Assassinato de João Alberto, o que fazer?

Penso na atuação repressiva da Polícia, pois um dos agressores era policial temporário no estado do Rio Grande do Sul, quase sempre seletiva ao agredir com muito mais rigor ao pobre, ao negro, ao morador da periferia.

Por Julio Gomes.

Confesso que fiquei extremamente chocado ao assistir as cenas referentes ao assassinato de João Alberto Silveira Freitas, ocorrido no dia 19/11/2020 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, como resultado da ação de um pequeno grupo de funcionários da rede de supermercados Carrefour.

Acabei de assistir ao vídeo e à reportagem exibida em uma grande emissora de TV aberta, que mostra também o soco desferido pela vítima em um dos funcionários na porta de saída do mercado. Mas nada, absolutamente nada justifica toda a sequência de espancamento, sufocação e assassinato – sim, assassinato – que aconteceu depois.

João Alberto perdeu brutalmente sua vida na véspera do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, em que se rememora a morte do líder Zumbi dos Palmares e a luta do povo negro deste país por liberdade, Justiça e para sobreviver em uma sociedade que continua sendo hostil, discriminatória e assassina, mesmo após terem se passado nada menos do que 132 anos do fim legal da escravidão no Brasil, por conta da Lei Áurea.

A pergunta que roda a cabeça após o assassinato brutal de mais um negro no Brasil é: o que fazer?

Os racistas, neste ano, se calaram, não criticaram o Dia da Consciência Negra, como fazem habitualmente, de forma mais ou menos direta. Mas continuam racistas e prontos para cometer o próximo assassinato.

Penso na necessidade de termos professores de História e Filosofia – não por acaso aqueles mais odiados pelos racistas e fascistas – e de termos outros professores igualmente comprometidos com uma Educação que forme pessoas de fato, e não apenas mão-de-obra barata para trabalhos precários e terceirizados.

Penso na falência das famílias como instituição formadora do caráter dos filhos, sucumbindo nesta missão diante de um sem número de mídias – internet, TV, filmes, músicas, vídeos – que o tempo todo bombardeiam nossos jovens com péssimos exemplos e imbecilidades sem fim, durante horas por dia, todos os dias da semana, todos os meses, todos os anos, visando formar uma geração de idiotas que cultuam a violência, o sexo e o dinheiro, sem desenvolver o sentimento de humanidade e de respeito nem mesmo com relação aos próprios pais.

Penso na atuação repressiva da Polícia, pois um dos agressores era policial temporário no estado do Rio Grande do Sul, quase sempre seletiva ao agredir com muito mais rigor ao pobre, ao negro, ao morador da periferia.

Penso que moro em uma cidade em que até o momento não houve – que eu saiba – nenhuma mobilização, nenhum ato, nenhuma chamada ou manifestação por parte de poderes públicos, instituições, mandatos ou órgãos da sociedade civil contra aquela violência dantesca, inconcebível em uma sociedade que se diz civilizada.

Apenas a manifestação indignada e pedindo justiça de pessoas, de amigos, de conhecidos e de desconhecidos pelas redes sociais. E nada, nada além disso.

Solitário, me sinto pequeno, calado, mas com vontade de fazer algo. Solidifico a ideia que tive na sexta-feira, quando vi, rapidamente, aquelas cenas sórdidas: Nunca mais ponho os pés nem compro nada pela internet que tenha a marca do Carrefour.

Quanto às centenas de empregados que trabalham para aquela rede de supermercados, sei que a empresa não irá falir por conta disso, e que mesmo que haja uma crise, serão absorvidos por outras empresas do mesmo ramo. Só a vida de João Alberto – pai de quatro filhos, marido, filho de um pai já idoso – não será jamais recuperada.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.



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