Tecnologias para quê?

Progredimos tecnologicamente, não há dúvida. Viajamos a velocidades supersônicas, ultrapassamos a estratosfera em naves espaciais, singramos o fundo dos mares com submarinos e podemos realizar uma delicada cirurgia em alguém que está do outro lado do mundo, usando a informática e a robótica. Mas preferimos nos matar uns aos outros.

Por Julio Gomes.

Havia, na segunda-feira pela manhã, umas manchas escuras de sangue na calçada, bem próximo ao meu local de trabalho, no Centro da cidade. Mas, como há poucos metros do sangue está a porta de entrada para um Dentista, supus que se tratasse de uma extração malsucedida (ou bem-sucedida?), daquelas em que saímos do odontólogo cuspindo sangue vivo.

À tarde, porém, me contaram os fatos: na noite anterior, um homem fora baleado ali, e a vítima morreu no local, antes que alguém pudesse prestar-lhe socorro.

Não posso deixar de ficar atônito com o quanto vale a vida humana, em nossa sociedade, auto intitulada moderna e civilizada.

Desde, pelo menos, a Primeira Guerra Mundial, já deveria ter ficado claro para a humanidade que progresso tecnológico não é garantia de progresso humano. Aliás, avanços tecnológicos em mãos de pessoas despreparadas muito frequentemente geram tragédias, como confirmamos todos os dias, ao ver endinheirados de mente fraca se encherem de substâncias alucinógenas e perderem a vida dirigindo irresponsavelmente um lindo carro, novo e potente, que custou milhões. Ou matarem alguém ao dirigir desta forma.

Progredimos tecnologicamente, não há dúvida. Viajamos a velocidades supersônicas, ultrapassamos a estratosfera em naves espaciais, singramos o fundo dos mares com submarinos e podemos realizar uma delicada cirurgia em alguém que está do outro lado do mundo, usando a informática e a robótica. Mas preferimos nos matar uns aos outros.

Nossa estupidez, nossa animalidade ainda nos domina. Comemos e bebemos como se o mundo fosse acabar, fazemos sexo sem limitações de ética ou de responsabilidade, e transformamos a busca da satisfação dos prazeres em finalidade única das nossas vidas. Sei que nem todos somos assim, mas parece que a maioria de nós ainda é.

Não, não se trata aqui de criticar acidamente ao outro, de imputar-lhe defeitos, de expor-lhe as vísceras dos vícios, das condutas mais abomináveis. Não é isso.

O que se busca aqui é ver até que ponto nós mesmos ainda estamos mergulhados em todos os erros e defeitos acima referidos, para que possamos, nós próprios e ao custo de muito esforço, irmos nos libertando de nosso excesso de animalidade, de nossa primitividade absurdamente incompatível com o mundo cheio avançadas tecnologias em que vivemos.

A internet, o automóvel e até mesmo a arma podem ser usadas para o bem ou para o mal. Cabe a cada um de nós decidir o que fazer com elas e, em última análise, o que fazer conosco mesmo, o que fazer de nossas vidas.

O assassinato de alguém na esquina de meu local de trabalho me põe em cheque, sim. Talvez menos por piedade ou altruísmo do que por saber que, ao invés dele, o assassinado poderia ter sido eu.

Os mortos não falam. Mas quem ficou vivo ainda pode falar, e digo em alto e bom som que não quero viver em um mundo dominado pela estupidez humana, potencializada pelos abusos que as novas tecnologias podem proporcionar.

Quero a ciência a serviço da vida, e a vida em busca de uma felicidade verdadeira, numa sociedade onde todos respeitem e sejam respeitados. Sem execuções na próxima esquina, nem em lugar nenhum.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *