Carta aberta aos jovens em tempos de Covid-19

Não se trata de expor a si, o que, em tese, seria problemas seu. Mas você não vive sozinho e ao se expor, expõe a todos que convivem contigo: mãe, pai, avós, vizinhos, pessoas de todas as situações. Até onde iria seu direito de fazer isso?

Por Julio Gomes.

Não pense que é fácil para mim escrever estas linhas. Acredite, é bastante difícil.

Isso acontece porque para falar com você, tenho de começar falando comigo mesmo, e não é fácil enfrentar a si próprio, aos seus próprios gostos, interesses, vícios, acomodações e facilidades.

Assim como você, também adoro festas. Sei que não deveria mais gostar, mas ainda amo o agitado mundo das diversões. Fazer o quê? Vou mentir para mim mesmo? Não!

Gosto igualmente de praia. E ainda mais de esportes. De estar junto com a galera, de emoções, de suor, de esforço, de romper barreiras, desafios, de me soltar no mundo.

Sinto, nestes tempos de pandemia, enormes saudades de uma boa aglomeração. Daquelas em que ao andar e dançar aos pulos você esbarra em mil pessoas, se mela no suor de alguém que você não tem nem como saber se é homem ou mulher, gordo ou magro. Pouco importa, a festa é o que vale, a diversão, a vida vivida em alta rotação!

Sei o que é isso tudo e sinto muita, muita falta. Mas não vou. Não nestes tempos.

A Covid, com seu rastro de internamentos, UTIs, sequelas e mortes, voltou a se agravar, de acordo com as estatísticas – não são opiniões, nem achismo, são fatos – e com a vida não se brinca, em hipótese alguma. O preço pode ser único, pago de uma só vez, sem volta, sem GAME OVER. A vida não é um vídeo game.

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Tecnologias para quê?

Progredimos tecnologicamente, não há dúvida. Viajamos a velocidades supersônicas, ultrapassamos a estratosfera em naves espaciais, singramos o fundo dos mares com submarinos e podemos realizar uma delicada cirurgia em alguém que está do outro lado do mundo, usando a informática e a robótica. Mas preferimos nos matar uns aos outros.

Por Julio Gomes.

Havia, na segunda-feira pela manhã, umas manchas escuras de sangue na calçada, bem próximo ao meu local de trabalho, no Centro da cidade. Mas, como há poucos metros do sangue está a porta de entrada para um Dentista, supus que se tratasse de uma extração malsucedida (ou bem-sucedida?), daquelas em que saímos do odontólogo cuspindo sangue vivo.

À tarde, porém, me contaram os fatos: na noite anterior, um homem fora baleado ali, e a vítima morreu no local, antes que alguém pudesse prestar-lhe socorro.

Não posso deixar de ficar atônito com o quanto vale a vida humana, em nossa sociedade, auto intitulada moderna e civilizada.

Desde, pelo menos, a Primeira Guerra Mundial, já deveria ter ficado claro para a humanidade que progresso tecnológico não é garantia de progresso humano. Aliás, avanços tecnológicos em mãos de pessoas despreparadas muito frequentemente geram tragédias, como confirmamos todos os dias, ao ver endinheirados de mente fraca se encherem de substâncias alucinógenas e perderem a vida dirigindo irresponsavelmente um lindo carro, novo e potente, que custou milhões. Ou matarem alguém ao dirigir desta forma.

Progredimos tecnologicamente, não há dúvida. Viajamos a velocidades supersônicas, ultrapassamos a estratosfera em naves espaciais, singramos o fundo dos mares com submarinos e podemos realizar uma delicada cirurgia em alguém que está do outro lado do mundo, usando a informática e a robótica. Mas preferimos nos matar uns aos outros.

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Assassinato de João Alberto, o que fazer?

Penso na atuação repressiva da Polícia, pois um dos agressores era policial temporário no estado do Rio Grande do Sul, quase sempre seletiva ao agredir com muito mais rigor ao pobre, ao negro, ao morador da periferia.

Por Julio Gomes.

Confesso que fiquei extremamente chocado ao assistir as cenas referentes ao assassinato de João Alberto Silveira Freitas, ocorrido no dia 19/11/2020 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, como resultado da ação de um pequeno grupo de funcionários da rede de supermercados Carrefour.

Acabei de assistir ao vídeo e à reportagem exibida em uma grande emissora de TV aberta, que mostra também o soco desferido pela vítima em um dos funcionários na porta de saída do mercado. Mas nada, absolutamente nada justifica toda a sequência de espancamento, sufocação e assassinato – sim, assassinato – que aconteceu depois.

João Alberto perdeu brutalmente sua vida na véspera do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, em que se rememora a morte do líder Zumbi dos Palmares e a luta do povo negro deste país por liberdade, Justiça e para sobreviver em uma sociedade que continua sendo hostil, discriminatória e assassina, mesmo após terem se passado nada menos do que 132 anos do fim legal da escravidão no Brasil, por conta da Lei Áurea.

A pergunta que roda a cabeça após o assassinato brutal de mais um negro no Brasil é: o que fazer?

Os racistas, neste ano, se calaram, não criticaram o Dia da Consciência Negra, como fazem habitualmente, de forma mais ou menos direta. Mas continuam racistas e prontos para cometer o próximo assassinato.

Penso na necessidade de termos professores de História e Filosofia – não por acaso aqueles mais odiados pelos racistas e fascistas – e de termos outros professores igualmente comprometidos com uma Educação que forme pessoas de fato, e não apenas mão-de-obra barata para trabalhos precários e terceirizados.

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Na eleição todos ganham, sem exceções

A instituição do voto, inicialmente ocorrida na Civilização Grega, foi se espalhando lentamente entre os demais povos, e ganhando adeptos, afinal não era possível, a todo o momento e por qualquer disputa, sacar as armas e provocar mortes, ou expor-se ao risco da morte.

Por Julio Gomes.

Quem conhece os processos de luta pelo poder não se ilude: sangue, guerras e mortes sempre estiveram presentes, em todos os tempos, quando se trata da disputa por altas posições, seja entre as cidades-estados da Antiguidade, seja entre os países do mundo contemporâneo ou mesmo apenas entre pessoas.

As guerras que Roma fez em sua grandeza e, depois, em seu declínio; as duas Grandes Guerras Mundiais ocorridas no Século XX; e as disputas entre famílias ricas e ilustres pelo poder em pequenos rincões esquecidos do interior sempre estiveram marcadas por sangue, em quantidade proporcional ao tamanho da disputa.

É exatamente por isso que foi imensamente genial, revolucionária e abençoada a ideia que os gregos tiveram, ainda na Idade Antiga, alguns séculos antes de Cristo, de substituir a disputa armada pela manifestação de vontade das pessoas aptas a opinar, feita por meio da colocação de algum objeto em uma urna, já que a imensa maioria das pessoas não sabia ler nem escrever. Mas já sabia votar!

A instituição do voto, inicialmente ocorrida na Civilização Grega, foi se espalhando lentamente entre os demais povos, e ganhando adeptos, afinal não era possível, a todo o momento e por qualquer disputa, sacar as armas e provocar mortes, ou expor-se ao risco da morte.

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As eleições nos EUA e um novo mundo

 

“É muito mais do que a derrota de um partido político, é a derrota de um conjunto de valores e atitudes diante da vida que infelicita ao próximo, que põe para baixo, que nega a ciência, a racionalidade, o respeito às leis e às Instituições”

 

Por Julio Gomes.

