A Covid-19 e os que perseveram

Saiba que não está sozinho, que é credor de admiração e respeito, e tenha a certeza de que contribuiu, sim, para que muitos pudessem ser salvos.

Por Julio Gomes.

Desde fevereiro/março 2020 o Brasil vive, dentro de seu território, com o drama de conviver com a Covid-19 e seus efeitos: sociais, econômicos, culturais e, obviamente, com os adoecimentos, mortes e sofrimentos que dela decorrem.

Também desde o início se enfatizou a necessidade de isolamento social, o “fique em casa”, o imprescindível uso de máscara, álcool 70º e demais medidas para conter o avanço do vírus.

Viu-se também, na contracorrente das medidas acima, a pregação aberta, teórica e sobretudo prática, ao desprezo de quase tudo o que foi descrito no parágrafo anterior, feita por parte de algumas autoridades de renome e de eminentes figuras que incentivaram a população o tempo todo a desrespeitar todas as normas sociais e profiláticas de prevenção à doença.

O curioso é que estas mesmas altas figuras, quando eventualmente contaminados pelo vírus, corriam para hospitais do padrão do Albert Einstein, em São Paulo, ou mesmo para o Hospital das Forças Armadas, em Brasília, valendo-se da excelência do atendimento destas instituições, enquanto milhares de seus entusiasmados seguidores morriam sob a ação do mesmo vírus nas portas do SUS, abarrotadas ou fechadas; e contribuíam para que o vírus passasse adiante, em busca de uma vítima mais frágil, destinatária à morte.

Mas houve e há aqueles que, em ato de firme responsabilidade social, adotaram desde o princípio e se mantiveram firmes nas medidas de prevenção, no isolamento possível, na solidariedade, no silencioso e anônimo trabalho de se limitarem com relação a inúmeros afazeres, prazeres e até algumas necessidades, para dar sua contribuição, pessoal, intransferível e importantíssima para que pudéssemos caminhar para uma superação menos trágica deste momento doloroso.

Hoje, na Bahia, declinam os números relacionados aos óbitos diariamente notificados. Mas não cessam, pois ainda temos, em média, 30 perdas por dia, conforme os boletins oficiais divulgados pelo Governo do Estado.

Ao mesmo tempo em que se faculta o funcionamento de cada vez mais setores das atividades econômicas e se desativa o Hospital de Campanha erigido no Estádio da Fonte Nova, em Salvador, somos alertados para o aumento da incidência de casos graves e ocupação de leitos de UTIs infantis, de forma inusitada e preocupante, jogando por terra qualquer possibilidade de retorno às aulas presenciais.

Este texto é para louvar àqueles e àquelas que, apesar de todo o desprezo pela ciência e pela vida apregoado por muitos, continuaram mantendo sua rotina de cautelas, de responsabilidade, de restrições, em ato de amor a si e ao próximo.

É para aqueles que deixaram de ir a reuniões mais amplas, de lazer ou mesmo familiares; que se abstiveram de visitar pessoalmente seus pais ou parentes idosos; que abriram mão do barzinho com os amigos/conhecidos, da ida à rua que podia ser adiada, de algum prazer que se mostrava e ainda se mostra inadequado.

É para você que silenciosamente, anônimo, ainda se cuida com zelo, que não abre mão de sua máscara, que aprendeu a buscar na convivência caseira prazeres outrora só encontrados nas ruas, que mantém firme suas cautelas de rotina.

Saiba que não está sozinho, que é credor de admiração e respeito, e tenha a certeza de que contribuiu, sim, para que muitos pudessem ser salvos.

Continue, persevere em sua conduta cautelosa, cidadã e de amor ao próximo. E que você encontre um dia, por parte de todos, o mesmo respeito à vida que continua demonstrando, até o presente momento.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



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