Perdemos a irreverência de Tyrone Perrucho

Choramos muito, mas devemos homenageá-lo com alegria, como costume na sua vida.

Por Walmir Rosário.

Véspera de Natal – pelos meus cálculos, o menino Jesus nasceu à meia-noite – e nesta quinta-feira (24) teríamos uma série de atividades a cumprir antes das obrigações com os familiares, em casa. Mas nada deu certo. Nem mesmo nos preocupamos de marcar o encontro num dos muitos bares de Canavieiras que abrigam, semanalmente, a costumeira reunião do Clube dos Rolas Cansadas e da Confraria d’O Berimbau.

É que ainda nos sentimos desorientados, desde o dia 16 de dezembro, com o sumiço do nosso coordenador mor, o jornalista aposentado Tyrone Perrucho, que se encontra lá pras bandas de Ilhéus numa missão deveras importante e ainda sem data aprazada para o retorno nesta foz do rio Pardo. De uma hora pra outra ele resolveu cumprir uma missão importante, desmoralizar – de vez – este tal de Coronavírus, mais conhecido como Covid-19. (mais…)

A festa de réveillon em cinco dias de Neymar e o Brasil atual

Triste Brasil este espelhado no Réveillon de Neymar, que tenta ser tão modernoso, mas termina por nos mostrar o quanto ainda somos antigos e primitivos. Sem dúvida, a festa foi um show dantesco, à altura da roupa prateada escolhida por Neymar.

Por Julio Gomes.

Causou grande rebuliço nas redes sociais e no meio jornalístico a festança de réveillon que Neymar patrocinou em Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, onde possui uma portentosa mansão, tendo ainda alugado outro imóvel do mesmo padrão situado vizinho ao seu, para uma festa mais “privativa”.

As fotos, como era de se esperar, viralizaram nas redes sociais, com destaque para a espalhafatosa roupa prateada do jogador, de gosto duvidoso, mas sem dúvida mais chamativa do que a de qualquer outro convidado, beldade ou artista ali presente. (mais…)

O sonho das lâminas verticais em Itabuna

Laércio Pinho era um grande visualista e idealista incorrigível, capaz de colocar no papel seus grandes sonhos.

Por Walmir Rosário.

Na década de 50 do século passado, os estudantes baianos tomaram conta – de cabo a rabo – da União Nacional dos Estudantes (UNE). Dentre eles, muitos itabunenses participavam da diretoria ou exerciam forte liderança entre a estudantada brasileira, a exemplo de Gutemberg Amazonas, Gervásio José dos Santos, Laércio Pinho Lima e Dagoberto Brandão.

Formados, com o canudo nas mãos, cada retornou a Itabuna para seguir sua profissão escolhida. Gervásio José dos Santos implantou uma forte banca de advogado; Gutemberg e Dagoberto suas empresas de engenharia civil; e Laércio Pinho um escritório de consultoria em economia, prestando serviços às empresas privadas e órgãos públicos, àquela época ainda uma novidade no interior. (mais…)

Reflexões de um pós Natal

“Minha mesa de Natal, talvez assim como a sua, não é rica nem chique, mas consegue ser farta. E sobretudo, acima de tudo e de todas as coisas, ao redor dela não está faltando nenhuma pessoa”.

Por Julio Gomes.

Impossível, em 2020, passar pelo Natal sem refletir sobre tudo o que este ano representou, sobretudo à luz da comemoração do nascimento de Jesus e de seu significado para a humanidade, e para cada um de nós, particularmente.

Libertando-nos da figura midiática e comercial de Papai Noel e caminhando para mais próximo do Mestre em sua feição de recém-nascido, junto à sua mãe Maria, a seu pai José e à rota de fuga da família para fugir à matança dos inocentes ordenada pelo rei Herodes – que informado de que havia nascido um novo rei mandara matar todas as crianças do sexo masculino com menos de três anos de idade, segundo o relato bíblico – podemos pensar na maravilhosa noite em que Jesus nasceu, abrigado em rude estrutura rural destinada ao abrigo de animais e pastores. (mais…)

Jovens, o que vocês escolhem?

Por Julio Gomes.

Não consigo me alegrar com a notícia de que alguém foi morto. Não me venham com essa de que era ligado ao crime, às drogas ou a seja lá o que for. Uma morte é sempre uma perda, não há como ser algo de bom.