De todas as reações ao resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos, que após uma demorada contagem de votos proclamou a vitória do Democrata Joe Bidem sobre Donald Trump, a que mais emociona, dentre as que pudemos assistir, foi a manifestação ao vivo do comentarista da grande rede de comunicações CNN, reproduzida em quase todas as redes sociais, a que tivemos acesso no YouTube

 Nela, o comentarista começa dizendo que “É mais fácil ser um pai esta manhã, é mais fácil dizes aos seus filhos que ter caráter importa”, e prossegue em um discurso em primeira pessoa do singular que, surpreendentemente, traduz perfeitamente os sentimentos de todos que querem um mundo melhor e uma vida melhor para todas as pessoas.

A derrota de Trump não foi simplesmente a derrota de um partido político, coisa que ocorre em qualquer eleição, pois sempre alguém ganha e alguém perde, sendo fato corriqueiro. Não!

A derrota de Trump significa a derrota da estupidez, da arrogância sem limites, do racismo mal disfarçado de uns e explícito de outros, daqueles que alçaram a grosseria, a discriminação, os maus sentimentos em relação ao próximo à categoria de virtude que deveria ser ostentada publicamente e praticada no cotidiano, como se fosse uma grande virtude.

É muito mais do que a derrota de um partido político, é a derrota de um conjunto de valores e atitudes diante da vida que infelicita ao próximo, que põe para baixo, que nega a ciência, a racionalidade, o respeito às leis e às Instituições.

Foi justamente a superação desses referenciais negativos anteriormente citados que fez com que o ocidente se livrasse das amarras medievais, dos entraves do Antigo Regime, dos horrores da escravidão e pudesse constituir um mundo livre, democrático, baseado na crença de que todos somos iguais e de que temos direitos iguais e inalienáveis.

É nesse mundo de direitos iguais, de liberdade política, econômica e social que almejamos viver, sem retroceder a um passado que nos repugna, que nos envergonha, que visitamos nos livros e aulas de história justamente para que nunca mais venhamos a repetir erros tais como acreditar em regimes em ditaduras, em superioridade racial ou em guerras como instrumento de progresso da humanidade. Chega!

Queremos Educação, Ciência, Trabalho, Diversidade, Amor ao Próximo, Direitos e também Limites e Respeito com relação aos Outros, tudo isso escrito assim, com letras maiúsculas. O governo Trump significava o contrário disso tudo.

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Como saber o programa de Governo de Cada Candidato?

“No calor da disputa os candidatos faziam grandes comícios nas maiores cidades do país, participavam de debates na TV transmitidos ao vivo para todo o Brasil, davam inúmeras entrevistas e apresentavam suas propostas de governo”.

 

 

Por Julio Gomes.

Eleições para Presidente da República no Brasil. O ano, penso que tenha sido 1989, pleito em que as principais lideranças inseridas na disputa eram Fernando Collor, Lula e Leonel Brizola.

Eram as primeiras eleições diretas para Presidente desde 1960, pois a ditadura instalada em 1964 instituiu, para aquele ano, o famigerado Colégio Eleitoral, em que um grupo de poderosos, ocupantes de altos cargos públicos, decidia quem seria o mandatário maior do país, retirando do povo a prerrogativa de escolhê-lo direta e livremente.

Por isso mesmo – após 29 anos sem poder votar para Presidente – havia grande frenesi e intenso interesse em torno do pleito, o primeiro a ser realizado após a Constituição de 1988, em mais um passo que consolidava a redemocratização do Brasil.

No calor da disputa os candidatos faziam grandes comícios nas maiores cidades do país, participavam de debates na TV transmitidos ao vivo para todo o Brasil, davam inúmeras entrevistas e apresentavam suas propostas de governo.

Ganhava especial destaque o programa de governo de cada candidato, onde cada um expunha, de forma mais ampla e detalhada, o conjunto de transformações que pretendia implementar.

Foi aí que ocorreu um episódio do qual jamais me esquecerei. Enquanto Lula e Collor desfilavam propostas, Leonel Brizola, mais idoso, experiente e com seu jeito característico, muito direto e sincero, ao ser insistentemente questionado por repórteres acerca de seu programa de governo, impacientou-se e respondeu, mais ou menos nestes termos: – Quantos programas de governo você quer? Eu posso mandar fazer e te dar vários deles.

