Que a vida de Antônia possa inspirar seu voto!

Embora admirável, a vida de minha mãe deveria ter sido menos aflitiva, caso tivéssemos políticos compromissados com a superação do racismo e das iniquidades correlatas.

Por Áurea Silva Oliveira.

Quando criança, acreditava que todos éramos iguais. Na escola e nas múltiplas dimensões da convivência social essa (in)verdade era disseminada. Na realidade, hoje, portadora de um olhar crítico, forjado na formação acadêmica e no diálogo jamais interrompido com o feminismo negro, vejo que tudo não passava de malabarismo discursivo para me fazer crer na falsa simetria entre pobres e ricos, brancos e negros.

Ao longo da adolescência comecei a perceber as fissuras sociais. Começava a tomar ciência de que elas tinham uma estreita relação com a má distribuição de renda e o racismo. Foi um momento conflituoso. Essa consciência me fez questionar as iniquidades sociais, e, por conseguinte, refutar jargões como “manda quem pode e obedece quem tem juízo” ou “cada macaco em seu galho”. Desejava modificar esse estado de coisas!

Não queria mais tomar a pobreza enquanto destino trágico de determinados grupos socioraciais. Sem base intelectual, mas movida pela indignação típica daqueles que negam resignação à miséria, perguntava-me: por que a maioria dos miseráveis eram negros? A primeira voz que ouvi se manifestar contra esse estado de coisas foi a de Antônia, minha mãe.

Antônia durante boa da parte do seu existir sentiu na sua pele preta a brutalidade das iniquidades. Todavia, com uma resiliência que até hoje não consigo nominar, resistiu e resiste. Era e é uma mulher à frente de seu tempo. Ao seu modo e possibilidades, impediu a marginalização da sua prole.  Embora nunca tenha sido simpática à política, incorporou a educação enquanto o meio mais eficaz de evitar o ostracismo social de filhos e netos, sendo essa a principal bandeira do movimento negro.

Lutou para superar a tragédia socioeconômica que espreitava os seus. Esteve e está na resistência para não ver nenhum de seus filhos sucumbirem. Como a maioria das mulheres negras desse país, à Antônia coube o exercício de atividades laborais subalternas, mas que lhe permitiu prover o subsistir dos seus. Lembro: Antônia era auxiliar de serviços gerais em uma das secretarias do estado durante a gestão do governador Antônio Carlos Magalhães.

Mas esse é apenas um detalhe secundário. O que quero de fato informar que esse esforço deve ser enxergado com cautela, do contrário, pode servir para justificar o injustificável. A velha Antônia infelizmente é uma exceção no universo de milhões. Conseguiu me formar como uma profissional de nível superior, assistente social. Contudo, seu esforço foi hercúleo, idêntico ao de muitas Antônias que a despeito da labuta cotidiana experimentam o fracasso, menos pelo empenho e mais pelas armadilhas e entraves impostos por quem deveria ajudar.

E é aqui de chego à pertinência dessa reflexão biográfica? Acho que a história de Antônia deve servir de inspiração a todos aquelas (es) que estão na iminência de fazer sua escolha política no pleito eleitoral que se aproxima. Embora admirável, a vida de minha mãe deveria ter sido menos aflitiva, caso tivéssemos políticos compromissados com a superação do racismo e das iniquidades correlatas.

Sei que o exercício da cidadania vai além do ato de votar. Contudo, vivemos num sistema representativo, onde as deliberações políticas, jurídicas, sociais e econômicas de forte impacto social, são tomadas nas instâncias do poder político. Longe de querer doutrinar o voto de você que está lendo esse pequeno caminho de palavras, desejo apenas que dê seu voto a alguém que verdadeiramente coloque o altruísmo com aspecto central da prática política. Axé!

Áurea Silva Oliveira é Assistente Social, Servidora Pública, Docente do Ensino Superior, Especialista em Docência do Ensino Superior e Saúde Pública, além de Militante do Movimento Negro.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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