Ilhéus da depressão

Por Mohammad Jamal.

Chá de pilhas, arrebites. Há coisa de duas décadas a ciência farmacêutica nos brindou com duas descobertas em forma de pílulas miraculosas. A uma se atribuía a completa extinção da disfunção erétil, o Citrato de Cidenafil; e com a outra, se decretava em definitivo o fim da depressão que atinge 20% da população mundial, com a Paroxerina, mais conhecida por Prozac. Dizia-se que a nova compreensão da neuroquímica tornara-se tão avançada que em breve seria possível desenvolver e ate variar nossas personalidades segundo as preferências de cada um. A partir daí, não haveria mais espaço neuropsíquico para as angústias e depressões humanas. Dizia-se à época, que pessoas submetidas a tratamento com a Paroxetina não tinham apenas superado a depressão, mas também haviam se renovado completamente e até aperfeiçoado suas personalidades.

Exercício ilegal da profissão? O tempo passou trazendo milhões de dólares em dividendos aos acionistas das multinacionais farmacêuticas e, não obstante às prescrições maciças dessa como de tantas outras substâncias de semelhantes indicações para milhões de pessoas, essas “maravilhas químicas” não conseguiram reduzir significativamente o total da miséria humana e sua perplexidade diante da vida, diga-se, dura vida para a maioria. Alguém que tenha lido mínima parcela da grandiosidade da obra de Shakespeare não se surpreenderia com essa decepção. Quando MacBeth pergunta ao médico:

“Cura-a disso. Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que oprime o coração?”. Ao que o médico responde lacônico: “Para isso deve o doente achar os meios.”. Seria ele um doutor do SUS?

Adereços e badulaques arquitetônicos. Quanto mais levada ao absurdo exagero, a decadência exala para alguns, seu charme contemplativo; um contemplar que é uma mistura de arcaísmo arqueológico que aceita e desafeiçoa o belo degradado ao abandono e, acolhe com naturalidade a morte prematura do contemporâneo. Algo parecido com a visão das múmias e seu exotismo mórbido como remanescente mudo, iconográfico de um passado de grandezas, contudo, sem haver suportado o peso do tempo e a desídia da imortalidade que mal conservou os seus restos sob as pirâmides do vaidoso egocentrismo, algo objeto que supunha eternizado.

É Lula Livre? Há romantismo nas ruínas sim, e de fato elas são românticas a ponto de abastados cidadãos as reconstruírem em cópias suntuosas nos jardins das suas opulentas mansões como agradáveis e melancólicos lembretes sobre a transitoriedade da existência terrena. A propósito. Aí vem a exemplo, Ilhéus, que já teve faraós e pirâmides de mármore; seu passado de riqueza e opulência aos moldes dos egípcios e dos europeus; consideradas as devidas proporcionalidades. Pena que naqueles tempos, ha décadas, não se projetavam prognósticos sobre a macroeconomia, o agronegócio, tampouco se imaginava que a árvore que paria dinheiro pudesse um dia morrer de eclampsia, neoplasia ou abatida por um simples e corriqueiro fungo lançado por um terrorista socialista que lhe atingiu mortalmente “as partes” falindo irremediavelmente a cornucópia da riqueza que brotava das cultivares quase sem tratos culturais, seus frutos dourados sob o calor úmido à sombra de outras árvores desimportantes, jaqueiras, tangerinas, pinhas…

As joias da coroa são de micheline e latão, mas joias!  Mas voltemos à triste Ilhéus, à dura realidade que envolve aqueles remanescentes sem eira nem beira e aqueloutros, com alguma beira duramente economizada ou com pouca eira, produto do trabalho. Podemos dizer que naqueles tempos fartos de outrora, imprevidentes ou não, perdulários, nababos, chiques degustadores das delícias e prazeres mundanos, de cujas roças de cacau manavam rios de dinheiro em duas safras e duas bongas, que dissipavam grana como nababos nos vales das delícias, mereçam alguma inculpabilidade. Quanto a isso, aos festins e ao luxo não cabem censuras ou críticas. Como diz Adelaide: “é meu, dou a quem quiser.”. Concordo plenamente. Quando adquiro uma camisa nova, já saio da loja vestindo-a! A vida é efêmera.

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Nossa visão turva sobre o Estado: podemos reagir aos fatos, no Brasil?

Por Elisabeth Zorgetz.  

De todo o recente processo político que passamos reagi, intimamente, das mais diferentes formas. Não me constrange dizer que chorei convulsivamente na noite de outubro. Ou tremi de raiva de pessoas à minha volta nas semanas seguinte. Que puderam me surpreender com a truculência institucional, passando sobre tudo e todos… Desde então estive calada, observante. Não seduzida pelo histerismo categórico de Damares. Não seduzida por qualquer tipo de provocação, mas vigilante. Como pesquisadora da dependência na América Latina, o panorama delineado para o campo da política econômica parece claro como água mineral, e ainda que tantos brasileiros possam ignorar o que realmente signifique, reconheço que não é indecifrável. Confesso minha maior preocupação, e por necessidade que nossos companheiros e camaradas o saibam: a intensa confusão sobre os nossos inimigos, os inimigos do povo. Nesse ponto, pretendo abordar apenas um dos elementos plenos de distorção, que é o Estado burguês, em seu caráter dependente. Por isso pergunto: temos estima pelo Estado capitalista? Reconhecemos o seu status? Reunimos força para disputá-lo, e depois? Devemos superá-lo? Sabemos realmente quem ele é? Não pretendo responder essas perguntas, mas elas servem onde estão, aqui.

Para começar, é importante admitir que numa hegemonia capitalista, a classe política não está separada da classe capitalista, tampouco está conectada à uma racionalidade política específica relacionada à lógica social do capital. Inversamente, os participantes do poder do Estado se comportam como os próprios capitalistas, quando não o são de fato.  São, por assim dizer, agentes da acumulação de capital e expropriação do valor do trabalho tal qual empresários ou negociadores do capital financeiro. Essa afirmação não tem intenção de ser ofensa, mas representa uma postura sóbria com a qual se pode encarar a atuação desses agentes a partir de diferentes nuances, ao passo que temos em largas bancadas interesses do capital privado, mas também de sindicatos, movimentos sociais, questões identitárias ou territoriais. As últimas, em boa medida, desempenham papéis diferenciados no terreno da reprodução do capitalismo, que admitem, necessariamente, a atenuação de efeitos deletérios à sua manutenção.

No caminhar da década de 1970, a crise do confortável modelo keynesiano para os países centrais expôs o que poderia ser entendido como alguns limites da performance do capitalismo de Estado, ocupado em manter uma acumulação crescente com a força das nações industriais. Mesmo através dessa abordagem, o Estado não pode ser um mero instrumento da classe empresarial. Foi através dele, imprescindivelmente e inclusive, que o neoliberalismo se instalou como ideologia (mais que momento econômico) para justificar uma ofensiva global aos trabalhadores.