Depois, olhando o repórter que ficou em silêncio, atônito, continuou respondendo, agora mais calmo e assertivo: – Se você quer saber o programa de governo de um candidato, olhe o passado dele. Cada um pode falar o que quiser, mas é seu passado que revela quem ele é, o que irá fazer.

Advirto que as palavras acima são a recriação de um diálogo do qual não me lembro as exatas palavras, mas do qual jamais me esquecerei, pelo sentido correto e profundo.

Passados tantos anos, hoje vivenciamos as eleições para Prefeito em Ilhéus. Aqui, tal como lá ocorreu, os candidatos apresentam propostas e acenam rumos futuros.

Entretanto, sem desmerecer a importância de um programa de governo formal, penso que devemos olhar para cada candidato observando, acima de tudo, o seu passado.

O que realizaram, ou não, nos anos anteriores? Como são no desempenho de sua profissão? São conhecidos por sua conduta mais ou menos correta? Como são em suas empresas, com seus empregados, são bons patrões? São falastrões inconsequentes ou sustentam o que afirmam? Como são até mesmo na parte pública de sua vida pessoal, que muito pode dizer acerca de seu caráter e reais propósitos?

Nosso passado fala por nós, fidedignamente e em alta voz, para quem está atento e quer ouvir.

Qualquer um pode abrir a boca e dizer qualquer coisa. Mas ninguém muda sua conduta passada, seja ela boa ou ruim, e é justamente através dela que melhor se pode conhecer quem é cada candidato, e o que realmente deverá fazer ao chegar no poder.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Navegação de cabotagem pelos manguezais canavieirenses

“Pegar o voo de uma garça, então, é a glória, que dirá os saltos de peixes e a paisagem bucólicas das casas dos pescadores e agricultores”.

 

Por Walmir Rosário.

Eu tinha a simples percepção que essa viagem não daria certo, apesar de ser uma pessoa otimista que sempre acredita nas coisas novas, mesmo quando experimentais, principalmente quando vislumbro aventura. Além do mais, pelo cenário pictórico dos manguezais, com suas plantas exuberantes, deixando à mostra suas enormes raízes e folhas, numa viagem emocionante pelos canais fluviais entre Canavieiras e Belmonte.

Minha apreensão não se prendia às qualidades e habilidade do piloto da lancha, marinheiros acostumados às constantes viagens de turismo ou simples transportes entre essas duas cidades, encantando seus passageiros. Conhecimento da área não faltam aos experimentados marinheiros, que sabem – sem consultar o Google ou os livros – os horários das marés, os ventos e outras intempéries.

Buscam, sempre, o “mar de Almirante”, para deixar à vontade seus clientes, ávidos por fotos e filmes com a exuberante paisagem e fauna, buscando emoções nas imagens, em que caranguejos e guaiamuns se transformam em artistas de cinema, mais, ainda, verdadeiros astros. Pegar o voo de uma garça, então, é a glória, que dirá os saltos de peixes e a paisagem bucólicas das casas dos pescadores e agricultores.

Mais essa viagem não seria apenas um simples translado de Canavieiras a Belmonte, cidades tão próximas que, às vezes parecem distantes. O percurso, feito em apenas 40 a 50 minutos, a depender das condições de navegabilidade, seria feito com esmero. E para garantir a segurança dos Irmãos, não teria comandante mais gabaritado do que Raimundo Antônio Tedesco, versão canavieirense de Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso.

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A Covid-19 e os que perseveram

Saiba que não está sozinho, que é credor de admiração e respeito, e tenha a certeza de que contribuiu, sim, para que muitos pudessem ser salvos.

Por Julio Gomes.

Desde fevereiro/março 2020 o Brasil vive, dentro de seu território, com o drama de conviver com a Covid-19 e seus efeitos: sociais, econômicos, culturais e, obviamente, com os adoecimentos, mortes e sofrimentos que dela decorrem.

