Uma carona para as estrelas, por favor

Por Mohammad Jamal.

Olhando assim extasiado a luminescência do firmamento, esse céu de um azul profundo apinhado de estrelas cintilantes em imperturbável passividade, fica difícil acreditar que, tendo Deus criado a sua obra maravilhosa e nos entregado ela, a nossa terra, para que a compartilhássemos em paz e, ainda assim, em sua divina magnanimidade criadora, o Ser Supremo tenha escolhido viver e estar compartindo-a entre nós! Tal como algumas cerimônias religiosas o citam: ELE está entre nós! Fico chocado, tamanha a coragem e poder de Deus lhe permitir sobreviver aqui no meio dos seres humanos divididos em tribos antagônicas, os ricos, os pobres, os explorados na miséria e àqueles, vítimas da sequiosa ignomínia e opróbio dos mais fortes e sanguinários, eugênicos em suas metas e princípios. Viver nessa terra transmutada pela maldade humana não é viver, é lutar para sobreviver.

Quando criança, lá pelos meus oito anos, eu tinha uma imagem muito clara de Deus. Ele velhinho, devastado pela idade e envolto em seu miza’ar de lã (xale), tendo a cabeça o Gahfiya branco (touca) encoberta pelo Keffiyeh (turbanteescuro) encimado pelo igal (cordão negro e macio) para fixar o Keffiyeh. Deus tinha rosto sem traços de uma mulher altamente respeitável. Embora ela tivesse uma aparência humana, tinha muito mais em comum com os seres imaginários que povoavam meus sonhos: de modo algum se assemelhava a alguém com quem eu pudesse me deparar nas ruas. Digo isso porque quando ELE apareceu diante dos meus olhos, estava de cabeça para baixo e um pouco inclinado para um lado. Os seres imaginários do meu mundo de fantasia sempre desapareciam constrangidos e envergonhados ao fundo pouco depois que eu os percebia, e foi também assim com ELE. Depois de detalhar em visão panorâmica o mundo real ao meu redor, tal como vi em filmes e fotografias enormes, Sua imagem foi ficando mais nítida e elaborada, Ela ou Ele começava a ascender, esvanecendo à medida que subia para ocupar o lugar que lhe cabia em meio às nuvens no céu.

O Deus das minhas fantasias não exibia o brilho dourado dos metais preciosos nem o cintilar multicor das pedras lapidadas, não tinha pompas ou circunstâncias, não era celebridade, não incutia medo nem disseminava ameaças; também não chegava a ser frio nem indiferente, porque nos fitava com doce firmeza perscrutando no íntimo da nossa alma, os nossos pequenos segredos e inocentes transgressões de criança, com serenidade.  Sem esforço, eu via as dobras do seu xale branco que cobria Sua cabeça. As imagens eram tão nítidas quanto as que eu tinha visto em estátuas e ilustrações dos livros de história,ocidentais, e cobriam inteiramente o seu corpo; não se via sequer Seus braços ou pernas.

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Uma decisão acertada do STF: não ao ensino domiciliar, ou homeschooling

Por Julio Gomes.

Em data recente o STF – Supremo Tribunal Federal decidiu, após votação em que ficou bem definida a posição da maioria de seus membros (oito votos contra dois), decidiu pelo não reconhecimento da possibilidade de realização de ensino domiciliar no Brasil, como forma de substituir a formação escolar.

A votação se deu a partir de uma questão surgida no Rio Grande do Sul, onde os pais de uma menina queriam ensiná-la exclusivamente em casa, mas a Secretária de Educação do Município gaúcho onde reside a criança negou o pedido, orientando os pais a matricular a filha em uma escola. Os pais recorreram contra a decisão da Secretaria, mas perderam tanto em Primeira como em Segunda Instância, e a questão foi parar no STF, nossa mais alta Corte de Justiça, que tem como principal atribuição salvaguardar a Constituição Federal.

Não se trata aqui de esmiuçar as razões técnicas, nem tão-somente jurídicas, do voto de cada Ministro(a) do STF que decidiu pela impossibilidade de reconhecimento do ensino domiciliar. Todos foram solidamente bem embasados nas razões de seus votos, que em linhas gerais se basearam na inexistência de previsão legal para o ensino domiciliar, na ausência de mecanismo de avaliação e controle para esta modalidade de ensino e no fato de a Educação ser dever do Estado, sendo obrigação dos pais matricular o filhos e fazê-los frequentar a escola, conforme se encontra definido na Constituição.

O que se pretende aqui é uma outra abordagem sobre este mesmo tema, a ser feita da seguinte forma.

Mesmo que determinados pais tenham muita cultura, ou mesmo bastante dinheiro para ensinar diretamente ou para contratar aos melhores professores particulares para ensinar a seus filhos em casa, pergunta-se: o que substitui, para uma criança, a emoção e a surpresa do primeiro dia de aula?