Nesse ponto já não podemos desprezar a teoria. No tomo 3 do Capital, Marx comenta sobre a forma política específica correspondente à forma econômica específica da produção social capitalista, cuja expressão particular irá determinar a relação entre quem governa e é governado. Esse Estado é constituído por relações de produção historicamente específicas, cuja questão da soberania é ao mesmo tempo separada e partícipe do movimento econômico total. Longe de tomar a questão como uma determinação geral e unívoca, Marx compreendeu as infinitas variações, tendências e nuances da realidade objetiva, embora não tenhamos tantos textos adiante dada a circunstância de sua morte. As pistas que o velho Marx nos deixa sobre a conformação de um Estado no capitalismo periférico e dependente são cruciais para entendermos quem é o nosso Estado brasileiro, por exemplo.

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Para que servem as demissões do município de Ilhéus?

Servidores municipais durante protesto. Foto: Sinsepi.

Por Índio do Brasil (pseudônimo).

Uma bomba caiu sobre a vida e a casa de centenas de trabalhadores ilheenses neste início de 2019, mais exatamente no dia 07 de janeiro. Por meio de um Decreto, seguido de uma Portaria, o atual prefeito municipal suspendeu o contrato de trabalho de centenas de servidores públicos contratados entre 1983 e 1988, e demitiu mais outros 125 contratados que se encontravam lotados na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.

A alegação utilizada pelo prefeito para o ato de demissão e afastamento sumário de servidores foi que estaria dando cumprimento a uma sentença judicial, que teria determinado tal afastamento.

Entretanto, são necessárias algumas considerações sobre os fatos acima.

Em primeiro lugar, chama a atenção a forma rápida e eficaz com que o Município cumpriu a determinação judicial. Sabemos que municípios recorrem, procrastinam, entram com inúmeros recursos e, por vezes, simplesmente descumprem decisões judiciais. Porém, neste caso, o pronto acatamento da ordem judicial torna tudo muito suspeito. A impressão que fica é de que os gestores do Município adoraram se livrar dos servidores mais antigos.

Além disso, é de vital importância ressaltar que os servidores contratados entre 1983 e 1988 não ingressaram na prefeitura de forma irregular. É que antes da Constituição de 05 de outubro de 1988 não havia a exigência de que as pessoas se submetessem a concurso público para se tornarem servidores públicos. Estes servidores, é verdade, não têm direito a estabilidade, mas não são irregulares, e por anos a fio trabalharam segundo as exigências do Município, de forma regular e legal.

Há pessoas que comemoram, mesmo de forma dissimulada, a demissão destas centenas de chefes de família, talvez desejando se colocar, ou a alguém ligado a si, no lugar dos demitidos. Trágico engano! Se quem tinha mais de 30 anos de serviço no município de Ilhéus foi posto na rua, de que valerá sua convocação, mesmo que após aprovação em concurso? Quais serão suas garantias de permanência no emprego? A instabilidade e desventura de uns atrai a mesma situação para os que, eventualmente, venham a substituir aos trabalhadores que se foram.

Cabe ainda ressaltar o trágico efeito social destas demissões. Primeiro sobre as famílias de cada demitido, muitas dos quais já passando por privações. Posteriormente, sobre o comércio e a sociedade ilheense, que empobrecerá ainda mais, pois trabalhador gasta e compra no comércio de Ilhéus, mas dinheiro que fica nos cofres municipais nem sempre dá frutos na cidade, e as vezes desaparece de forma tão discreta como foi creditado no banco, sem proporcionar nenhum benefício social.

Uma medida capaz de amenizar o caos social provocado pelas demissões seria a reabertura do PDV, o Plano de Demissão Voluntária, para que os que se encontram com os contratos de trabalho suspensos – os admitidos entre 1983 e 1988 – possam aderir, nas mesmas condições anteriormente oferecidas aos servidores em 2018. Trata-se de medida unicamente administrativa, que não depende de chancela judicial, e que ajudaria muitíssimo a estes demitidos, dando-lhes um mínimo de dignidade ao deixarem o serviço público, já que a sus pensão do contrato não confere direito nem mesmo ao recebimento de verbas rescisórias e ao saque do FGTS. É o mínimo que o Município pode e deve fazer: Reabrir o PDV para adesão destes servidores.

Por fim, cumpre questionar como os atuais gestores gostariam de ser lembrados, se como aqueles que deram uma opção viável aos servidores mais antigos para o enceramento digno de sua carreira ou como os que os colocaram na rua sem direito a nada. O juiz que prolatou a sentença utilizada para justificar as demissões jamais será lembrado, nem precisará do voto popular para nada. Mas os gestores poderão ser vistos como algozes de famílias inteiras, pelo resto de suas vidas e, sinceramente, isto é tão indesejável e trágico como as próprias demissões efetivadas.

PDV já em favor dos afastados!

A triste sina de Zé Dirceu – da academia ao circo

“Ora, mas o que tem a ver a proibição de um lançamento de livro em Ilhéus, e justamente numa academia de letras, para levantar tamanha celeuma se ela é frequentada até por Jabes Ribeiro, que tem assento na cadeira 8”.

 

 

Por Walmir Rosário com exclusividade para o Blog do Gusmão.

Confesso que estou com receio (ou medo, mesmo) de ir a Ilhéus nessa sexta-feira 18 de janeiro de 2019. É que essa sexta-feira tem cara e corpo inteiro de 13, o número fatídico do PT. Neste dia será realizado, ou, pelo menos, está agendado, o lançamento do livro “Zé Dirceu – Memórias – Volume 1”, escrito na sua mais recente prisão, e que conta quase tudo de sua vida.

Não estranhe o meu medo, pois nesse dia está anunciada uma batalha sem precedentes na cidade, que torna as “guerras” nos jogos entre as seleções de Ilhéus e Itabuna, brincadeira de criança. Bem diferente de antes, quando os ilheenses (papa caranguejo) se postavam em cima do viaduto Pedro Catalão para apedrejar os itabunenses (papa jaca) que viajavam em cima da carroceria de caminhões para assistirem aos jogos. Alvos fáceis.

Por falta de estratégia, os petistas escolheram logo a Academia de Letras de Ilhéus para sediar o evento, quem sabe por ouvir dizer que o local onde se cultuam as letras, a Casa de Abel Pereira, portanto apropriada para eventos de tamanha monta. Mas a proposta não ficou barata e manifestantes (ou ativistas, como queiram os senhores) prometeram empastelar o lançamento, com todas as forças.

Quando eu disse falta de estratégia dos petistas, me referi apenas ao formato das ruas daquela área antiga da cidade, construídas em forma de “U”, para que os habitantes pudessem se defender dos invasores. Quem chega – o invasor – não tem a capacidade ou condição de ver muito à frente, daí a vantagem dos defensores, que deveriam estar armados até os dentes.

Ora, mas o que tem a ver a proibição de um lançamento de livro em Ilhéus, e justamente numa academia de letras, para levantar tamanha celeuma se ela é frequentada até por Jabes Ribeiro, que tem assento na cadeira 8. Calma, o xis do problema é que o buraco é mais embaixo e reside, no caso em questão, na velha luta entre invasores e invadidos. Melhor dizendo: Contra quem apoia o MST e os índios “paraguaios” nas invasões de fazendas.

Me disseram, até, que devido ao grande calor deste verão, assim que soube da notícia da guerra declarada pelos agricultores, o Zé Dirceu baixou hospital, atendido com todas as honras no Costa do Cacau, recém-inaugurado. Ainda bem que os médicos ainda não tinham entrado em greve, ocasionada pela simples falta de pagamento dos seus serviços prestados desde setembro do ano passado.

À boca pequena, circula na cidade, uma outra versão, dando conta que a ida de Zé Dirceu ao Hospital Costa do Cacau tinham motivos relevantes: primeiro, conhecer a obra decantada pelo governador Rui Costa, construída com recursos federais; segundo, que não acreditei de pronto, dá conta que seria apenas uma estratégia para o multifacetado Zé Dirceu posar de vítima, já que idoso e enfermo, quem sabe, conteria os ânimos exaltados.

Mas como se diz que quem tem amigos não dorme no relento, eis que surge o providencial apoio cultural dos artistas, ofertando-lhe [a Zé Dirceu] um espaço na Tenda do Teatro Popular de Ilhéus para o lançamento do rejeitado livro. De pronto, confesso que não conheço o texto do livro nem a resenha, mas acredito que Zé Dirceu corre perigo em lançá-lo em Ilhéus, pois corre o risco de ser convocado para ocupar uma das cadeiras vagas da academia, na qual, sentando, poderá ser decretada sua morte, pela idade.

Não é de hoje que tentam invadir Ilhéus. Desde 1595 – nos conta os historiadores – que o local foi alvo de ataque e invasão dos franceses, rechaçados prontamente pelos habitantes, coisa que permanece até os dias de hoje. Naquela remota época, apesar das belezas da baia do Pontal, dos morros e rios, os invasores não tinham nenhum interesse turístico, somente econômicos e políticos.

Até mesmo um pirata de faz de contas se aventurou a tomar Ilhéus para si e não conseguiu tal proeza. Foi um fiasco histórico. Nos tempos atuais o interesse por Ilhéus tem motivações diferentes: algumas turísticas, outras econômicas, as políticas são impublicáveis, e até por sobrevivência, como os que não se incomodaram com as belezas naturais e se homiziaram nos morros, sem qualquer tipo de exigência.

Pensava eu que essa questão estaria resolvida, com exceção apenas para os itabunenses, invasores semanais das praias e alguns com ânimo permanente e que se dão ao luxo de construir casas de veraneios, de acordo com as possibilidades dos bolsos. Outros vão em busca de trabalho no poder público, alguns de pronto rechaçados, enquanto outros são tolerados. Eu mesmo posso ser considerado um exemplo.

Antes, porém, o papa jaca tem quer ser – ao menos – conhecido, com frequência registrada onde não se bebe leite e come-se do melhor que conste nos cardápios de sustança, a exemplo da Central de Abastecimento do Malhado. Também é (e era) de bom alvitre frequência no saudoso Sancho Pança, na Barrakitika, no Vesúvio e até no Ponto Chic, para degustar um sorvete de Gileno antes ou depois da cachaçada.

Mesmo assim, as diferenças existirão sempre, pois papa caranguejo e papa jaca são os inimigos mais cordiais que já conheci. Quer ver…então bastar lembrar dos finais de semana no Chinaê, cheio de itabunenses. Os ilheenses queriam morrer de raiva por não conseguir sentar às mesas preferidas e comer os caranguejos maiores. Quem manda chegarem atrasados.

Voltado à vaca fria, explico que sou um homem pacífico, totalmente contrário a todos os tipos de violência (se é que as existem), até pela minha condição de ser um cidadão chegado na idade, sem forças para o combate. Portanto, nesta sexta-feira, dia 18, continuarei arranchado em Canavieiras, e desde já declaro nulas minhas pretensões de comer uns quibes no Vesúvio e fechar a noite na minha adorada Barrakitika, né Bruno.

Quanto ao Zé Dirceu, melhor sorte não cabe a mim desejar-lhe, visto não ter poder para tal, por ser um homem astucioso, sagaz e que sabe se adequar aos mais diversos ambientes. Mais do que todos, tem conhecimento de que é odiado e idolatrado. Em nome de uma falsa democracia pintou o diabo, com o intuito de desfigurar a palavra democracia, fazendo crer que a sua ditadura seria o melhor dos mundos. É da vida!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

O que mudou com a nova posse de Arma de Fogo?

O texto abaixo foi extraído do artigo do advogado Rafael Rocha, publicado no site Jusbrasil nesta quarta-feira, 16.

Nessa breve análise, vamos facilitar o entendimento do cidadão sobre o que mudou com o novo decreto sobre a posse de arma de fogo. Há muitas dúvidas sobre o que mudou, se ficou mais fácil, e muitas questões como qualquer um vai poder adquirir uma arma de fogo? O que é preciso para ter uma arma de fogo? Posso andar com uma arma de fogo igual a um policial? Serão respondidas nesse breve texto.

Antes de mais nada e para quem está chegando agora, é importante diferenciar em primeiro lugar posse de porte de armas.

PORTE de armas. É o direito que o cidadão tem de portar, transportar e trazer consigo uma arma de fogo, de forma discreta, fora das dependências de sua residência ou local de trabalho.

POSSE de armas. Consiste em manter no interior de residência (ou dependência desta) ou no local de trabalho a arma de fogo.

Ainda em matéria de esclarecimento, importa apontar que a posse de armas de fogo é para certas armas, aquelas conhecidas como de uso permitido. Deixa-se claro que existem armas de uso PERMITIDO e de uso RESTRITO.

O Decreto 3.665/2000 é o texto responsável por regular a fiscalização de produtos controlados no Brasil, e separa as armas de fogo em dois grandes grupos, no seu Art. 3º incisos:

XVII – arma de uso permitido: arma cuja utilização é permitida a pessoas físicas em geral, bem como a pessoas jurídicas, de acordo com a legislação normativa do Exército;

XVIII – arma de uso restrito: arma que só pode ser utilizada pelas Forças Armadas, por algumas instituições de segurança, e por pessoas físicas e jurídicas habilitadas, devidamente autorizadas pelo Exército, de acordo com legislação específica;

Feitos os primeiros esclarecimentos, passemos a tratar sobre as mudanças advindas do Decreto presidencial que flexibilizou em parte a posse de arma de fogo para o cidadão brasileiro.

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Dos medos, o pior. Um breve ensaio

Por Mohammad Jamal.

No livro, Virginia acorda de mau humor, sentindo-se triste e “indócil como um lobo” (p. 2); a irmã, Vanessa, faz de tudo para alegrá-la, sem sucesso, até que tem uma ideia: dar vida ao desejo de Virginia de ter um lugar perfeito para onde voar quando tudo parece ruim e sombrio. Entra em cena, assim, o poder da arte e o da imaginação criativa, capazes de amenizar a tristeza e ajudar no enfrentamento dos humores e sentimentos mais difíceis. A história de Kyo Maclear possui diferentes camadas de significado, que podem ser lidas de modo independente, mas que se complementam, contribuindo para a compreensão geral, sobre tudo do medo atávico.

Falar sobre medo é algo muito complexo e paradoxal, tendo em vista as singularidades do ser humano e as infinidades de fatores psicológicos capazes de desencadeá-lo. Medo de dirigir, medo de morrer, medo de baratas, medo de assombração, medo de envelhecer, medo de não se reeleger ou de ser investigado pela PF, medo da opinião pública, da imprensa, etc. São tantos que elencá-los seria impossível.

Além do sofrimento psíquico vivenciado pelo indivíduo fóbico, junto com o medo e a fobia, vem o sofrimento físico, as reações orgânicas e fisiológicas alteradas por conta de um estado de forte emoção e angústia. Gastrites, diarreias, alopecia, perda da libido, distúrbios do humor, alterações oníricas, pesadelos vívidos…

“O medo não é uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer.”. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

Boi da cara preta, um acalanto; canção e letra ingênuas, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninavam seus filhos, já foi uma das formas mais rudimentares do canto que induz a gênese do medo na infância, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Essa formula muito primitiva, existe em toda a parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror fantasioso, sentimento que as nossas crianças devem afugentar dormindo. A mente de quem cede a esse medo fantasioso e alegórico certamente crescerá tendo o medo como uma referencia no mínimo limitante; uma barreira escura onde se esconde o incógnito desconhecido que faz suar suas as mãos, a boca fica seca e coração taquicardíaco. Isso é medo; não se confunde com fobias.

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É permitido filmar uma ação policial?

Por Felipe Rocha de Medeiros, publicado no site Jusbrasil.

As mudanças que a tecnologia acarreta continuamente na sociedade são tão abruptas que, em alguns casos, geram conflitos e dúvidas nos diferentes estratos sociais. Vivemos em uma época na qual cada pessoa é o seu próprio veículo de comunicação. Um vídeo despretensioso pode se tornar viral e se espalhar pelo mundo em questão de segundos. Na mesma velocidade, a reputação de uma pessoa pode ser destruída para sempre. Por esse motivo, é uma época perigosa para quem filma e para quem é filmado.

Somado a isso, a população tem um acesso cada vez maior a informações e, consequentemente, se torna mais consciente de seus direitos. Se torna consciente ainda sobre o poder que detêm na palma de sua mão. Atualmente, a primeira resposta à uma violação de direitos, é filmar ou gravar para obtenção de provas. Esse é um comportamento cada vez mais comum e que apresenta uma eficácia probatória enorme. Se antes a confissão era considerada a rainha das provas, hoje com certeza é o vídeo.

As filmagens se tornam ainda mais instintivas quando estamos nos defrontando com uma violação de direitos perpetrada pelo Estado. Se os funcionários públicos possuem presunção de legitimidade e veracidade em seus relatos, quem vai acreditar em nossos relatos?

Por esse motivo, se espalharam pela internet inúmeros vídeos que demonstram policiais cometendo abusos de autoridade das mais diversas ordens. Em alguns desses vídeos, é possível observar que alguns impedem as filmagens sob o pretexto de que seu direito à imagem estaria sendo violado.

Outros simplesmente alegam que é necessária autorização. Para entender melhor ou apenas para ver um exemplo concreto, peço que o leitor interrompa um pouco a leitura e veja o vídeo que está no final do artigo (o vídeo é um exemplo prático muito rico e que tem potencial para várias discussões que não podem ser limitadas à um único artigo).

Mas afinal, o que é esse direito tão alegado pelos policiais do vídeo? O direito à imagem é previsto principalmente no art. 5º, X da Constituição Federal e art. 20 do Código Civil. Veja-se:

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

(..)

Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.

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365 NOVAS CHANCES

Por Natália Lima.            

É chegado o último mês do ano. Dezembro bate na porta com um gorro de natal, mesas fartas, fogos de artificio e o sentimento de amor e renovação em cada coração. Não apenas festas e espumantes, dezembro se trata de uma conversa intima, muito além do que vestir uma cor e pular as sete ondinhas. É olhar para trás e saber que mais um ciclo se fechou para outro iniciar, é entender que sempre teremos uma nova chance. O que podemos fazer melhor em nosso presente para que nos espere o extraordinário em nosso futuro?

Comece modificando suas crenças e experimentando o desapego nos pequenos detalhes. Que tal passar um dia sem navegar na web? Parece uma tarefa difícil e alguns até diriam que impossível. Aos poucos vamos superando limites e conquistando novas formas de enxergar o nosso entorno, indo além do dito e da consciência tática da maioria. Pare de procrastinar, de culpar o mundo pelo seu fracasso, leia bons livros que estejam ligados ao seu propósito de vida, estabeleça datas para o alcance de tais objetivos e nunca se esqueça de estar com pessoas que te motivam, torcem por você e querem o seu bem.

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AOS SETE GUARDIÃES

Por José Eli da Veiga, publicado nesta quarta-feira (26/12) no jornal Valor.

O último meio século de história da China é evidência empírica de que liberdade política e democracia não são condições necessárias ao desempenho econômico, do qual tanto depende o desenvolvimento. E não foi outro o pressuposto da decisão que – pela primeira vez, desde 1937, e pela quinta vez, na história do Brasil – fechou sine die o Congresso, com o Ato Institucional nº 5.

Achando-o “insuficiente”, o recém quarentão e ainda meio obscuro ministro da Fazenda Delfim Netto se empenhou em convencer o marechal Costa e Silva a dar guinadas ainda mais despóticas, “absolutamente necessárias para que este país possa realizar o seu desenvolvimento com maior rapidez”.

Eis uma das pérolas a reluzir em dez páginas que deveriam ser leitura obrigatória para a conclusão do ensino médio: o capítulo “A Missa Negra”, do livro A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari. Ótima ajuda para entender as subsequentes dezenas de atos complementares e verdadeiro tsunami de decretos-lei. Destes, foram cinquenta só na quinzena do apagar das luzes de 1968. Alguns bem cômicos, como mostrará visita ao http://www.planalto.gov.br .

Há 50 anos o Brasil era a nação que mais prometia. Hoje, chega no máximo a ser forte exportador de produtos agropecuários

Entre as perguntas suscitadas por tamanho festival tirânico, uma merece especial atenção de governantes nostálgicos da ‘missa negra’: como explicar a incompetência da ditadura brasileira em produzir, ao menos parcialmente, os feitos da homóloga chinesa e, mutatis mutandis, sul-coreana e chilena?

Há cinquenta anos, era o Brasil a nação que mais prometia no quarteto. Hoje, porém, chega no máximo a ser forte exportador de produtos agropecuários e minerais, inteiramente alijado do confronto geoeconômico central deste início de século, em torno de semicondutores, inteligência artificial, robótica, internet das coisas, nano e biotecnologias. Certamente porque a embriaguez das espetaculares taxas de crescimento colhidas no quinquênio 1969-1973 pela “ditadura escancarada” induziu fantasias estratégicas muito discrepantes das ‘Quatro Modernizações’ chinesas, consolidadas desde 1976 pela rápida vitória de Deng Xiaoping e amplamente divulgadas em 18 de dezembro de 1978.

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O CASO DO DIAGNÓSTICO ERRADO, DEU BANQUETE

Por Mohammad Jamal.