Nos dias de hoje, vemos nossos jovens morrendo e matando em disputas de poder ligadas ao crime, às drogas, e não há o que comemorar. Nem como dizer que é menos um, porque no lugar do que se foi entrará outro, alimentando a boca insaciável que traga vidas e destrói destinos.

Alegra-me ver um jovem indo para a escola. Arrumando o primeiro emprego. Casando-se e construindo uma família. Indo frequentar uma instituição religiosa. Sendo pai, ou mãe, e assumindo a paternidade ou maternidade da criança que gerou. Isso traz alegria, e não a morte, que é o contrário, o oposto, o fim de tudo isso.

Para os jovens de hoje tudo ficou mais acessível. Tanto a universidade quanto a prostituição; tanto as boas informações quanto as drogas mais pesadas; tanto o trabalho quanto a marginalização.

É obvio que, em um primeiro momento, as más opções são sempre mais atrativas: o prazer da embriaguez, o ganho rápido no crime na prostituição, o caminho fácil da violência.

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Esta intensa vida social me cansa!

“Longe de mim reclamar do acúmulo de atividades sociais – também conhecidas como etílicas –, desde que, comprovadamente, seja acompanhada de boa e farta gastronomia de sustança. Confesso que já não tenho o mesmo entusiasmo cotidiano de participar de inaugurações de freezeres e geladeiras, aniversários de bares, da aposentadoria de Tyrone e até do ingresso de um confrade no grupo de Whatsapp”.

Por Walmir Rosário.

Durante anos me planejei para ter uma vida sossegada assim que iniciasse a desfrutar da tão sonhada aposentadoria. Não deu certo e não me perguntem o porquê, pois também não tenho a mínima ideia, embora acredite que tenha feito tudo da maneira mais acertada, sem pular uma só etapa do que recomendam os especialistas nesse tipo de transformação de um trabalhador em vagabundo – no bom sentido, é claro.

Foi uma transição pacífica, equilibrada, segura, sem qualquer tipo de arroubo para cair na gandaia pelos bares da vida ou vestir o tal do pijama listrado, sentar numa espreguiçadeira e contar estórias como fazia Pantaleão, personagem de Chico Anísio. Continuei a trabalhar nos mesmos moldes e intensidade de antes, arrefecendo aos poucos para não sentir nenhum impacto e desparafusar a cabeça.

Nos primeiros seis anos tudo saiu como planejado e, aos poucos, fui me desligando das amarras até ficar completamente livre, leve e solto. Para os entendidos, aviso que não caí de cabeça na gandaia, embora assumisse, cada vez mais, compromissos em agremiações etílicas como confrarias (do Alto Beco do Fuxico, em Itabuna; d’O Berimbau e o Clube do Rolas Cansadas, em Canavieiras.

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Maradona: um legado, uma lição

Por Julio Gomes.

Não há dúvida de que o argentino Diego Maradona, se não foi o melhor de todos, foi um dos melhores jogadores de futebol que já existiu, em um patamar ao qual pouquíssimos esportistas, de qualquer modalidade, conseguem chegar.

Goleador, genial, campeão do mundo e líder da seleção Argentina em suas maiores conquistas, Maradona era conhecido e admirado dentro e fora de seu país natal.

Entretanto, Dieguito, como era carinhosamente chamado, não se limitava a ser somente um jogador de futebol: abraçava causas sociais e políticas, se posicionava publicamente em favor das ideias em que acreditava, se manifestava por um mundo mais justo e vivia, apaixonadamente.

Mas, a nos mostrar que não há perfeição em nenhum de nós, mortais, Diego Maradona também tinha suas dificuldades, suas idiossincrasias, suas fraquezas, que quanto a ele se mostravam ligadas ao uso de drogas, do qual jamais conseguiu se desvencilhar.

Esse uso de drogas pesadas – que ele assumia, com sua personalidade voluntariosa e sincera – veio a lhe custar caro demais. Prejudicou sua carreira por meio de um sem-número de problemas e de duas suspensões enquanto ainda atuava como jogador, e o fez encerrá-la mais cedo, e de forma não desejável.