Como substituir o contato com os coleguinhas da mesma idade, a atenção das primeiras professoras, ainda hoje carinhosamente chamadas de “tias”?

O que ficaria no lugar da experiência de pedir algo emprestado ao colega do lado, de responder a uma questão em conjunto, de fazer algo no quadro ou à frente da sala sob o olhar desafiador, curioso e expectante de toda a turma?

Onde encontrar, senão na Escola, a emoção da primeira “paixão”, daquele(a) colega que desperta o primeiro interesse afetivo de cunho sexual em cada um de nós, o primeiro amor platônico, cheio de desejo e medo, na maioria das vezes sem jamais passar disso, mas sem nunca ser esquecido?

Como privar uma criança das brincadeiras do recreio, da hora da merenda, do retorno para a sala, da chegada ou saída juntos da escola, da liberdade de poder transformar o coleguismo de sala em nossas primeiras grandes amizades?

Não, não privemos nossas crianças da escola, sobretudo no mundo de hoje, quando a violência e os excessos da vida urbana já roubaram de nossas crianças o banho de rio, o subir nas árvores, o futebol no terreno baldio, as andanças às escondidas e quase todas as aventuras da infância…

O grande espaço de socialização, de aventura, de amizade, de interesse pelo(a) outro(a), de descoberta da vida social com os iguais da mesma idade é a Escola, na frequência escolar, com toda a sua diversidade e riqueza.

Não temos o direito de tirar, de nossos filhos, a Escola. Porque não deve e não pode haver criança sem Escola. É lá que elas começam a se libertar de nós, a criar suas próprias relações sociais, e temos de entender que as criamos para a vida, para o mundo, e não para nós mesmos.

Os pais que amam, muitas vezes, derramam lágrimas ao levar seu filho ou filha amada pela primeira vez para a Escola, com merendeira, caderno e brinquedo dentro da mochila. Mas é ali, com aquelas primeiras lágrimas, que forjamos o seu futuro.

Todas as crianças na escola, para o bem delas mesmas, sem exceção!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Os solitários de si

Por Mohammad Jamal.

Na era da comunicação em massa, paradoxalmente ainda existe muita que vive em absoluta solidão; a solidão de si. Sei que causarei algum impacto com essa afirmação que vai de encontro aos sistemas ou pressupostos que se impuseram como incontestáveis ao pensamento, digo, contra aqueles que ainda pensam analítica e reflexivamente.

Reflexiono oportuno, sobre os Cem anos de Solidão, onde o Gabriel Garcia Marques, corajosamente, foi revolver o terreno do imaginário, exumar múmias inspiradas, talentos sepultados por séculos, numa tentativa desesperada para devolver à literatura a imaginação e personalidade perdidas. Não como o grito de arrebatamento proferido magistralmente sobre o degredo miserável exposto em O Arquipélago de Gulag por Alexander Soljenítsin, quando descreveu as dores e sofrimentos, no intenso conteúdo literário sobre suas memórias vívidas na gélida e distante Sibéria, os horrores praticados por um dos maiores assassino e fraticidas da história moderna Josef Stálin.

Vivemos uma era de admissibilidades e inexigibilidades comportamentais quase absolutas, onde tudo, ou quase, é corriqueiro, usual, comum… Não importando o “quantum” do agravante e desconfortável impacto é causado àqueles que ficaram para trás, que não entraram no clima, não assimilaram o “moderno” e, por isso, entraram para o rol das obsolescências, perderam as personalidades ante os novos “perfis” do moderno, ante a dinâmica “evolutiva” das populações e as variações de ocorrências comportamentais de indivíduos da mesma espécie (população); tudo isso por não conseguir, sem admitir concessões, defini-las entre os milhares de porquês subjetivos. Essa ignorância e desajuste a uma nova ordem social e sua pseudofilosofia comportamental os segrega e confina no gueto da obsolescência como um Gulag destinado ao arcaísmo sociológico de velhos cafonas.

Vivemos um mundo de fantasias megalomaníacas envoltas em transtornos obsessivo-compulsivos, dissociativos e conversivos amparados numa paranoia que força à compulsiva busca pelo destaque pessoal e meritocracia a qualquer custo. Gigantes num mundo liliputiano. Isso leva inúmeras pessoas a viver uma existência surreal e fantasiosa, porquanto dominadas pela ditadura dos modismos, das ambivalências alienistas. Você pode ter constituído talvez até mesmo introjectado e se revestido com dezenas “perfis” – vou omitir as inúmeras redes sociais – mas estará restrito uma única e exclusiva personalidade, porque de resto, tudo não passa de uma delirante surrealidade existencial. Ao desligar seu smartphone, seu notebook ou desktop você voltara ao confinamento no seu Gulag existencial, vestindo os panos que você considera desbotados e fora de moda com seu “eu” apequenado na penumbra.