Também desde o início se enfatizou a necessidade de isolamento social, o “fique em casa”, o imprescindível uso de máscara, álcool 70º e demais medidas para conter o avanço do vírus.

Viu-se também, na contracorrente das medidas acima, a pregação aberta, teórica e sobretudo prática, ao desprezo de quase tudo o que foi descrito no parágrafo anterior, feita por parte de algumas autoridades de renome e de eminentes figuras que incentivaram a população o tempo todo a desrespeitar todas as normas sociais e profiláticas de prevenção à doença.

O curioso é que estas mesmas altas figuras, quando eventualmente contaminados pelo vírus, corriam para hospitais do padrão do Albert Einstein, em São Paulo, ou mesmo para o Hospital das Forças Armadas, em Brasília, valendo-se da excelência do atendimento destas instituições, enquanto milhares de seus entusiasmados seguidores morriam sob a ação do mesmo vírus nas portas do SUS, abarrotadas ou fechadas; e contribuíam para que o vírus passasse adiante, em busca de uma vítima mais frágil, destinatária à morte.

Mas houve e há aqueles que, em ato de firme responsabilidade social, adotaram desde o princípio e se mantiveram firmes nas medidas de prevenção, no isolamento possível, na solidariedade, no silencioso e anônimo trabalho de se limitarem com relação a inúmeros afazeres, prazeres e até algumas necessidades, para dar sua contribuição, pessoal, intransferível e importantíssima para que pudéssemos caminhar para uma superação menos trágica deste momento doloroso. (mais…)

A ponte que liga o paraíso ao transtorno

Após a construção da “ponte do paraíso” vem ainda mais; o “transtorno” para os moradores.

Por Benedito Souza.

Uma determinada ‘escola’ de filosofia sempre destacou uma diferença fundamental entre a razão instrumental e a razão crítica. A primeira tem medo dos avanços e da tecnologia. A segunda afirma que todos os avanços e todas as tecnologias são bem-vindas, no entanto que venham para o bem da humanidade e que tragam benefícios para o gênero humano.

Desta forma, a aspiração de toda a comunidade ilheense era a chegada da nova ponte para que pudesse resolver problemas de décadas de mobilidade urbana que estavam insustentáveis. Falei ‘toda’, pois não há uma só pessoa na cidade, bem como na região, que não almejasse com esperança a construção da ponte que ligaria o centro da cidade de Ilhéus à zona sul, lugar de belíssimas praias e outros encantos.

No entanto, mais uma vez, foi demonstrada uma concepção liberal dos administradores públicos; com a chegada de um novo cartão postal, expulsa-se a comunidade que historicamente vivia no local para dar lugar a grandes empreendimentos turísticos. Uma prática nociva que se repete, onde o capital tem poder.

A comunidade da Nova Brasília teve perdas irreversíveis com essa construção. Começando com os pescadores que ali viviam (já que muitos foram obrigados a deixar suas casas) com a dificuldade de colocar seus barcos de pesca para sair da baía do Pontal. O assoreamento deixou a saída das embarcações perigosa, e com a maré baixa o canal da barra fica com apenas um metro de profundidade, não sendo possível passar para garantir o sustento, só podendo sair a cada 12 horas.

É bom lembrar também que um dos primeiros episódios de impacto na comunidade diz respeito à retirada de um colégio público estadual, cujos estudantes eram, em sua maioria, da Nova Brasília, sem a devida construção de outra unidade escolar em nenhum lugar da cidade. (mais…)

Porque precisam que você seja um idiota

Quem aceita muito lixo na cultura também o consumirá nas informações buscadas na internet, nas manifestações artísticas, procurando sempre e invariavelmente na TV e nas redes sociais o grotesco, o sangrento, o baixo nível.

Por Julio Gomes.

