A festa de réveillon em cinco dias de Neymar e o Brasil atual

Triste Brasil este espelhado no Réveillon de Neymar, que tenta ser tão modernoso, mas termina por nos mostrar o quanto ainda somos antigos e primitivos. Sem dúvida, a festa foi um show dantesco, à altura da roupa prateada escolhida por Neymar.

Por Julio Gomes.

Causou grande rebuliço nas redes sociais e no meio jornalístico a festança de réveillon que Neymar patrocinou em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, onde possui uma portentosa mansão, tendo ainda alugado outro imóvel do mesmo padrão situado vizinho ao seu, para uma festa mais “privativa”.

As fotos, como era de se esperar, viralizaram nas redes sociais, com destaque para a espalhafatosa roupa prateada do jogador, de gosto duvidoso, mas sem dúvida mais chamativa do que a de qualquer outro convidado, beldade ou artista ali presente.

Em uma análise mais ampla a festa promovida por Neymar nos diz muito, muito mesmo acerca da natureza humana, das mudanças e permanências naquilo que chamamos de Civilização Ocidental e de como se encontra o Brasil nos dias de hoje. Vejamos.

Para quem conhece um pouco mais de História, ou lê muito, não chega a ser novidade festas de pessoas poderosas que se estendem por vários dias. Na antiga Roma dos césares, e bem antes dela, há registros de festas dos patrícios, da nobreza, das famílias e potentados que integravam a classes dominantes de então, a se estenderem por dias seguidos, com ostentações e extravagâncias ainda maiores, onde imperava a licença para todo o tipo de desatinos, a eles permitidos de forma irrestrita.

Voltando à Roma imperial tínhamos, em quantidade e com grande repercussão àquela época, as grandes festas das famílias da aristocracia dominante, onde só pessoas da mesma alta posição social eram convidadas, com direito a bacanais – em local mais restrito, é claro, semelhante à mansão vizinha onde Neymar e os “parças” tinham acesso privado – e a todo tipo de excesso em bebidas (a droga mais utilizada na época) e comidas, sendo comum comer e depois vomitar para comer de novo, logo em seguida.

Em divertimentos que nos deixariam, hoje, inteiramente perplexos, era à época comum que em dado momento da festa o anfitrião chamasse todos os convidados para assistir a uma boa luta entre dois ou mais escravos ou gladiadores – real, sem simulações – em que ao final vários deles perdiam a vida estupidamente para diversão dos potentados, que depois iriam rir e comentar entre si animadamente os lances da luta, enquanto os serviçais se livravam dos corpos. Acredite, isso acontecia!

Da mesma forma, no Antigo Regime da França de antes da Revolução Francesa, as famílias do Primeiro Estado (a nobreza) se divertiam em festas restritas, que duravam dias, para as quais se viajava longas distâncias e se dormia antes da festa, para melhor aproveitá-las, já que os nobres não trabalhavam, vivendo da exploração econômica e da espoliação política e social das classes inferiores, o chamado Terceiro Estado, que era o povo, então desprovido de cidadania e dos direitos mais elementares.

Neymar, em sua jornada alucinada e sem limites que o dinheiro excessivo, a fama e a bajulação humana lhe proporcionam, protagonizou, mesmo talvez sem saber dos fatos históricos acima, uma festa à imagem e semelhança daquelas que ocorriam no auge do Império Romano, ou nos melhores tempos da nobreza europeia, com direito a todos os gastos, extravagâncias e permissividades que, para quem tem bom senso ou mesmo noção de limites, não deixam de ser constrangedores.

E, sobretudo, a festa de Neymar nos mostra o quanto a atual sociedade brasileira é parecida com a que havia na Roma Imperial e no Regime dos Nobres, quando as pessoas que estavam no topo da sociedade tudo podiam, de tudo riam, tudo gastavam, desperdiçavam, luxavam e desdenhavam, enquanto parte extremamente significativa do povo se debatia para sobreviver em meio a necessidades atrozes e à falta do essencial à sobrevivência, expressando a estúpida desigualdade social existente ontem e hoje.

Triste Brasil este espelhado no Réveillon de Neymar, que tenta ser tão modernoso, mas termina por nos mostrar o quanto ainda somos antigos e primitivos. Sem dúvida, a festa foi um show dantesco, à altura da roupa prateada escolhida por Neymar.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Blog do Gusmão.



One response to “A festa de réveillon em cinco dias de Neymar e o Brasil atual

  1. Parabéns Paulo César, seu texto retratou perfeitamente, o que os poderosos representam e a forma como eles vêem a classe dos menos desprovidos. As desigualdades sociais já existiam desde os tempos primordiais. Lamentável esse comportamento de Neymar, um menino que saio da periferia e conhece muito bem o que o nosso povo que é maioria passa e irão sofrer muito mais com o que está por vir em 2021.

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