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De tudo um pouco; desde que não seja muito

Por Mohammad Jamal.

Já escrevi muito, tanto que ás vezes esganava a cabeça em busca de ideias para produzir alguma coisa e, nada saía as palavras não brotavam. Aí vinha aquela angústia, aquele vazio obscuro e depressivo que me fazia imaginar haver perdido toda minha inspiração ante o processo criativo literário. E o que é pior; não sou bom memorialista; quase sempre nunca escrevo reminiscências, eventos do passado, existencialidades fluidas dos tempos pretéritos. Bastaram-me as primeiras e malfadadas tentativas de ressuscitá-las. Mereceria ressuscitá-las caso houvessem sido um pacífico campo verdejante apinhado das flores multicores da felicidade. Não foi.

E olha que escrevo desde o tempo da escola primária, ginásio, etc. A leitura me foi incutida e impregnada aos meus hábitos de lazer quando ainda em tenra idade pelo meu amado e inesquecível irmão escritor, o poeta Telmo, que selecionava tudo que eu podia e deveria ler. E segui lendo e escrevendo vida afora semelhante ao que estou fazendo nesse momento.

Meus professores de literatura elogiavam (sic) e me estimulavam escrever; diziam que eu tinha habilidades inatas com as palavras e, de alguma forma, sabia mexer com o inconsciente das pessoas, tocar às suas emoções. Os professores de Português me achavam petulante e, de certa forma, presunçoso nos meus escritos não obstante o tratamento educado, cordial e muito respeitoso com todos, além da minha timidez e moderação ao falar, quando solicitado.

Acho que a minha vontade de escrever advinha da ânsia de estabelecer uma comunicação, entendimento e auto compreensão consciencial. Eu acreditava que essa era a maneira mais racional que me permitiria chegar ao entendimento do meu complexo e polêmico “Eu” existencial, porque à minha volta não via conteúdo ou essência suficiente aos meus autoquestionamentos psicofilosóficos. Fui nesse tempo, um compulsivo observado nato. Oculto na penumbra das salas, nos pontos mortos das vistas obstaculizadas e das atenções dos analisados, eu era só um vulto impessoal por isso, imperceptível aos pudores e confidencialidades confessionais alheias, às eviscerações emocionais, coisas íntimas reveladas pelas personagens das cenas do cotidiano de cada uma.

Sempre fui avesso a memórias, biografias, antologias, florilégios, a vida tem que ter sido rica, prolífica e cheia de aventuras heroicas para merecer a minha leitura e reminiscência. Gosto do improvável, das incertezas, do inimaginável, inesperado, surpreendente, algo impregnado pelo indizível, raro, incomum, como essência do Kafka. Por isso já escrevi sobre quase tudo e todas as improbabilidades literárias para o saudoso Rabat em seu R2Cpress, para o Agravo, do Jamerson, algumas vezes para o Sarrafo e Pimenta, mas continuo seguindo o meu gosto pela personalidade do Blog do Gusmão, onde você me lê agora.

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Veneno de rato e amor ao próximo

Por Julio Gomes.

Causou forte repercussão nacional uma recente declaração do Bispo Auxiliar do Ordinariado Militar do Brasil, Dom José Francisco Falcão, em missa realizada em Brasília no dia 31/03/2019, data que marca a passagem do golpe militar ocorrido no Brasil em 31/03/1964 e que deu início a uma violenta ditadura que durou 21 anos.

Durante a homilia, momento em que o celebrante da missa faz comentários doutrinários, o bispo celebrante afirmou, conforme áudio gravado, que “tem um imbecil que nos anos 70 cantou que é proibido proibir. Gostaria de dar veneno de rato para ele”, falando em referência à canção “Proibido proibir”, de autoria de Caetano Veloso.

A primeira reação de qualquer cristão, ao ouvir ou ler o quanto descrito acima, é desacreditar que tal fato possa ter ocorrido, é entender que deve ser um fake news, uma publicação sensacionalista, sem fundamento real. Mas, infelizmente, como se encontra noticiado por toda a imprensa nacional, o fato ocorreu conforme a narrativa apresentada.

Causa enorme desgosto, sensação de desesperança, de frustração e mesmo imensa preocupação saber que um cristão, membro do alto clero, se expressou desta forma.

Os ensinamentos de Jesus Cristo, como é sabido por qualquer pessoa minimamente informada, pregam o amor ao próximo, o perdão às ofensas, a caridade em todas as suas formas. Sem dúvida alguma, amar, perdoar e ser caritativo são atos extremamente difíceis de ser praticados por qualquer pessoa, pois exigem renúncia, abnegação, fé e compromisso com o que Jesus pregou. Porém, é exatamente este o grande desafio que o cristão deve procurar enfrentar todos os dias.