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Carta aberta aos jovens em tempos de Covid-19

Não se trata de expor a si, o que, em tese, seria problemas seu. Mas você não vive sozinho e ao se expor, expõe a todos que convivem contigo: mãe, pai, avós, vizinhos, pessoas de todas as situações. Até onde iria seu direito de fazer isso?

Por Julio Gomes.

Não pense que é fácil para mim escrever estas linhas. Acredite, é bastante difícil.

Isso acontece porque para falar com você, tenho de começar falando comigo mesmo, e não é fácil enfrentar a si próprio, aos seus próprios gostos, interesses, vícios, acomodações e facilidades.

Assim como você, também adoro festas. Sei que não deveria mais gostar, mas ainda amo o agitado mundo das diversões. Fazer o quê? Vou mentir para mim mesmo? Não!

Gosto igualmente de praia. E ainda mais de esportes. De estar junto com a galera, de emoções, de suor, de esforço, de romper barreiras, desafios, de me soltar no mundo.

Sinto, nestes tempos de pandemia, enormes saudades de uma boa aglomeração. Daquelas em que ao andar e dançar aos pulos você esbarra em mil pessoas, se mela no suor de alguém que você não tem nem como saber se é homem ou mulher, gordo ou magro. Pouco importa, a festa é o que vale, a diversão, a vida vivida em alta rotação!

Sei o que é isso tudo e sinto muita, muita falta. Mas não vou. Não nestes tempos.

A Covid, com seu rastro de internamentos, UTIs, sequelas e mortes, voltou a se agravar, de acordo com as estatísticas – não são opiniões, nem achismo, são fatos – e com a vida não se brinca, em hipótese alguma. O preço pode ser único, pago de uma só vez, sem volta, sem GAME OVER. A vida não é um vídeo game.

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Tecnologias para quê?

Progredimos tecnologicamente, não há dúvida. Viajamos a velocidades supersônicas, ultrapassamos a estratosfera em naves espaciais, singramos o fundo dos mares com submarinos e podemos realizar uma delicada cirurgia em alguém que está do outro lado do mundo, usando a informática e a robótica. Mas preferimos nos matar uns aos outros.

Por Julio Gomes.

Havia, na segunda-feira pela manhã, umas manchas escuras de sangue na calçada, bem próximo ao meu local de trabalho, no Centro da cidade. Mas, como há poucos metros do sangue está a porta de entrada para um Dentista, supus que se tratasse de uma extração malsucedida (ou bem-sucedida?), daquelas em que saímos do odontólogo cuspindo sangue vivo.

À tarde, porém, me contaram os fatos: na noite anterior, um homem fora baleado ali, e a vítima morreu no local, antes que alguém pudesse prestar-lhe socorro.

Não posso deixar de ficar atônito com o quanto vale a vida humana, em nossa sociedade, auto intitulada moderna e civilizada.

Desde, pelo menos, a Primeira Guerra Mundial, já deveria ter ficado claro para a humanidade que progresso tecnológico não é garantia de progresso humano. Aliás, avanços tecnológicos em mãos de pessoas despreparadas muito frequentemente geram tragédias, como confirmamos todos os dias, ao ver endinheirados de mente fraca se encherem de substâncias alucinógenas e perderem a vida dirigindo irresponsavelmente um lindo carro, novo e potente, que custou milhões. Ou matarem alguém ao dirigir desta forma.

Progredimos tecnologicamente, não há dúvida. Viajamos a velocidades supersônicas, ultrapassamos a estratosfera em naves espaciais, singramos o fundo dos mares com submarinos e podemos realizar uma delicada cirurgia em alguém que está do outro lado do mundo, usando a informática e a robótica. Mas preferimos nos matar uns aos outros.

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Assassinato de João Alberto, o que fazer?

Penso na atuação repressiva da Polícia, pois um dos agressores era policial temporário no estado do Rio Grande do Sul, quase sempre seletiva ao agredir com muito mais rigor ao pobre, ao negro, ao morador da periferia.

Por Julio Gomes.

Confesso que fiquei extremamente chocado ao assistir as cenas referentes ao assassinato de João Alberto Silveira Freitas, ocorrido no dia 19/11/2020 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, como resultado da ação de um pequeno grupo de funcionários da rede de supermercados Carrefour.

