A pseudoelite bolsonarista de Ilhéus acha que o povo é bobo!

Falam em moralidade, do combate à corrupção, da devoção ao povo, ensaiam até mesmo um discurso antirracista – mas logo abraçam a cômoda democracia racial, já que na verdade adoram a conveniência dos todos somos iguais -, mas são apressados em aprender os mecanismos espúrios de apropriação dos recursos públicos.

Por Caio Pinheiro.

As eleições municipais estão na iminência de acontecer. Mesmo com o descrédito na política, milhões de brasileiros irão às urnas eleger ou reeleger prefeitos e vereadores. Articulações políticas sob os mais diversos vieses acontecem. Esquerda, centro e direita, dentro das suas linhas programáticas e pragmáticas, querem ocupar espaços privilegiados do poder político nos 5.570 municípios brasileiros, tomando como referência os dados do IBGE.

Será uma eleição atípica, sem dúvidas. Embora o efeito lava jato tem sofrido reveses, ainda subsiste na subjetividade de muitos cidadãos a demonização da política. Para estes, a corrupção é uma característica escrita no código genético de todo político. Todavia, há exceções entre os portadores dos ambicionados votos. Falo de eleitores que têm suas escolhas pautadas em convicções político-ideológicas, na análise acurada dos programas e propostas dos candidatos ou no puro pragmatismo, já que seu voto lhe beneficiará individualmente.

Contudo, nessa simplória crônica da vida citadina, fugirei um pouco das análises conjunturais. Proponho uma reflexão sobre o comportamento de determinados pleiteantes ao executivo e legislativo da nossa amada Ilhéus. Esse mergulho no local tem motivo? Vem me impressionando a forma pela qual os candidatos socialmente ligados a elite ilheense estão amorosamente assediando os pobres. Cidadãos que até pouco tempo eles mesmos chamavam de “bolsa esmola”, em referência ao Bolsa Família, agora são alvo do seu acalento.

Julgando pelos posts das redes sociais desses candidatos, só agora descobriram que Ilhéus é muitos mais do que a Avenida Soares Lopes ou os bares e restaurantes badalados da Zona Sul. Virou coqueluche tirar self abraçando moradores e lideranças comunitárias de bairros periféricos. Eu, cá do meu lado de ser melindrado, típico virginiano com três planetas em terra, penso que essas criaturas viviam em Nárnia ou sofrem de antirrealismo crônico.

A superficialidade nos discursos é outro traço marcante que observei nos candidatos desse espectro social. Soberbos, acreditam que alguma entidade teleológica lhes deu a missão de falar em nome daqueles que acreditam ser incapazes de falar por si, ou falar através de lideranças com sua mesma origem de classe e organicamente comprometidas com suas pautas. Geralmente brancos, de classe média remediada, frágeis intelectualmente, mas astutos na consecução das ambições, os netos da perdida aristocracia do cacau tentam sustentar-se nobres ocupando posições de privilegio na política local.

Falam em moralidade, do combate à corrupção, da devoção ao povo, ensaiam até mesmo um discurso antirracista – mas logo abraçam a cômoda democracia racial, já que na verdade adoram a conveniência dos todos somos iguais -, mas são apressados em aprender os mecanismos espúrios de apropriação dos recursos públicos.  Sem incômodo se autoproclamam cidadãos de bem! E assim sequem: self abraçando senhoras pretas e pobres moradoras da periferia, abraços desconcertantes em lideranças comunitárias compartilhas nas redes sociais, e um sem número de promessas vãs.

Mas há também entre estes os afeitos ao bolsonarismo. Acreditam que irão cooptar a opinião público reproduzindo o discurso moralista, conservador e apolítico que alçou o opaco deputado do baixo clero à presidência da República. Ocorre que nossos bolsomínios sulbaianos parecem pouco atentos ao degelo da outrora inquebrantável retórica bolsonarista. Acometidos e cegueira seletiva, não veem que o lastro de apoio popular a Bolsonaro está longe de ser o mesmo. É certo que resiste no imaginário de alguns compatriotas, mas a corrupção do clã Bolsonaro, aliada a degradação das condições socioeconômicas, tem sido Kryptonita a fragilizar o bolsonarismo.

Me parece que não terá nenhum vendaval bolsonarista capaz de abalar a lógica da eleição municipal. O vendaval especulado por segmentos da mídia local, virou uma espécie de brisa fria. Na verdade, como um cachorro manco, em Ilhéus o bolsonarismo se agarra aos púlpitos das igrejas neopentecostais, a segmentos do catolicismo reacionário e a um empresariado atolado em dívidas decorrentes de uma política econômica que destrói os setores produtivos e reduz a capacidade de consumo da população, elemento central da recuperação econômica.

Mas sinto-me na obrigação de avisar: o povo não é bobo! Podem pensar depreciativamente no povo como um João-bobo, (um brinquedo que consiste em um objeto de base arredondada que por mais que seja inclinado tende a permanecer de pé), mas esquecem que o João-bobo também é conhecido como sempre-em-pé, e, por isso, ao contrário dos bobos (facilmente enganados e alienados), o João-bobo enverga mais não cai, ou seja, resiste e volta. E assim espero que o João-bobo (povo) que não é bobo volte e vote conscientemente. Se tem uma coisa que aprendi ao longo desses quatro 4×4, é que tudo que vai volta. Axé!

Caio Pinheiro é professor especialista em História Regional e em História do Brasil, e Mestre em História, Práticas Sociais e Representações.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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