Se nossa expectativa é a de encontrar amor ao próximo, caridade e indulgência entre cristãos, é natural que esta mesma expectativa seja maior ainda quanto aos dirigentes das Igrejas Cristãs. E, particularmente, a dor e decepção profunda quanto a estas declarações infelizes se agudizam ainda mais quando vindas de alguém que ocupa elevada posição hierárquica na Igreja.

Quando conhecemos o quanto a Igreja Católica investe, aqui no Brasil, para a sólida formação evangélica, doutrinária e humanística de seus representantes, e o quanto se tem de estudar e trabalhar aperfeiçoando-se interiormente para chegar a ser um padre, passamos a ter uma compreensão mais clara de quão infeliz foi esta manifestação na missa de 31 de março.

Os membros de maior projeção da Igreja Católica no Brasil, ao longo dos últimos 50 ou 60 anos, nos dão exemplo de solidariedade, consciência e amor ao próximo diametralmente opostos a esta manifestação ocorrida durante aquela homilia.

É notável a cultura, o discernimento, o respeito, a conduta cristã com que a grande maioria dos sacerdotes católicos, e também do alto clero, se comportam publicamente, sendo exemplo de conduta não só para os seguidores da Igreja de Roma, como também para os cristãos de outras denominações, tais como evangélicos, espíritas, cristãos ortodoxos gregos e outros. A humildade e compromisso cristão do Papa Francisco são o exemplo mais vivo desta conduta cristã modelar, paradigmática, que todos nós podemos seguir sem medo de errar o caminho que conduz à Verdade e à Vida.

Cristãos de todos os matizes, o Mestre Jesus estabeleceu que seus verdadeiros discípulos serão conhecidos por muito se amarem, ao afirmar que “todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:35).

Com base no ensinamento de Jesus, é possível até para o mais leigo dos leigos concluir que na verdade não nos deve causar satisfação dar veneno de rato nem mesmo aos ratos, endereçando a nossos irmãos, até onde nossas forças nos permitirem chegar, unicamente o amor exemplificado pelo Cristo. Este é nosso difícil compromisso.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

As comemorações do Golpe de 1964 e o futuro do Brasil

Por Julio Gomes.

A nação brasileira teve, na semana passada, a inusitada notícia de que, por determinação do atual Presidente da República, o Ministério da Defesa – e portanto, as forças armadas – deveriam voltar a comemorar a data de 31 de março de 1964, quando foi desencadeado o golpe militar que derrubou o governo do então presidente João Goulart e instalou no Brasil uma ditadura que duraria por 21 anos.

A comemoração do golpe, que já foi chamado de Revolução de 1964, havia sido excluída do calendário oficial de comemorações das forças armadas, e do Estado brasileiro, por ordem da Presidente Dilma Rousseff, no ano de 2011.

O retorno das comemorações determinado por Bolsonaro, que chegou a ser suspenso por meio de uma decisão liminar de uma Juíza da 6ª Vara da Justiça Federal em Brasília, deferida a requerimento da Advocacia Pública da União, acabou sendo posteriormente autorizado em virtude da decisão de uma desembargadora da Justiça Federal.

A comemoração do golpe de 1964 ainda é uma ferida aberta na sociedade brasileira. Sem dúvida acirra ânimos, soa como provocativa e inconveniente no delicadíssimo momento em que vive o Brasil. Parece que os problemas que temos são poucos, e que por isso fomos em busca de mais alguns.

Hoje, com a consciência que temos acerca da História e dos valores humanos, a comemoração de algumas datas deveria de fato ser revista, ou pelo menos ter seu caráter modificado, moderado e ressignificado.

Ao invés de comemorar o Dia D, data do desembarque das tropas aliadas na Normandia em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial; ou a rendição incondicional das tropas alemãs para os comunistas em Stalingrado, em 1942 – a primeira derrota imposta ao até então invencível Exército nazista – seria muito mais inteligente e sensato comemorarmos o dia 08 de maio de 1945, data em que a Guerra terminou na Europa, ou o 02 de setembro, data oficial do fim do conflito no Oriente, que marcou o fim do pesadelo chamado Segunda Guerra Mundial, estancando o desastre que ceifou cerca de 70 milhões de vidas.

Nada temos a comemorar com relação ao golpe de 31 de março de 1964, e menos ainda quanto ao que ocorreu depois dele: prisões, deportações, exílio, cassações, luta armada, atentados, sequestros, torturas, execuções. Se é certo que nada disso deve ser jamais esquecido, igualmente certo é que também não deve ser comemorado, por nenhum dos lados, por ninguém.