Estamos no tempo da estupidez exacerbada, das execuções festejadas, do elogio da violência, da tortura, da afirmação do grotesco. Não é por acaso. Nada é por acaso.

Nós, povo brasileiro, já ouvimos no passado muita música de qualidade, desde o Já saudoso e distante no tempo Luiz Gonzaga até os não tão distantes, mas também saudosos roqueiros Cazuza e Chorão.

Já assistimos excelentes novelas, mesmo na tão criticada Rede Globo. Quem pode negar o quanto era bom assistir Roque Santeiro, O Bem-Amado, Gabriela e outros folhetins televisivos que nos levavam do riso às emoções mais profundas?

Também já tivemos excelentes autores, em prosa e verso, de Guimarães Rosa e Carlos Drumond de Andrade até nosso conterrâneo Jorge Amado.

E será que não há, hoje, bons músicos, boas produções para TV e bons cronistas? É claro que há, sim, muitos e excelentes. O que não existe mais é espaço para que eles apareçam, para que seus trabalhos se tornem cultura de massa.

Desde alguns anos, talvez desde o início dos anos 2000, temos visto uma perda de qualidade contínua e assustadora da produção artística que chega à maioria da população, ressalvadas poucas exceções. (mais…)

A contemporaneidade das Ciclofaixas na Cidade de São Jorge dos Ilhéus

“Todo mundo tem direito à vida, todo mundo tem direito igual”.

Por Elvis Pereira Barbosa*

Motoqueiro caminhão pedestre
Carro importado carro nacional
Mas tem que dirigir direito
Para não congestionar o local
Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral
É melhor você chegar inteiro
Com seu venoso e seu arterial
A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

(Trecho da música Rua da Passagem, Lenine).

Vivemos tempos diferentes, o ano de 2020 tem nos mostrado isto a todo instante. Esta afirmação pode ser aplicada à nossa cidade, São Jorge dos Ilhéus como carinhosamente gosto de chamá-la.

Mostrando o quão diferente estamos, gostaria de chamar a atenção para a maneira como nos deslocamos dentro do nosso território, principalmente na zona urbana. Nestes tempos de pandemia, após passarmos meses em confinamento por conta da crise sanitária (eu ainda sigo confinado, saindo de casa apenas quando há necessidade), redescobrimos a cidade e percebemos como é maravilhoso poder circular por ela, seja a pé ou de bicicleta. Entretanto, alguns dos velhos atores seguem ignorando essa mudança de paradigma e que tem influenciado positivamente muitas pessoas, levando-as a “descobrirem estas novas maneiras” de interagir com a cidade.

Nestes últimos meses, o número de novos ciclistas aumentou significativamente e a ciclovia da nova ponte demonstrou a urgência da ligação da zona Norte com a zona Sul para facilitar a circulação de bicicletas pela cidade. Um fato a ser observado é o aumento do fluxo de ciclistas na ciclofaixa do Malhado/Litorânea Norte e recentemente na nova ciclofaixa Parque Infantil – Barra. Os ciclistas comuns, que usam a bicicleta para o trabalho/deslocamento estão usando de maneira intensa aquele trecho. Porém, nem tudo são flores. (mais…)

Impossível calar a imprensa ilheense

Não é a primeira vez que um comunicador se depara com esse golpe contra a dignidade da pessoa, em que um poderoso tenta lhe tirar o emprego. Mais que isso, querem lhe tirar a dignidade, a capacidade de trabalhar e com o suor do seu rosto manter as obrigações mínimas de sua casa, cuidar de sua família, levar para casa o pão de cada dia, como todo o trabalhador.

Por Walmir Rosário.

Conheço o radialista Luke Rey há muitos anos, com quem tive o prazer trabalhar junto. Um repórter nato, daqueles que não briga com a notícia, dos que numa análise rápida enxerga o futuro, sabe perguntar e respeita o entrevistado. Há muito não nos vemos e recentemente soube que virou notícia, daquelas que ele sabe fazer. O que me intrigou foi que o bom comunicador faz notícia, não se transforma em notícia.

