A ponte que liga o paraíso ao transtorno

Após a construção da “ponte do paraíso” vem ainda mais; o “transtorno” para os moradores.

Por Benedito Souza.

Uma determinada ‘escola’ de filosofia sempre destacou uma diferença fundamental entre a razão instrumental e a razão crítica. A primeira tem medo dos avanços e da tecnologia. A segunda afirma que todos os avanços e todas as tecnologias são bem-vindas, no entanto que venham para o bem da humanidade e que tragam benefícios para o gênero humano.

Desta forma, a aspiração de toda a comunidade ilheense era a chegada da nova ponte para que pudesse resolver problemas de décadas de mobilidade urbana que estavam insustentáveis. Falei ‘toda’, pois não há uma só pessoa na cidade, bem como na região, que não almejasse com esperança a construção da ponte que ligaria o centro da cidade de Ilhéus à zona sul, lugar de belíssimas praias e outros encantos.

No entanto, mais uma vez, foi demonstrada uma concepção liberal dos administradores públicos; com a chegada de um novo cartão postal, expulsa-se a comunidade que historicamente vivia no local para dar lugar a grandes empreendimentos turísticos. Uma prática nociva que se repete, onde o capital tem poder.

A comunidade da Nova Brasília teve perdas irreversíveis com essa construção. Começando com os pescadores que ali viviam (já que muitos foram obrigados a deixar suas casas) com a dificuldade de colocar seus barcos de pesca para sair da baía do Pontal. O assoreamento deixou a saída das embarcações perigosa, e com a maré baixa o canal da barra fica com apenas um metro de profundidade, não sendo possível passar para garantir o sustento, só podendo sair a cada 12 horas.

É bom lembrar também que um dos primeiros episódios de impacto na comunidade diz respeito à retirada de um colégio público estadual, cujos estudantes eram, em sua maioria, da Nova Brasília, sem a devida construção de outra unidade escolar em nenhum lugar da cidade.

Outro episódio emblemático relaciona-se à questão da retirada das casas, antes da construção, e a contragosto dos moradores que perderam seus lares tendo que se desfazer de um patrimônio construído com muitas dificuldades por valores ínfimos não suficientes para comprar outras casas. Muitos tiveram que morar em lugares mais distantes possíveis e há relatos de pessoas que abaladas por tal situação se entregaram e morreram de depressão.

O olhar perverso do sistema capitalista é tão forte que não parou por aí. Após a construção da “ponte do paraíso” vem ainda mais; o “transtorno” para os moradores. Chega-se um novo decreto de usurpação de mais casas dos moradores. Neste momento, é importante verificar a ausência de diálogo entre os poderes públicos, tendo em vista que os entes municipais desconheciam a proposta.

Foi necessário o protagonismo de um jovem advogado, chamado Gabriel, que juntamente com a comunidade confrontaram e pediram respeito, exigindo, inicialmente, tão somente a publicidade do que iria acontecer. A comunidade se mobilizou com faixas e manifestações, e os tratores do progresso foram “parados” por enquanto.

É um ano político, apesar do silêncio momentâneo dos entes públicos, é importante ficarmos atentos, organizados e juntos exigirmos respeito, pois para essa comunidade é a “Ponte dos Transtornos”.

Não se quer aqui negar a importância do progresso, no entanto necessário se faz ouvir a comunidade que seja atingida, para que juntos possam chegar a uma negociação eficaz para ambas as partes.

Benedito Souza é escritor, pedagogo, sociólogo, pós-graduado em Psicologia Social mestre em Educação, mestre em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



3 responses to “A ponte que liga o paraíso ao transtorno

  1. Meu prezado, não conheço a situação dos pescadores que ali residiam, se de fato ocorreu essa situação, ela merece atenção e algum tipo de reparo por conta do Estado ou Município.
    Não sou oceanofrago, mas discordo com relação ao assoreamento ser devido a construção da nova ponte, como morador do Outeiro cresci frequentado a praia do Cristo mas precisamente entre 9/10 anos, hj tenho 51 anos, o que de fato me fez acompanhar essa questão, esse canal em tempos passados já foi dragado inclusive fornecendo aterro para construção da segunda pista e calçadão da Av. Soares Lopes, o assoreamento como todos sabem, ocorre desde a construção do porto do malhado, finalzinho da década de 70. Ainda moleque juntamente com meus amigo pulávamos do paredão ( hj aterrado ) que se estende da praia do Cristo a subida do Outeiro, que não conheceu naquela época nem imagina que ali batia a maré jogando água e areia na pista de cima. O assoreamento do canal da prais do Cristo ou para que não conhece “unhão” Não é devido a construção da nova ponte.

  2. Realmente não podemos dispensar o progresso que a ponte trouxe para a cidade, mas todas as mudanças estruturais como essa devem considerar enormemente a situação humana que será afetada e, por mais que o poder público argumente que não há recurso para compensar de forma justa a comunidade, sabemos que é um argumento falso, pena que os nossos representantes na Câmera só sirvam pra aceitar sem agir. Muito importante essa informação trazida por Benedito.

  3. Até que enfim uma opinião de respeito e muito contundente, já era previsto pela minha ótica que esses transtornos fosse acontecer, mas as massas de manobra só pensaram no progresso, desconhecendo ou fingiram desconhecer tais consequências para os nativos de Nova Brasília e os efeitos nocivos ao meio ambiente!

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