Se devemos comemorar algo, vamos então juntar o país e celebrar o retorno do país à Democracia, marcado em datas como as de aprovação e realização de eleições diretas para Presidente, a de Convocação e eleição direta da Assembleia Nacional Constituinte, a posse do primeiro Presidente eleito ao fim da ditadura mediante o voto direto do povo e, sobretudo, o dia 05 de outubro de 1988, data em que foi promulgada a atual Constituição Federal – democrática, moderna, garantista, cidadã – que marca o retorno ao Estado de Direito, à Democracia, ao império, mesmo que frágil, das leis, em direção a um futuro promissor de paz, desenvolvimento econômico e busca de inclusão social.

Esta deve ser a pauta para o futuro: inclusiva, solidária, positiva. Sem esquecer, porém sem jamais comemorar tudo aquilo que tanto nos infelicitou.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Lapso ficcional: o terror cirúrgico

Por Mohammad Jamal.

Tudo começou com uma dengue; coisa simples, dessas dengues comuns que os médicos diagnosticam com cara de enfado “… Tudo bem… É só dengue”. Fui mandado pra casa com recomendações de muito líquido, repouso e antitérmicos. Dia seguinte, logo de manhãzinha, percebi um furdunço em casa; uma azáfama nunca vista. Parece que piorei. Ainda meio sonolento e tresvariando de febre; fui levado de novo, semiconsciente, ao pronto socorro do hospital Praia da Jaca. Após exames, os médicos constataram, de fato, uma piora no meu quadro clínico que requeria internamento hospitalar intensivo. E assim me levaram para um apartamento; trocaram-me as roupas; colocaram soro e injeções nos infusores automáticos; aplicaram-me um sedativo e lá fiquei, como se diz, exposto à visitação. Dormindo e acordando em perda absoluta da temporalidade; visões confusas e, sem o entendimento ao que se passava à minha volta, mais confuso ainda.

O Clister na tora mesmo. Em certa manhã desse internamento, fui acordado já em pleno enema, pra não dizer (lavagem) na sala de preparo para cirurgias. Pensei, estou fudido! Eu ia ser operado! Um alvoroço enorme; enfermeiras e médicos agitados; e eu pré-anestesiado assistindo a tudo sem poder me mexer ou falar, como se estivesse embalsamado vivo… Uma angustia danada. A certa altura, já na mesa de cirurgia, ouço o esbravejar de um dos cirurgiões reclamando enquanto brandia um bisturi à mão enluvada: ”_ Esse homem é circuncidado! Como posso circuncida-lo novamente? Tragam-me o prontuário deste paciente que eu mesmo quero ver!”. Ai eu tremi de verdade. No frio da sala de cirurgia; eu em posição ginecológica, com as partes à mostra e uma luz forte sobre os meus olhos; pensei, vou ser circuncidado de novo? Vão cortar mais o que? Mas foi muito pior. Em instantes a enfermeira entra esbaforida com uns papéis às mãos, que o médico toma-lhe num safanão de impaciente brutalidade. Era meu o prontuário. Ele, com uma expressão mista entre sanguinária e jubilosa. _Ha! Não falei? Não é nada de cortar prepúcio… É só uma cirurgia de mudança de sexo! E paga pelos SUS, gente!

Tá viva; ainda levanta! Juntei todas as forças que supunha ainda possuir, para pelo menor falar! Ou ate gritar mesmo, a plenos pulmões: não corta não! Isso aí é meu e quero morre com ele ainda funcional e no mesmo lugar em que veio ao mundo! Mas a voz não saia; eu estava exaurido, uma mosca anestesiada. Aí a vista escureceu e, para meu sofrimento, ainda ouvi do médico cirurgião uma frase de pesar capaz de explodir ao paroxismo todo o meu ensandecimento, desespero e estupor; ele disse: “_ É, vamos lá. Um belo instrumento! Em outros tempos, gostaria de ter sido obsequiado pela natureza com um falo desse! Bela estrutura! Mas vamos transformá-la numa linda vulva cantante. Tem gosto pra tudo!”. Precisa dizer mais? Cortaram!

A ressaca do eunuco. Após uma noite na CTI, acordei ontem à tarde como o Raskolnikov, de Crime e Castigo; ou ate pior, como a Maria Dementieva, irmã do general Lebediakini, de O Idiota! Fulo da vida; eu tinha o ódio de Ivã, o terrível, e estava como o 8º Passageiro, tinha sede de sangue e vidas; o flagelo de Allàh. Mas eu estava fraco; debilitado, convalescente… Ao abrir os olhos, surpreso e apavorado, vejo o quarto do hospital como se fosse uma floricultura; cheio de jarros com arranjos floridos! Um cheiro enjoativo de flores e perfumes ordinários no ar; vozerio feminino balburdioso, vozes androgênicas em tom castratti; personagens espalhafatosas em roupas singulares faziam enorme burburinho, impertinentes e estranhas à volta do meu leito hospitalar. “_Ela acordou! Você está ótima minha linda flor!”. Minha flor um caralho, eu sou é macho. Que porra é essa?

