeito, não poderia, em virtude de seu compromisso cristão, se recusar à empreitada.

Assim o ministro da palavra selecionou um dia em que acordou muito cedo e saiu de casa quando o sol ainda não se mostrava no horizonte, a fim de cumprir o desiderato e retornar a tempo de lhe restar ao menos a tarde para dedicar-se ao seu ganha pão, já que não tinha a religião como ocupação profissional.

Ao chegar à casa do assistido, o preletor viu que se tratava de suntuosa mansão de grandes muros e largos portões, em que adentrou. Saltando de seu carro, divisou grande e elegante casa de dois pavimentos, cercada por piscinas, jardins e nobres recantos.

Penetrando na casa, pediu para usar o banheiro, sendo-lhe indicado um deles situado no térreo, no interior da residência, onde após usar o sanitário procurou lavar as mãos, mas não conseguiu acionar a torneira da pia, de tão exótico e sofisticado que era seu mecanismo. Subiu então ao pavimento superior assim mesmo, para cumprir sua função.

Ao entrar no quarto para prestar assistência religiosa, ali encontrou um homem idoso, mas relativamente jovem, posto que com algo em torno de 65 anos, porém em deplorável estado de saúde física e mental, pois há cerca de dois anos se encontrava preso ao leito, sem levantar-se nem mesmo para ir ao banheiro de sua luxuosa suíte.

Feita a assistência religiosa, o preletor se retirou da casa, rogando aos céus as melhores bênçãos ao assistido, e feliz por ter vencido suas próprias resistências e se dirigido àquele local, atendendo a alguém que realmente precisava de amor, atenção, carinho, esperança e consolação cristã.

Menos de um mês após, veio a notícia do falecimento do assistido, naquele mesmo leito.

Quanto a mim, após tudo escutar consolidei a convicção que sempre guardei no peito, calado, evitando comentá-la antes de escrever estas linhas: estar com dinheiro não tem, necessariamente, nada a ver com estar bem.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



One response to “Estou com dinheiro, estou bem!?

  1. Nem sem dinheiro, nem rico é automaticamente FELICIDADE.
    O equilibrio faz ou tras a liberdade e a paz para ser feliz. Aprendendo de gastar menos, economizar e minimalizar abri a parta da liberdade pq assim vc pode reduzir sua tarefa de trabalho. Menos trabalho, mais liberdade. Quando vc gosta fazer um trampo já tem um extra, um mais. Rico é quem é humilde. E Jesus foi um bom exemplo: largou a profissão e empresa e viveu o que ganhou.

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