Acabei de assistir ao vídeo e à reportagem exibida em uma grande emissora de TV aberta, que mostra também o soco desferido pela vítima em um dos funcionários na porta de saída do mercado. Mas nada, absolutamente nada justifica toda a sequência de espancamento, sufocação e assassinato – sim, assassinato – que aconteceu depois.

João Alberto perdeu brutalmente sua vida na véspera do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, em que se rememora a morte do líder Zumbi dos Palmares e a luta do povo negro deste país por liberdade, Justiça e para sobreviver em uma sociedade que continua sendo hostil, discriminatória e assassina, mesmo após terem se passado nada menos do que 132 anos do fim legal da escravidão no Brasil, por conta da Lei Áurea.

A pergunta que roda a cabeça após o assassinato brutal de mais um negro no Brasil é: o que fazer?

Os racistas, neste ano, se calaram, não criticaram o Dia da Consciência Negra, como fazem habitualmente, de forma mais ou menos direta. Mas continuam racistas e prontos para cometer o próximo assassinato.

Penso na necessidade de termos professores de História e Filosofia – não por acaso aqueles mais odiados pelos racistas e fascistas – e de termos outros professores igualmente comprometidos com uma Educação que forme pessoas de fato, e não apenas mão-de-obra barata para trabalhos precários e terceirizados.

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Na eleição todos ganham, sem exceções

A instituição do voto, inicialmente ocorrida na Civilização Grega, foi se espalhando lentamente entre os demais povos, e ganhando adeptos, afinal não era possível, a todo o momento e por qualquer disputa, sacar as armas e provocar mortes, ou expor-se ao risco da morte.

Por Julio Gomes.

Quem conhece os processos de luta pelo poder não se ilude: sangue, guerras e mortes sempre estiveram presentes, em todos os tempos, quando se trata da disputa por altas posições, seja entre as cidades-estados da Antiguidade, seja entre os países do mundo contemporâneo ou mesmo apenas entre pessoas.

As guerras que Roma fez em sua grandeza e, depois, em seu declínio; as duas Grandes Guerras Mundiais ocorridas no Século XX; e as disputas entre famílias ricas e ilustres pelo poder em pequenos rincões esquecidos do interior sempre estiveram marcadas por sangue, em quantidade proporcional ao tamanho da disputa.

É exatamente por isso que foi imensamente genial, revolucionária e abençoada a ideia que os gregos tiveram, ainda na Idade Antiga, alguns séculos antes de Cristo, de substituir a disputa armada pela manifestação de vontade das pessoas aptas a opinar, feita por meio da colocação de algum objeto em uma urna, já que a imensa maioria das pessoas não sabia ler nem escrever. Mas já sabia votar!

A instituição do voto, inicialmente ocorrida na Civilização Grega, foi se espalhando lentamente entre os demais povos, e ganhando adeptos, afinal não era possível, a todo o momento e por qualquer disputa, sacar as armas e provocar mortes, ou expor-se ao risco da morte.

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As eleições nos EUA e um novo mundo

 

“É muito mais do que a derrota de um partido político, é a derrota de um conjunto de valores e atitudes diante da vida que infelicita ao próximo, que põe para baixo, que nega a ciência, a racionalidade, o respeito às leis e às Instituições”

 

Por Julio Gomes.

De todas as reações ao resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos, que após uma demorada contagem de votos proclamou a vitória do Democrata Joe Bidem sobre Donald Trump, a que mais emociona, dentre as que pudemos assistir, foi a manifestação ao vivo do comentarista da grande rede de comunicações CNN, reproduzida em quase todas as redes sociais, a que tivemos acesso no YouTube

 Nela, o comentarista começa dizendo que “É mais fácil ser um pai esta manhã, é mais fácil dizes aos seus filhos que ter caráter importa”, e prossegue em um discurso em primeira pessoa do singular que, surpreendentemente, traduz perfeitamente os sentimentos de todos que querem um mundo melhor e uma vida melhor para todas as pessoas.

A derrota de Trump não foi simplesmente a derrota de um partido político, coisa que ocorre em qualquer eleição, pois sempre alguém ganha e alguém perde, sendo fato corriqueiro. Não!

A derrota de Trump significa a derrota da estupidez, da arrogância sem limites, do racismo mal disfarçado de uns e explícito de outros, daqueles que alçaram a grosseria, a discriminação, os maus sentimentos em relação ao próximo à categoria de virtude que deveria ser ostentada publicamente e praticada no cotidiano, como se fosse uma grande virtude.