Maguila vestindo um Versace? Foi aí que percebi que estava vestindo uma camisola rosa, toda bordada. Que estava maquiado; que tinha um arranjo nos cabelos, já tingidos de loiro e, uma calcinha entrava desconfortavelmente pelo rego como um cinto de castidade, muito apertado, a machucar minhas partes. Aquela multidão saltitante dentro do quarto do hospital? Era uma nuvem de Gladys GLBs; não posso escrever veados! Saltões e gafanhotinhos; libélulas multicores; colibris reluzentes de strass e purpurinas; uma nuvem rosa choque de andróginas saltitantes.

Kafka baixou aqui. Esse relato é por demais, doloroso para mim, por isso, vou resumir. Levantei-me tresloucada, digo; tresloucado e corri em direção ao banheiro onde só encontrei um barbeador elétrico pra cortar os pulsos; frustrado, ainda assim; tentei enforcar-me com a mangueira da ducha sanitária, mas ela ficava ao rés do chão. Tentei beber o sabonete líquido que estava sobre o lavatório, mas uma das bonecas segurou a minha mão gritando desesperada: _ Não faça isso! Foi quando escutei o choro contorcido de criança. Foi aí que ela completou: _ Você é mãe!

Agora estou aqui na fila do SUS ha mais de cinco horas, com esta criança pesada ao colo sugando o meu mamilo esquerdo onde eu tinha um piercing; puto da vida; e essa enfermeira vem me avisar que não tem médico? Porque a prefeitura não está repassando os pagamentos dos salários! Ora essa, se por causa de uma simples dengue cujo “tratamento” resultou nesse “produto”, transformação androgênico cirúrgica de macho varão para uma fêmea mamãe, alem de tudo circuncidada, esse mesmo sistema de saúde me nega um teste do saquinho para meu bebê. Prefeito!… Prefeito!… Eu sou filiado; digo melhor; filiada ao PSD! Onde está àquela velha amizade. Você não está livre de ter uma dengue dessa, viu?

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.

O semeador de ódio

Por Julio Gomes.

Com a campanha eleitoral para a Presidência da República ocorrida em 2018, na qual se elegeu o então candidato Jair Bolsonaro, tornou-se muito mais visível a sistemática e desumana conduta de enaltecer e espalhar o ódio, nas mais diversas formas, locais e grupos, que foi usada como estratégia para obtenção da vitória pelo candidato e pelo grupo que o apoiou naquele pleito.

Ódio contra mulheres. Ódio contra pessoas de esquerda. Ódio contra gays e lésbicas. Ódio contra indígenas. Ódio contra pobres. Ódio contra negros. Ódio contra analfabetos. Ódio contra nordestinos. A tempestade de ódio parece não ter fim, nem limites.

Para os que esperavam que a razão, ou ao menos a dissimulação, trouxessem um ambiente de paz após a campanha e a posse do atual Presidente, a realidade mostrou-se de forma oposta: na Presidência, as manifestações mais abjetas e vulgares continuaram sem tréguas, apesar do enorme esforço de assessores e grupos palacianos para filtrar ou minorar os efeitos das loucuras do atual mandatário maior de nosso hoje tão malfadado país.

A torrente irrefreável de ódio, aliada a despreparo e irresponsabilidade, propiciou a falta de governabilidade que se transforma, cada vez mais, em crise e instabilidade política gravíssima, com efeitos econômicos e políticos dentro e fora do Brasil, já que assistimos à deterioração das relações políticas e econômicas do Brasil com relação a outros países e órgãos ou instituições políticas internacionais, como vem ocorrendo com relação à China, ao Chile, ao Paraguai, à França, aos países árabes e ao Acordo de Paris, todos sob feroz ataque da verborragia inconsequente do atual Presidente.

O clima de intolerância, maus sentimentos, maus desejos e de ânsia para que algo de ruim aconteça ao outro contaminou até mesmo nossas relações familiares, nossas amizades de infância e nossas relações de trabalho. Hoje apenas toleramos uns aos outros. Os bolsonaristas fazem enorme esforço para nos tolerar, pois muitos dos mais entusiasmados gostariam de nos ver torturados nos paus de arara da ditadura instaurada em 1964, e depois desaparecidos ou enterrados como indigentes, já que nos consideram inimigos do Brasil. E as pessoas do campo democrático e de esquerda, quando não nutrem sentimento semelhante de ver trucidados seus atuais antagonistas, ou se perdem na depressão ou se encastelam na cordialidade estritamente necessária para que uma convivência mínima seja possível.