Imediatamente, pensei…tem alguma coisa errada, pois Luke Rey nunca foi de pular para o outro lado do balcão. Após uma busca na internet, chego aos fatos. Luke Rey foi obrigado a deixar o comando do programa Gabriela News, na Gabriela FM. Até aí tudo bem, não fosse a violência perpetrada contra ele pelo prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, o conhecido Marão.

E Marão usou contra Luke Rey – um fiscal da sociedade – uma arma torpe, aquela usada pelos poderosos, os de alto poder econômico: as ações judiciais, num total de nove, contra um comunicador indefenso, cuja uma única arma que possui é o microfone e as ondas do rádio. O crime cometido – pasmem os senhores e senhora –, apontar erros de uma administração pífia, desorientada, de olhar enviesado para os problemas da cidade.

– A minha voz ficará muda, não sei até quando – reclama o radialista.

E Luke Rey não é um menino afoito, daquele que empunha um microfone como se fosse um justiceiro, policial, membro do Ministério Público, um juiz ao sentenciar. O profissional Luke Rey sabe muito bem distinguir a qualidade da notícia, a análise dos fatos, o que dizer aos seus ouvintes. Não agradará a todos e isso é fato, principalmente aos que prometem administrar uma cidade e nem sempre cumprem o compromisso. (mais…)

Ciclovias em Ilhéus: críticas e reconhecimento

Entretanto, há pelo menos mais um aspecto desta discussão que merece atenção, pois se é correto avaliar e tecer críticas às obras realizadas pelo Poder Público, é preciso, igualmente, reconhecer a positividade da iniciativa de quem tenta fazer algo de bom, mesmo correndo o risco de cometer algum erro.

Por Julio Gomes.

Muito se tem comentado, sobretudo entre ciclistas, sobre a implantação de um novo trecho de ciclovia na Barra, no espaço que vai do Parque Infantil até a sinaleira situada ao fim da Barra, junto à rua que dá acesso à passarela para o São Miguel.

O principal ponto de controvérsia gira em torno do fato de que a ciclovia já existente, que vem do malhado pelo lado direito da via (para quem trafega no sentido Centro – Zona Norte) é interrompida pouco antes do Posto de Saúde Sara Kubitschek e ressurge cerca de cem metros após, só que do lado esquerdo da pista, o que obrigará o ciclista a cruzar a via para poder continuar trafegando pela ciclovia.

Para tornar ainda mais dramática a situação, após passar para o lado esquerdo da pista e pedalar por cerca de 500 metros, a ciclovia se interrompe novamente para retornar para o lado direito da mesma pista, obrigando o ciclista a cruzá-la de volta, criando dois riscos de grave acidente por atropelamento, há cerca de 500 metros entre si.

Quem é ciclista sabe o quanto é perigoso ficar cruzando uma pista de um lado para outro, e também está ciente de que em caso de acidente com outro veículo a parte mais frágil é a bicicleta, e o candidato preferencial a sofrer grave lesão ou morrer é o ciclista.

Por tudo isso não se trata, aqui, de uma questão menor, sem importância, mas de algo que pode salvar ou fazer com que se perca uma vida humana. E por isso inúmeros ciclistas questionam a forma como a ciclovia está sendo colocada, e reivindicam que ela deveria continuar, do início ao fim, sempre pelo mesmo lado da pista – no caso o lado direito – para melhor prevenir contra a ocorrência de graves acidentes. (mais…)

Que a vida de Antônia possa inspirar seu voto!

Embora admirável, a vida de minha mãe deveria ter sido menos aflitiva, caso tivéssemos políticos compromissados com a superação do racismo e das iniquidades correlatas.

Por Áurea Silva Oliveira.