É muito mais do que a derrota de um partido político, é a derrota de um conjunto de valores e atitudes diante da vida que infelicita ao próximo, que põe para baixo, que nega a ciência, a racionalidade, o respeito às leis e às Instituições.

Foi justamente a superação desses referenciais negativos anteriormente citados que fez com que o ocidente se livrasse das amarras medievais, dos entraves do Antigo Regime, dos horrores da escravidão e pudesse constituir um mundo livre, democrático, baseado na crença de que todos somos iguais e de que temos direitos iguais e inalienáveis.

É nesse mundo de direitos iguais, de liberdade política, econômica e social que almejamos viver, sem retroceder a um passado que nos repugna, que nos envergonha, que visitamos nos livros e aulas de história justamente para que nunca mais venhamos a repetir erros tais como acreditar em regimes em ditaduras, em superioridade racial ou em guerras como instrumento de progresso da humanidade. Chega!

Queremos Educação, Ciência, Trabalho, Diversidade, Amor ao Próximo, Direitos e também Limites e Respeito com relação aos Outros, tudo isso escrito assim, com letras maiúsculas. O governo Trump significava o contrário disso tudo.

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Como saber o programa de Governo de Cada Candidato?

“No calor da disputa os candidatos faziam grandes comícios nas maiores cidades do país, participavam de debates na TV transmitidos ao vivo para todo o Brasil, davam inúmeras entrevistas e apresentavam suas propostas de governo”.

 

 

Por Julio Gomes.

Eleições para Presidente da República no Brasil. O ano, penso que tenha sido 1989, pleito em que as principais lideranças inseridas na disputa eram Fernando Collor, Lula e Leonel Brizola.

Eram as primeiras eleições diretas para Presidente desde 1960, pois a ditadura instalada em 1964 instituiu, para aquele ano, o famigerado Colégio Eleitoral, em que um grupo de poderosos, ocupantes de altos cargos públicos, decidia quem seria o mandatário maior do país, retirando do povo a prerrogativa de escolhê-lo direta e livremente.

Por isso mesmo – após 29 anos sem poder votar para Presidente – havia grande frenesi e intenso interesse em torno do pleito, o primeiro a ser realizado após a Constituição de 1988, em mais um passo que consolidava a redemocratização do Brasil.

No calor da disputa os candidatos faziam grandes comícios nas maiores cidades do país, participavam de debates na TV transmitidos ao vivo para todo o Brasil, davam inúmeras entrevistas e apresentavam suas propostas de governo.

Ganhava especial destaque o programa de governo de cada candidato, onde cada um expunha, de forma mais ampla e detalhada, o conjunto de transformações que pretendia implementar.

Foi aí que ocorreu um episódio do qual jamais me esquecerei. Enquanto Lula e Collor desfilavam propostas, Leonel Brizola, mais idoso, experiente e com seu jeito característico, muito direto e sincero, ao ser insistentemente questionado por repórteres acerca de seu programa de governo, impacientou-se e respondeu, mais ou menos nestes termos: – Quantos programas de governo você quer? Eu posso mandar fazer e te dar vários deles.

Depois, olhando o repórter que ficou em silêncio, atônito, continuou respondendo, agora mais calmo e assertivo: – Se você quer saber o programa de governo de um candidato, olhe o passado dele. Cada um pode falar o que quiser, mas é seu passado que revela quem ele é, o que irá fazer.

Advirto que as palavras acima são a recriação de um diálogo do qual não me lembro as exatas palavras, mas do qual jamais me esquecerei, pelo sentido correto e profundo.

Passados tantos anos, hoje vivenciamos as eleições para Prefeito em Ilhéus. Aqui, tal como lá ocorreu, os candidatos apresentam propostas e acenam rumos futuros.

Entretanto, sem desmerecer a importância de um programa de governo formal, penso que devemos olhar para cada candidato observando, acima de tudo, o seu passado.

O que realizaram, ou não, nos anos anteriores? Como são no desempenho de sua profissão? São conhecidos por sua conduta mais ou menos correta? Como são em suas empresas, com seus empregados, são bons patrões? São falastrões inconsequentes ou sustentam o que afirmam? Como são até mesmo na parte pública de sua vida pessoal, que muito pode dizer acerca de seu caráter e reais propósitos?