O ódio, como se vê, não produz somente prejuízo institucional e econômico. Ele também envenena as relações pessoais, mesmo as mais íntimas ou as que deveriam ser mais formais e respeitosas, acanalhando a vida e o dia a dia de quase todos nós.

O Brasil optou pela intolerância, pelo ódio, pela insensatez, pela grosseria e pela estupidez, entre outros adjetivos de tão triste significado. E o fez de forma institucional, elegendo um excelente representante de tudo isto.

Espero que encontremos uma saída disto tudo, talvez não tanto pelo Brasil, que parece perdido ou acabado, mas por nós mesmos, para que possamos sobreviver e deixar para trás esta triste página de nossa história que hoje vivenciamos, e voltar a ser pelo menos amigos, colegas de trabalho, familiares, vizinhos, pessoas comuns vivendo em paz, longe do ódio que Bolsonaro representa, exemplifica e dissemina, de forma magistralmente competente.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

A prisão de Temer e a reforma da previdência

Por Julio Gomes.

Tenho visto o entusiasmo exacerbado, quase orgásmico, com que grande parte dos brasileiros recebeu a notícia da prisão do ex-presidente Michel Temer, ocorrida em 21/03/2019, transmitida com grande estardalhaço de cobertura midiática. [Nesta segunda-feira, 25, o desembargador Antonio Ivan Athié, do TRF-2, concedeu liberdade ao ex-presidente].

Para parte expressiva dos brasileiros esta prisão é recebida com sabor de vingança pessoal, com uma sensação de gozo íntimo que, se por um lado é compreensível, ante os malefícios político-administrativos que Temer perpetrou quando se encontrava na Presidência, por outro lado nada tem haver com um desejo sincero de apuração de fatos, delimitação dos eventuais crimes e imposição de uma pena justa, após um julgamento no qual o acusado possa exercer plenamente seu direito de defesa, de forma a termos uma sentença que esteja de acordo com a Lei e com a Justiça. Não é isso o que as pessoas demonstram desejar. Elas, simplesmente, parecem querer vingança, pouco importando todos os aspectos anteriormente citados.

Em seu frenesi vingativo, no qual o fígado e as emoções em desalinho facilmente impedem o raciocínio lógico e calam a voz da razão em nossas consciências, as pessoas, ao menos momentaneamente, deixaram de prestar atenção a uma outra questão que se mostra ainda mais importante, pelas consequências que trará em um futuro próximo: a reforma da Previdência.

Proposta pelo atual Governo Federal, a propalada reforma pretende instalar no Brasil o regime de capitalização que já fracassou no Chile, onde idosos se suicidam por não conseguir pagar suas contas. Neste modelo o governo e os patrões deixam de contribuir para a Previdência, que pesará unicamente nas costas dos trabalhadores, que deverão depositar em instituições privadas (bancos) seus recursos para a sonhada futura aposentadoria.

Como estamos no Brasil, nenhuma surpresa haverá se após 30, 40 ou 50 anos de contribuição o brasileiro vier a descobrir que o fundo de aposentadorias e pensões ou a empresa para a qual contribuiu durante anos simplesmente faliu no momento em que deveria começar a pagar a aposentadoria de quem ali depositou. Como ocorre aqui, o dinheiro simplesmente “sumiu”. Ninguém pagará por isso e quem depositou ficará, na velhice, exposto ao mais completo desamparo social, em situação de miséria e incapaz para o trabalho.

Se você duvida do quanto foi exposto acima, é bom lembrar-se do que ocorreu com a Aerus, que eram os fundos de pensão das grandes empresas aéreas Varig, Cruzeiro e Transbrasil. Quando a Varig parou de operar, em 2006, o fundo Aerus simplesmente não teve recursos para pagar aos trabalhadores que haviam contribuído. Desde então e até 2014, os aposentados e pensionistas do Aerus receberam somente 8% do valor a que teriam direito. Somente em 2014, após uma Decisão Liminar da Justiça Federal, conseguiram voltar a receber regularmente, o que só foi possível porque havia dívidas da União com a Varig, o que possibilitou a retomada dos pagamentos.

E se o fundo privado para o qual você vier a contribuir falir na hora de pagar sua aposentadoria, quem pagará sua aposentadoria, ou a pensão aos dependentes?

Por tudo isso, antes de pular de alegria com a prisão do caquético e ultrapassado Temer, pense na sua aposentadoria, na pensão destinada ao cônjuge sobrevivente e aos filhos menores, pense na aposentadoria de seus filhos, que provavelmente nunca ocorrerá ou resultará em um valor de aposentadoria miserável, inferior a um salário mínimo, de acordo com as novas regaras.