Quando criança, acreditava que todos éramos iguais. Na escola e nas múltiplas dimensões da convivência social essa (in)verdade era disseminada. Na realidade, hoje, portadora de um olhar crítico, forjado na formação acadêmica e no diálogo jamais interrompido com o feminismo negro, vejo que tudo não passava de malabarismo discursivo para me fazer crer na falsa simetria entre pobres e ricos, brancos e negros.

Ao longo da adolescência comecei a perceber as fissuras sociais. Começava a tomar ciência de que elas tinham uma estreita relação com a má distribuição de renda e o racismo. Foi um momento conflituoso. Essa consciência me fez questionar as iniquidades sociais, e, por conseguinte, refutar jargões como “manda quem pode e obedece quem tem juízo” ou “cada macaco em seu galho”. Desejava modificar esse estado de coisas!

Não queria mais tomar a pobreza enquanto destino trágico de determinados grupos socioraciais. Sem base intelectual, mas movida pela indignação típica daqueles que negam resignação à miséria, perguntava-me: por que a maioria dos miseráveis eram negros? A primeira voz que ouvi se manifestar contra esse estado de coisas foi a de Antônia, minha mãe.

Antônia durante boa da parte do seu existir sentiu na sua pele preta a brutalidade das iniquidades. Todavia, com uma resiliência que até hoje não consigo nominar, resistiu e resiste. Era e é uma mulher à frente de seu tempo. Ao seu modo e possibilidades, impediu a marginalização da sua prole.  Embora nunca tenha sido simpática à política, incorporou a educação enquanto o meio mais eficaz de evitar o ostracismo social de filhos e netos, sendo essa a principal bandeira do movimento negro. (mais…)

A pseudoelite bolsonarista de Ilhéus acha que o povo é bobo!

Falam em moralidade, do combate à corrupção, da devoção ao povo, ensaiam até mesmo um discurso antirracista – mas logo abraçam a cômoda democracia racial, já que na verdade adoram a conveniência dos todos somos iguais -, mas são apressados em aprender os mecanismos espúrios de apropriação dos recursos públicos.

Por Caio Pinheiro.

As eleições municipais estão na iminência de acontecer. Mesmo com o descrédito na política, milhões de brasileiros irão às urnas eleger ou reeleger prefeitos e vereadores. Articulações políticas sob os mais diversos vieses acontecem. Esquerda, centro e direita, dentro das suas linhas programáticas e pragmáticas, querem ocupar espaços privilegiados do poder político nos 5.570 municípios brasileiros, tomando como referência os dados do IBGE.

Será uma eleição atípica, sem dúvidas. Embora o efeito lava jato tem sofrido reveses, ainda subsiste na subjetividade de muitos cidadãos a demonização da política. Para estes, a corrupção é uma característica escrita no código genético de todo político. Todavia, há exceções entre os portadores dos ambicionados votos. Falo de eleitores que têm suas escolhas pautadas em convicções político-ideológicas, na análise acurada dos programas e propostas dos candidatos ou no puro pragmatismo, já que seu voto lhe beneficiará individualmente.

Contudo, nessa simplória crônica da vida citadina, fugirei um pouco das análises conjunturais. Proponho uma reflexão sobre o comportamento de determinados pleiteantes ao executivo e legislativo da nossa amada Ilhéus. Esse mergulho no local tem motivo? Vem me impressionando a forma pela qual os candidatos socialmente ligados a elite ilheense estão amorosamente assediando os pobres. Cidadãos que até pouco tempo eles mesmos chamavam de “bolsa esmola”, em referência ao Bolsa Família, agora são alvo do seu acalento.

Julgando pelos posts das redes sociais desses candidatos, só agora descobriram que Ilhéus é muitos mais do que a Avenida Soares Lopes ou os bares e restaurantes badalados da Zona Sul. Virou coqueluche tirar self abraçando moradores e lideranças comunitárias de bairros periféricos. Eu, cá do meu lado de ser melindrado, típico virginiano com três planetas em terra, penso que essas criaturas viviam em Nárnia ou sofrem de antirrealismo crônico. (mais…)