Carta aberta aos jovens em tempos de Covid-19

Não se trata de expor a si, o que, em tese, seria problemas seu. Mas você não vive sozinho e ao se expor, expõe a todos que convivem contigo: mãe, pai, avós, vizinhos, pessoas de todas as situações. Até onde iria seu direito de fazer isso?

Por Julio Gomes.

Não pense que é fácil para mim escrever estas linhas. Acredite, é bastante difícil.

Isso acontece porque para falar com você, tenho de começar falando comigo mesmo, e não é fácil enfrentar a si próprio, aos seus próprios gostos, interesses, vícios, acomodações e facilidades.

Assim como você, também adoro festas. Sei que não deveria mais gostar, mas ainda amo o agitado mundo das diversões. Fazer o quê? Vou mentir para mim mesmo? Não!

Gosto igualmente de praia. E ainda mais de esportes. De estar junto com a galera, de emoções, de suor, de esforço, de romper barreiras, desafios, de me soltar no mundo.

Sinto, nestes tempos de pandemia, enormes saudades de uma boa aglomeração. Daquelas em que ao andar e dançar aos pulos você esbarra em mil pessoas, se mela no suor de alguém que você não tem nem como saber se é homem ou mulher, gordo ou magro. Pouco importa, a festa é o que vale, a diversão, a vida vivida em alta rotação!

Sei o que é isso tudo e sinto muita, muita falta. Mas não vou. Não nestes tempos.

A Covid, com seu rastro de internamentos, UTIs, sequelas e mortes, voltou a se agravar, de acordo com as estatísticas – não são opiniões, nem achismo, são fatos – e com a vida não se brinca, em hipótese alguma. O preço pode ser único, pago de uma só vez, sem volta, sem GAME OVER. A vida não é um vídeo game.

Quando vamos a uma festa, a um paredão, a uma praia, bar ou esporte em que todos se aglomeram, sem máscaras, há dois palmos de distância ou menos, e depois retornamos para casa, é como se toda nossa família tivesse ido junto.

É como se nosso velho avô, como se nossa tia doente, como se aquele parente ou agregado tivesse ido conosco, porque o que pegarmos na festa traremos para quem está dentro de casa, frágil, com medo, tentando se proteger e sobreviver.

Não é correto expor aos outros desse jeito. É preciso ter coragem e dizer isso.

Não se trata de expor a si, o que, em tese, seria problemas seu. Mas você não vive sozinho e ao se expor, expõe a todos que convivem contigo: mãe, pai, avós, vizinhos, pessoas de todas as situações. Até onde iria seu direito de fazer isso?

Você, que é jovem ou adulto(a), é responsável por seus atos, e se optar por agir irresponsavelmente isso não retirará sua culpa, nem irá diminuir os efeitos de uma ação infeliz.

Jovem, saia sim, mas para trabalhar ou estudar. E se for para uma diversão – porque quando somos jovens diversão é tudo – faça isso com responsabilidade, sem aglomeração, sem se expor tanto. E se no local for impossível não se expor, simplesmente não vá, porque a pandemia vai passar, e depois disso você ainda estará jovem, e ainda terá o resto da vida para ir onde quiser, livremente.

Contenha-se. Acautele-se. É difícil, eu sei, mas é bem menos ruim do que carregar a culpa de ter trazido um vírus que pode custar, em casa, a vida de uma pessoa que amamos. Isto sim, não passará, e você terá de carregar esta culpa para o resto de sua vida.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.



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