Cena: Kieseweter, nu e sem cuecas, fritando teorias filosóficas imponderáveis na cozinha. Começo citando os exemplos de silogismos que alguns poucos aprenderam no compêndio da lógica de Kieseweter: “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal” – e encerra-se assim raciocínio comum que transparece a todos exato, em se tratando de Caio, mas não em se tratando distintamente de si próprio, sua pessoa, sua própria vida. Caio era um homem em geral e devia morrer. Mas cada um em sua singular autorreflexão não é um Caio. Caio que morra lá quando quiser ou o destino determinar; nós não! Nós não somos o Caio. Caio era um homem ou poderia ser uma mulher em geral e assim poderá morrer quando se lhe aprouver à predestinação. Nós não somos Caio; não somos homem ou mulher em geral, somos homem ou mulher à parte, inteiramente à parte, então porque comigo ou conosco? Porque a morte vem bater à nossa porta assim? Isso é injusto e indevido segundo o destaque que nos autoatribuímos indiferentes às impessoalidades e imponderabilidades dos eventos trágicos que recaem sobre os vivos como meteoritos, sem destinatário certo. Morrer? È ruim!

Ovelha assada com tahine (gergelim) esparramada sobre creme de homus (grão de bico). Núbia passou o resto da tarde muito triste e deprimida; percebera como lhe fora dito, que a morte era iminente por isso arrumava suas poucas coisinhas numa trouxa para retornar às pressas à casa dos pais lá no longínquo interior do sertão de Carangola. Queria beijar os pais e abraçar os irmãos antes de morrer. Não importava trabalhar na cozinha de um simpático casal onde o cônjuge Dr. Apinagé (o nome é fictício) era médico respeitado e famoso na cidade; pois fora ele mesmo que a alertara do pouquíssimo tempo que lhe restava em vida, sinalizando no seu clássico silogismo clínico que nada se poderia fazer para salvá-la do triste evento final; logo ela, na flor da idade?

Dados antropológicos da Vênus Milo de Vidas Secas de Graciliano Ramos no Os Sertões de Euclides da Cunha, a Núbia. Núbia nascera numa família de retirantes das secas nordestinas. Era a 10ª filha numa prole de dezessete rebentos, dos quais nove morreram antes da puberdade, ainda criançinhas. Mas Núbia enfrentou a fome com farinha de mandioca, umbu e rapadura; um café “mijo-de-égua” bem ralo com “biscoito avuador”, vez em quando um preá assado. Mas núbia venceu, cresceu, floresceu e, desabrochou de menina para mulher como uma flor de girassol, uma cabaça de coité, uma mexerica enorme e suculenta. Três vezes por semana à boquinha da noite Núbia caminhava os quatro quilômetros de estrada de chão até o açude, para se banhar. Ah… Era uma festa! Antes disso já estavam por lá à espreita, a molecagem empoleirada nos pés de cobi, entrincheirados atrás das moitas de chique-chique e arranha-gatos para assistir àquele festival de opulenta beleza enquanto descascavam uma jurema sonhada a Núbia. Estou dizendo isso, porque a Núbia cresceu e apareceu com rosto alvo e feições harmoniosas; cabelos negros ligeiramente cacheados, olhos castanho-claros, lábios carnudos; era o retrato da brejeirice. Os ombros delicados sustentavam eretos, um belo par de seios túrgidos. Daí para baixo era só alegria! Uma cintura delicadamente fina desaguava a retaguarda num quadril oblongo que conduzia às curvas rotundas das ancas, encimadas como se por duas bandas de melancia irmanadas. Pelo caminho mais perigoso que conduz ao vale frontal, o Nirvana; uma barriguinha aplainada e aveludada levava ao capinzal do vale dos sonhos, que entendo prudente e assaz omitir as minudências do detalhamento. Saltando essa parte pudenda, chegamos a coxas grossas e firmes, produto das atléticas caminhadas para trazer sobre a cabeça os pesados latões com água potável para casa onde vivia com os pais. Fora isso, o olhar e a voz de núbia exalavam um “quê” de “você não está me vendo aqui?”. E foi assim, até o dia em que dona Evipargina, (este nome também é fictício) esposa do Dr. Apinagé, esteve por aquelas bandas arrebanhando crianças que ainda não haviam frequentado uma escola. Foi numa dessas missões da diretora do Grupo Escolar do Município – D. Evipargina era a Diretora – que ela viu aquela moça bonita e forte e a convidou para trabalhar com os serviços domésticos na casa dela, casal sem filhos… E ajudar com o salário à própria família, pai, mãe, sete irmãos que passam por necessidades e desnutrição na caatinga. Caiu do céu com a graça do “Padim Padi Cíço”! E lá se foi aquele favo de mel trabalhar na cozinha e arrumação de casa daquele cordial e bondoso casal: Evipargina e Dr. Apinage. (desculpem o longo parágrafo).

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DA ÍNDIA AO HAITI. TUDO A VER

Por Mohammad Jamal.

Não justifique sua passividade perante aos fatos argumentando que está só de passagem nesse mundo. Não vai colar. Há um argumento decisivo empregado pelo senso comum contra a liberdade; ele consiste da nossa indisfarçável impotência. Longe de podermos modificar nossa situação ajustando-a a nosso bel-prazer; parece que não podemos modificar-nos a nós mesmos. Não sou livre nem para escapar ao destino do meu país, da cidade em que resido nem sequer para construir atitudes reacionais efetivas contra meus supostos representantes constitucionais nos descaminhos. Os coeficientes de adversidades e problemas são de tal ordem que anos de paciência são necessários para obtermos o mais ínfimo resultado. Posto que profundamente tomados pelo enraizamento das adversidades sobre nossa tolerante submissão; infundidos que estamos de temores à vista duma resignada passividade que nos conduziu ao estado de combalida e debilitada cidadania. Neste momento, não reunimos suficiências para fazermos face ao gigantismo daquilo que nos atribula em aflição.

Privilégio: ser autorizado a respirar, sem ter de subornar alguém primeiro. Refiro-me a esses “institutos democráticos” atribulativos que nos coisificam como seres inanimados, sem vontade própria como se fôramos incapazes em razão e sanidade. De fato, estamos com pouco valor e quase nenhuma importância perante a Constituição Brasileira. Nesse caso em particular, ante o Estado, somos apenas e simplesmente povo! Ou seja, nada senão povo… E povo não reage, não late, morde! “Quem faz isso são marginais travestidos em grupos paredistas, fazendo-se passar por povo.”. No povo, monta-se.

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POR QUE APOIO O BLOG DO GUSMÃO

Por Thiago Dias.

Conheci Emílio Gusmão, criador e editor deste veículo, no segundo semestre de 2007, numa aula do professor Otávio Filho, no curso de comunicação social da UESC. Emílio havia acabado de criar o Blog do Gusmão. Ganhara destaque com a cobertura jornalística do processo de impedimento do então prefeito Valderico Reis. Estudioso e entusiasta da cibercultura, Otávio apresentou o trabalho do blog à turma de calouros como exemplo de viabilidade profissional para a comunicação em Ilhéus. Tinha razão.

Em 2013 ingressei no Blog do Gusmão. Por cinco anos, convivi e aprendi com o seu criador. As discussões acadêmicas são importantes porque abrem os caminhos do pensamento, mas foi aqui, no dia a dia da redação, que tive a oportunidade de aprender sobre o webjornalismo e o papel da imprensa numa cidade como Ilhéus.