Nosso passado fala por nós, fidedignamente e em alta voz, para quem está atento e quer ouvir.

Qualquer um pode abrir a boca e dizer qualquer coisa. Mas ninguém muda sua conduta passada, seja ela boa ou ruim, e é justamente através dela que melhor se pode conhecer quem é cada candidato, e o que realmente deverá fazer ao chegar no poder.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Navegação de cabotagem pelos manguezais canavieirenses

“Pegar o voo de uma garça, então, é a glória, que dirá os saltos de peixes e a paisagem bucólicas das casas dos pescadores e agricultores”.

 

Por Walmir Rosário.

Eu tinha a simples percepção que essa viagem não daria certo, apesar de ser uma pessoa otimista que sempre acredita nas coisas novas, mesmo quando experimentais, principalmente quando vislumbro aventura. Além do mais, pelo cenário pictórico dos manguezais, com suas plantas exuberantes, deixando à mostra suas enormes raízes e folhas, numa viagem emocionante pelos canais fluviais entre Canavieiras e Belmonte.

Minha apreensão não se prendia às qualidades e habilidade do piloto da lancha, marinheiros acostumados às constantes viagens de turismo ou simples transportes entre essas duas cidades, encantando seus passageiros. Conhecimento da área não faltam aos experimentados marinheiros, que sabem – sem consultar o Google ou os livros – os horários das marés, os ventos e outras intempéries.

Buscam, sempre, o “mar de Almirante”, para deixar à vontade seus clientes, ávidos por fotos e filmes com a exuberante paisagem e fauna, buscando emoções nas imagens, em que caranguejos e guaiamuns se transformam em artistas de cinema, mais, ainda, verdadeiros astros. Pegar o voo de uma garça, então, é a glória, que dirá os saltos de peixes e a paisagem bucólicas das casas dos pescadores e agricultores.

Mais essa viagem não seria apenas um simples translado de Canavieiras a Belmonte, cidades tão próximas que, às vezes parecem distantes. O percurso, feito em apenas 40 a 50 minutos, a depender das condições de navegabilidade, seria feito com esmero. E para garantir a segurança dos Irmãos, não teria comandante mais gabaritado do que Raimundo Antônio Tedesco, versão canavieirense de Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso.

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A Covid-19 e os que perseveram

Saiba que não está sozinho, que é credor de admiração e respeito, e tenha a certeza de que contribuiu, sim, para que muitos pudessem ser salvos.

Por Julio Gomes.

Desde fevereiro/março 2020 o Brasil vive, dentro de seu território, com o drama de conviver com a Covid-19 e seus efeitos: sociais, econômicos, culturais e, obviamente, com os adoecimentos, mortes e sofrimentos que dela decorrem.

Também desde o início se enfatizou a necessidade de isolamento social, o “fique em casa”, o imprescindível uso de máscara, álcool 70º e demais medidas para conter o avanço do vírus.

Viu-se também, na contracorrente das medidas acima, a pregação aberta, teórica e sobretudo prática, ao desprezo de quase tudo o que foi descrito no parágrafo anterior, feita por parte de algumas autoridades de renome e de eminentes figuras que incentivaram a população o tempo todo a desrespeitar todas as normas sociais e profiláticas de prevenção à doença.

O curioso é que estas mesmas altas figuras, quando eventualmente contaminados pelo vírus, corriam para hospitais do padrão do Albert Einstein, em São Paulo, ou mesmo para o Hospital das Forças Armadas, em Brasília, valendo-se da excelência do atendimento destas instituições, enquanto milhares de seus entusiasmados seguidores morriam sob a ação do mesmo vírus nas portas do SUS, abarrotadas ou fechadas; e contribuíam para que o vírus passasse adiante, em busca de uma vítima mais frágil, destinatária à morte.

Mas houve e há aqueles que, em ato de firme responsabilidade social, adotaram desde o princípio e se mantiveram firmes nas medidas de prevenção, no isolamento possível, na solidariedade, no silencioso e anônimo trabalho de se limitarem com relação a inúmeros afazeres, prazeres e até algumas necessidades, para dar sua contribuição, pessoal, intransferível e importantíssima para que pudéssemos caminhar para uma superação menos trágica deste momento doloroso. (mais…)