Digo com tranquilidade: essa jornada me valeu a graduação mais valiosa, a de um saber-fazer. Emílio Gusmão foi o professor que iniciou bons profissionais que hoje atuam na comunicação ilheense. Isso soa pretensioso – e há mesmo muita pretensão em todo o dizer, especialmente quando a palavra se submete ao controle das opiniões e da lei. Como o próprio Gusmão gosta de citar, não lembro se em referência a Brecht ou a Abujamra, “enforque-se na corda da liberdade”.

Hoje, Emílio solicitou minha opinião sobre a Vakinha, campanha para arrecadar o dinheiro necessário ao pagamento dos advogados que defendem o blog em quatro processos judiciais movidos pelo prefeito Mário Alexandre (PSD) e o secretário de administração Bento Lima. Não encontrei nenhum modo de opinar sobre o caso que não passasse pela retrospectiva feita acima.

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O HOMEM PASSOU POR AQUI. ARREGAÇOU!

Por Mohammad Jamal.

Administradores mentecaptos, mas muito expertos, diga-se! Quando me deparo com a nossa Ilhéus, tão debilitada, empobrecida e endividada; toda esburacada, suja e fedorenta, fico pensando cá com meus botões e fazendo minhas contas tentando identificar quem foi o causador de tantos estragos e degradação. Dificílimo identificar o fator etiológico de tanto mal. É que eles saem de fininho e não deixam por rastro sequer um antígeno vacinal. Isso porque são redicivantes. Eles sempre voltam, travestidos de Aníbal Barca; quando deveriam retornar na fantasia de Geraldo Viramundo, “O Grande Mentecapto”, uma espécie de Dom Quixote de La Mancha do romance do escritor Fernando Sabino.

Quem foi que fudeu tudo por aqui? Teria sido um uiofóbico ensandecido? Um huguenote… Um filisteu ou um abássida apóstata? Quem, com tanta ânsia e vigor destrutivos lutaria ate à quase exaustão com tanto empenho contra a nossa terna e ninfa Ilhéus? Um huno que ainda trouxe consigo um exército de formigas de correição e as saúvas incumbidas de eliminar todas as migalhas do repasto da sua passagem? Quem tão meticulosamente sistemático faria a sua obra se estender às minudencias perfeccionistas para infringir dor e sofrimento a toda população da urbe? A nossa menina, possuída e descabaçada, jaz exangue após todo esse festim de luxúria “caligular”; perdoem o neologismo. Coitadinha da nossa Ilhéus… Está um caco. Exaurida… Tísica, irreconhecível!

Esperando Godot. Eu e Samuel Beckett pra sabermos quem matou Laura Palmer na ‘Twin Peaks’ de Ilhéus? Tenho pavor do cometimento de inculpabilidade injusta a partir de ilações ou apriorismos. Andei a esmo vasculhando meus velhos livros de filosofia; importunando sábios pensadores e ate futurologistas do pós-modernismo, existencialistas do cotidiano, e nada… Nada encontrei como ponte entre a ficção e a dura realidade. Esta improbabilidade me deixa em dolorosa angústia justicialista. Explico: A quem vou empalar em praça pública? De quem vou retirar uma tira da pele lombar ou vergastar na chibata purgatória por ter sido o causador de tanto sofrimento e degradação praticados contra esse povo casmurro? Ah… Essa ansiedade angustiosa sedenta e judiciosa faz brilhar ao escuro o meu enorme facão do revide. Eu que confiei tanto.

Passei a noite procurando tu; procurando tu! Corri desvairado pelas vielas escuras e imundas sob um céu de cinzento colorido em busca da razão das razões; de um pedaço indiciário daquilo que já estava aos pedaços; da sombra ou da réstia escura da predação e seu produto. Cacei a indiferença, a omissão e a alísia nos antigos tratados da psiquiatria forense e, exausto, ainda encontrei forças para debruçar-me sobre as obras mais densas e arrebatadoras dos meus escritores preferidos do teatro pós-dramático; do teatro do absurdo e da dramaturgia fragmentária. Mas nada encontrei em Georges Gagneré; em William Forsythe; de Sebastian Baumgarten; Samuel Beckett; Marguerite Duras e tantos outros remorados literatos em busca silenciosa da memória eletiva das minhas emoções de leitor – eu escrevi “leitor”- porque em eleitor não me incluo. E nada, nada encontrei por subsídio referencial.

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DESMISTIFICANDO O “DÉFICIT” E A CRISE DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

Por Sérgio Ricardo Ribeiro Lima.

Atribui-se a Joseph Goebbels, político e ministro da propaganda do Partido Nazista na Alemanha, de 1933 a 1945, a seguinte frase que atravessou décadas: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Essa frase parece estar na ordem do dia.

Parece-me que virou um consenso a afirmação de que a Previdência Social é deficitária e se não for feita uma reforma urgentemente, o sistema previdenciário entrará em colapso. O objetivo dessa resenha é desmistificar o discurso da falência da Previdência Social e mostrar, através de dados oficiais e com base na Constituição Federal de 1988, que, ao contrário do que se vem alardeando, a Previdência Social não está em crise nem é deficitária. O texto abaixo foi inspirado no livro que lançamos (apenas por meio eletrônico e gratuito) em setembro deste ano, sobre este tema.

A aprovação do Sistema de Seguridade Social e seu respectivo Orçamento, de várias fontes além das fontes tradicionais (trabalhadores, empresas e Estado), representou um avanço significativo para o sistema de saúde e de aposentadoria do cidadão brasileiro. Na realidade, o povo brasileiro, a partir dos avanços sociais na Constituição de 1988, passou a vivenciar o início de um estado de bem-estar social. Avanço social conquistado pelos trabalhadores europeus, conhecido pelos 30 Anos Dourados, após a Segunda Guerra Mundial, até final da década de 1960, quando o capitalismo novamente entra em crise.

Dois grandes destaques do “novo” Sistema de Seguridade Social aprovado na Constituição de 1988, foi a ampliação das receitas e o direito ao acesso à saúde a todo cidadão brasileiro (cobertura universal), em qualquer situação (empregado ou desempregado), sem distinção, independente de sua capacidade ou não de contribuição. Portanto, após a aprovação do sistema universal, a Previdência Social e o Sistema de Saúde (SUS) passou a gozar de uma ampla fonte de financiamento, o que deu uma folga financeira ao sistema, ampliando sua capacidade de atendimento da população brasileira e, mais importante ainda, com saldo superavitário (positivo).

A avalanche da ideologia e política neoliberal, desde final da década de 1970 e durante toda a década de 1980 em diante (iniciando na Inglaterra em 1979, com Margareth Thachter, e nos Estados Unidos, em 1980, com Ronald Reagan) aterrizou no Brasil no início da década de 1990, implementada fortemente a partir de 1994, no governo FHC.

O Sistema de Seguridade Social – e seu respectivo orçamento – assegurado na Constituição de 1988, sofreu seu mais forte ataque e revés em 1994, no primeiro ano do governo FHC, e dai em diante as garantias sociais desse sistema e, em particular, a Previdência Social tem sido desarticuladas e fragmentadas, com enorme prejuízo para a população até o momento atual.

Em 1994 foi implantado, provisoriamente, o FSE (Fundo Social de Emergência); de 1994 para 1995, o FSE passou a se chamar FEF (Fundo de Estabilização Fiscal) e, ainda em 1995, este mudou, oficialmente, para DRU (Desvinculação das Receitas da União). Enfim, visando equilibrar e estabilizar a economia e controlar a inflação (com a criação da nova moeda, o Real), o governo criou, através de emenda constitucional, esse mecanismo que dava poderes à União de transferir até 20% dos recursos do Orçamento da Seguridade Social para outras áreas, conforme interesse estratégico econômico-financeiro das contas públicas.  A DRU permanece até hoje (se estendeu e foi várias vezes prorrogadas do governo FHC até o governo Temer, passando pelo governo do PT), com vigência até 2023, aprovada em 2016 no governo Temer, com aumento percentual da alíquota de 20 para 30%, o que representa um volume de recursos significativo do Orçamento da Seguridade Social para outras áreas estranhas à sua natureza (saúde, previdência e assistência social).

Para se ter uma ideia do montante desse recurso, conforme a STN (Secretaria do Tesouro Nacional), apenas nos dois primeiros anos de sua vigência, foram transferidos do Orçamento da Seguridade Social, R$65,8 bilhões (CANDEA & LIMA, 2018, p. 83). Segundo documento da ANFIP (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), entre 2005 e 2015 foram retirados recursos da Seguridade Social no montante de R$519 bilhões. Em 2016, foram subtraídos R$99,4 bilhões (idem, p. 127), sendo, pela primeira vez, o orçamento negativo em R$57 bilhões, neste ano.

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NÃO COLOU. UM DESAGRAVO PROLETÁRIO

Por Mohammad Jamal.

Notas de Invernos sobre impressões de Verão (Dostoiévski). Há… Eu já li tantas cartas… Incontáveis cartas de diferentes missivistas. Cartas alegres; tristes, funéreas; outras tantas pouco tranquilas; umas desesperadas; algumas efusivas; congratulatórias; algumas duramente incisivas… Determinativas. Também aquelas na forma de comunicado e exortação; de interrupção ao fornecimento da energia elétrica; de água; de acesso a sinal telefônico. O escritor James Howell dizia que, assim como as chaves abrem cofres, as cartas abrem corações! Será? Não abriu o meu. Entre as tantas cartas que li, não esqueço aquelas cartas poéticas que Cyrano de Bergerac escrevera como apaixonado personagem na peça de Edmond Rostand. Lindas de fazer chorar! Li algumas Cartas de Mirabeau cheias de verve e erudição; li as Cartas Persas de Montesquieu, político e filósofo iluminista que, por meio dos personagens Usbek e Rica, os dois persas, o escritor teceu em forma epistolar duras críticas às instituições políticas, dos costumes e da igreja da Paris da sua época. “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.” Este é um trecho da Carta Testamento do suicida Getúlio Vargas, que também li quando ainda adolescente. “Amigo! Por favor, leve esta carta e a entregue àquela ingrata e diga com estou! com os olhos rasos d’água, coração cheio de mágoas…”, (Eu não sou cachorro não.) do saudoso Waldick Soriano. E muitas cartas cessionárias onde li o intenso arrebatamento e paixão de namoradas amantes da minha juventude, tempo em que eu era um livre atirador, carismático, belo e solteiro: “Eu dou sim; contanto que você venha…”. “Se você não vier hoje, eu me mato viu?…”. “Lá em baixo do pé de abacate viu!…)”… E por aí vai. Ainda hoje leio umas poucas cartas que me chegam pelo correio, porque a Internet tomou para si o papel que era do carteiro; hoje, pelo visto, eles somente entregam encomendas e algumas contas documentais. Mas ainda assim há cartas a serem lidas nos jornais e revistas online, é claro; e nos blogs e sites que gozam de alguma audiência entre os internautas.

Para Nietzsche, a confiança do homem moderno no poder das palavras se funda no esquecimento de algo que era evidente quando as criou: elas são apenas uma metáfora para as coisas e jamais poderiam encarnar o seu significado. A recente conclamação que li, por verossimilhança, me fez relembrar aquela fábula bem antiga da raposa e as uvas, porquanto nessa carta a raposa missivista, muito convincente e segura de si, exortava os donos das vinhas a removerem os altos muros; as cercas farpadas e as câmeras de infravermelho, visto que as raposas do pedaço haviam desenvolvido uma forte aversão àqueles doces bagos arroxeados que pendiam dos vinhedos, para não dizer, degustar os pomos de baco, as uvas, estavam deveras difíceis de alcançar. Também me ocorreu imaginar àquela fábula do O Lobo e os Cordeiros; quando Seu Lobo, que dizia ser bom no discurso, postava-se aconselhando os velhos e insones “pastores” a desfrutarem tranquilos as repositórias “siestas” pós-prandiais e, a desfazerem-se dos seus ferozes cães de guarda barulhentos, “latidores e reaças” inoportunos da direita; sob o forte argumento de que os lobos migraram do PTCV Partido dos Trabalhadores Carnívoros Vorazes para a sigla PDVN Partido dos Dietéticos Vegetarianos Naturebas, supostamente em paz com a natureza e o mundo dos ovinos, das riquezas e poder das carnes em geral! Ainda inseguro e abalado nas minhas convicções pelo forte conteúdo cooptativo, diria quase irresistível, estive à beira de ceder àqueles encantamentos hipnóticos que me instavam derribar os muros e cercas; desligar as câmeras; matar meus cães, reacionários guardiões da minha cidadania; mudar meus hábitos, passando a dormir demorada e preguiçosamente; gozar um discutível ócio, deixar tudo pra lá, enquanto a Roma de Nero arde nas chamas vermelhas do fogo socialista/bolivariano digo, o Brasil, desfalece sufocado pela fumaça da queima produzida pelos nossos políticos piromaníacos, dominado pela a ânsia do poder.

O “ídalo” esse “símbalo”, escreve cartas, imagina! Mês passado me peguei lendo a tal Carta ao Brasil. Uma carta, aliás, carta pública, uma espécie de édito conclamatório em tom epistolar, me pareceu escrita pelo boneco de Gepeto; o narigudo e contumaz mentiroso, Pinóquio amputado. Dos bagos que pendiam lascivos dos vinhedos como testículos no verão do Piaui. Nos apelos e méritos epistolares  dos seus argumentos lia-se evidentes frases instáveis como se em pleno surto psicótico do transtorno bipolar, o desespero em busca da sustentação e mínimos respaldados aos seus argumentos de lobo mortalmente ferido, afônico de tanto uivar, por isso apela por questões de saúde, longevidade e, cansado, até transmutara-se de carnívoro voraz para dietético vegetariano e abstemia radical da aguardente de cana; um manso e insípido  natureba em paz com a natureza, com seus nabos e mandiocas fálicas enormes ainda muito assustadiças. Fala sério vai! Ainda inseguro e abalado pelo forte proselitismo/cooptativo da sua verve, diria, quase irresistível; estive à beira de ceder àqueles encantamentos hipnóticos coloridos em pigmentação vermelha do trotskismo leninismos, arremedo bairrista do Simon Bolívar made in Brazil paraguaio. Uma verossimilhança pirateada que beira o grosseiro, diga-se.

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UMBUZADA NO NATAL E SEXO CASUAL COM HORA MARCADA!

Por Mohammad Jamal.

O mingau rançoso. Hoje é um daqueles dias atípicos em que agente não tem vontade de sair da cama nem pra cagar. Não é um dia, é um borrão qualquer. A Aleia está uma bosta. Já nem podemos sair de bicicleta porque em todas direções que se vá podemos morrer tragado por um buracão, uma cratera, um tsunami de esgotos, cair num precipício. Além de tudo, pra complicar, o governador Rui resolver fazer obras na urbe! A aldeia está com suas três principais avenidas interditadas para as meias solas asfálticas a toque de caixa. Pra piorar, em qualquer encruzilhada que se vá passar tem engarrafamentos e um montão de despachos e ebós! Pra quem fazem tantos rogos e maus augúrios?

Salvador Dali, Demóstenes, James Joyce, Victor Hugo, Richard Wagner, também eram loucos, pancada mesmo! Estou num daqueles dias de tédio existencial, quando batem ideias esdrúxulas, esquisitices políticas, desabafos anárquicos, “Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma.” (Michail Bakunin), uma tertúlia de maldades e desagravos, decorrências daquilo comemos com ovo nos últimos vinte anos. Talvez por isso a vontade atávica de embarcar para Curitiba num ônibus cheio, lotado; chegando lá, embarco em num luxuoso transporte coletivo que rodam por lá, e vou ate à Unidade Prisional da Polícia Federal curitibana. Lá, grito a plenos pulmões o desagravo que sai das minhas entranhas revoltosas: Lula! Lula cala a boca! Você não faz mais milagres! Leve, alma lavada, volto feliz para a aldeia onde ainda degusto em júbilo minha farofa de ovo.

Sexo casual com hora marcada. Por falar em ovo, ainda em sonambúlica pachorra de ontem, como se diz aqui no Nordeste, madornando, senti um certo desconforto “nas partes”, uma angústia opressiva, constritiva embora ainda suportável. Era a Edimunda, minha nega, me apalpando por baixo do cobertor! Eu: oi nega, é tu? E foi assim hoje acordei cedinho hoje, vendo a Edimunda se vestindo, se arrumando toda pra ir ao comércio. Curioso, arrisquei:

_ Onde você pensa que vai, meu xodó? Assim toda gostosa!

Ela: _ Homi! Eu vou comprar umbu pra decoração de natal e entrada do Ano Novo! Nada de economia; vou trazer uns três litros!

Babaganuche, Tabule, fatuche. Falafel, Zatah! Umbu? Allahu Akbar. … Umbu? Fiquei meditativo, curioso para entender o porquê da relação entre essa fruta da caatinga, o umbu, e as festas natalinas e de Ano novo.  Será que a minha criloira pirou de vez? (Edmunda deu um blond no resto dos cabelos) Tá que nem uma finlandesa.  Da penúltima vez ela deu de fazer um tal de “relaxamento”. Passou um tsunami no cocó, que levou quase tudo; uma péla geral, os cabelos da Edmunda pediram demissão… Foram-se quase todos os fios duma égua, sem aviso prévio.

Umbu no Natal e Ano Novo hum (muxoxo)? Seria Frango com papo recheado com farofa de umbu? E os caroços? Se eu engolir um vai entupir a saída. Detesto umbu.

Edmunda nasceu lá em Andiroba, no meio da caatinga, onde se come umbu ate em velório. Alguém me disse que a Edmunda foi criada com umbu, rapadura e farinha de guerra! Talvez por isso que ela tem aqueles dois umbuzões atrás. Adoro os umbuzões dela. Não passo sem eles; são tão aconchegantes!

To be or not to be, that is the question Caca! Pra que tanto umbu? Três litros! Natal? Ano Novo? Umbu? Inquietações, dúvidas; tantos questionamentos a me varrerem os pensamentos! Umbu?  Será que ela está pegando frete com o vendedor de umbu? Acho que não; ela não dorme enquanto eu não chego lá! É paixão mesmo.

Umbus… Que merda é essa? Contudo, num reflexo pavloviano, balancei meus umbus íntegros e virei pro canto pra mais uma soneca enquanto aguardo Edmunda voltar das compras. Não sou o Macunaíma, mas ninguém é de ferro. Ócio…

Acordei aí pelas dezesseis horas. Logo que abri os olhos topo com aqueles dois umbuzões encarando-me de frente. Edmunda agachada, meio recurvada pra frente, naquela posição de tiro, arrumava um enorme galho de árvore que ela havia enfiado num pote velho cheio de areia. Ela dependurava umas bolinhas de colorido metálico espelhado, em rosa, azul, verde. Tudo muito brilhoso no galho meio murcho, mas ainda verde e cheio de algodões simulacros de neve, neve dos SUS.

Fiquei ali parado admirando em silêncio a silhueta de formas curvilíneas e rotundas que me faz passar noites insones em fainas de serões voluntários e prazerosos. Ah!

Assédio na tora. Levantei-me de mansinho e fui achegando por trás. Dei-lhe um beijo no cangote, cheirei aquele perfume lascivo enquanto a enlaçava já meio interessado, pela cintura. Besta, perguntei no mais erudito Baianês:  Chegou minha nega? Tava roxinho de saudade!

Só aí ela foi me mostrar que os inefáveis umbus já estavam ali mesmo, encapados com papel metalizado colorido, decorando a nossa “Árvore de Natal” como os caros bulbos de vidro nas árvores de gente bem. Também tinha anéis e tampinhas de refrigerantes, representando estrelas e luas. Como pingente, lá na pontinha da nossa árvore, ela havia colocado um enorme pimentão vermelho. Admirado, fiquei mais enternecido ainda quando ela apertando-me contra o coração escondido atrás daqueles dois mamilos macios; disse-me em tom carente e dengoso:

O Presente de Vênus. Neguinho! Este ano a coisa tá preta aqui em casa. Eu economizei pra comprar uma camisa do Coríntias pra te dar no Natal, mas não consegui. Mas não vai passar em branco não. Teu presente vai ser singelo, mas cheio de amor: Vou amarrar uma fita vermelha no meu pescoço para dependurar o Cartão de Natal com dedicatória e, vou deitar em cima dessa manta ao pé da nossa Árvore de Natal pra me dar do jeito que vim ao mundo pra você. Tomara que te agrade!

Ainda meio atônito, senti que algo grande e alegre mexeu em mim.  Sem saber o que dizer ante a iminência de tão delicioso presente; balbuciei:

_ Claro que vou gostar meu pastel de sonhos! Lembra que foi o mesmo presente que recebi ano passado? Continua ótimo, só mudou a fitinha pra vermelha; ano passado foi azul. E os umbus? Sobrou algum?

Ela: _ Sobrou dois, dos grandes! Quer comer agora meu bem?

Ah! Essa fome que não me abandona. Aqui em casa é Natal o ano todo.

Com licença. Vocês não são servidos não! Claro que não.

_ Quero sim xodó! “Tô ino”!

Falei de início que detestava umbu. Pois é… Só aqueles verdinhos, bem azedos, que não como nem no brete, sou bagual tchê!

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.