E pense, sobretudo, que desabando a miséria e a necessidade sobre as pessoas que amamos, tais como nossos filhos, daqui a alguns anos nós não estaremos mais aqui. Já teremos morrido, e não poderemos ajudá-las em absolutamente nada.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

E aí, Bolsonaro! Pega a visão, a poesia me impediu de odiar!

Por Caio Pinheiro.

Nesses tempos sombrios, onde a esperança encontra-se asfixiada pelo ódio, resistir deve ser a palavra de ordem dos amantes da democracia. Acreditemos que a verborragia difamatória dos inimigos do Estado de bem-estar social são castelos de areia; por isso, não suportarão a força avassaladora da realidade, hoje caracterizada pelo crescimento exponencial das iniquidades sociais, num país, que afora os equívocos, ensaiou associar crescimento econômico com o crescimento social ao longo de quase duas décadas.

O Brasil amanheceu em 2019 ainda gravemente doente, mesmo com muitos cidadãos acreditando que a vitalidade pátria seria restabelecida após removerem o “tumor vermelho”. É verdade que tumores sejam encarados pelos leigos como algo pavoroso, mas nem sempre eles são o mal em si. Sua ocorrência pode estar associada ao adoecimento sistêmico do organismo, por isso, um diagnóstico errado pode produzir respostas inadequadas contra a verdadeira patologia, diagnosticada como um mal improvável.

Não foi preciso esperar 100 dias como especulou Ciro Gomes para vaticinar o fracasso do governo Bolsonaro. O presidente ainda continua preso ao personagem que criou para chegar à presidência. Apoio de gente poderosa não foi problema para o “mito”. Setores da mídia corporativa, empresariado, agronegócio, sistema financeiro, importantes lideranças evangélicas, frações expressivas do judiciário, bolsonaristas de primeira hora e cidadãos desacreditados na democracia ratificaram nas urnas Bolsonaro presidente. Compraram e acreditaram na promessa da “nova política”, mesmo sabendo que o “presidente mito” já vivia no parlamento há mais de duas décadas.

Agora, os mesmos que elegeram Bolsonaro como redentor tramam sua queda. Caso emblemático são os homens do agronegócio. Animados com a possibilidade de liquidar a “petralhada”, acabar com a fiscalização ambiental e enquadrar como terroristas movimentos sociais como o MST, os “agropopis” deram com os burros n’água. Como informa Leonardo Attuch, a União Europeia já avisou que não aprofundará os acordos comerciais com o Brasil, em razão da perplexidade que Bolsonaro provoca no mundo civilizado. Pressionada pelos EUA, a China trocará a soja brasileira pela dos produtores americanos. Os países árabes retaliam o Brasil em razão da nova política externa, que chancela agressões do governo de Israel ao palestinos.

O cenário indica que Bolsonaro não resistirá, por isso, pedindo licença a Karl Marx, filósofo alemão do século XIX, deturparei sua máxima dizendo: “tudo que não é sólido se desmancha no ar”. Bolsonaro e sua claque são amorfos! Como apontou Rodrigo Maia, “vulgo botafogo”, o governo bolsonarista é um “deserto de ideias”. Exceção da reforma previdenciária draconiana de Paulo Guedes, sordidamente chamado de “Posto Ipiranga”, e as medidas plagiadas de combate à corrupção do ministro da justiça Sergio Moro, nada de novo foi proposto. É preciso lembrar a Bolsonaro que para acabar com programas comunistas (conceito bolsonarista!) como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, FIES, PROUNI, PRONATEC, PETI, Luz para Todos, Brasil Alfabetizado, Educação de Jovens e Adultos e tantos outros, será preciso pensar em algo que lhes substitua.  

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Contrato do lixo: distrato ou emergência forçada?

Mirinho Duarte e Uildson Nascimento.

Ademais, não cabe na cabeça de quem tem juízo a falta de recursos do município que ao negar condições de pagar mensalmente o valor de R$ 979.158,83 à Solar Ambiental, celebra um contrato emergencial por noventa dias com a CTA Empreendimentos Eireli por R$ 3.600.657,00, importando num valor médio mensal de R$ 1.200.219,00, ou seja, pagando um valor a maior no importe de R$ 221.060,17. Somando-se a isso as parcelas pactuadas com a Solar Ambiental, pergunta-se: Onde está a falta de recursos?

Por: Mirinho Duarte e Uildson Nascimento.

O fato da aparente ”normalidade” da coleta de lixo não impede que o gestor preste esclarecimentos a população diante de nítidas obscuridades que permeiam o seu contrato, suscitando dúvidas que indiciam e nos levam a crer na possibilidade de irregularidades. 

Ressalta-se que a coleta de lixo é um serviço essencial e o seu contrato deve ser precedido de licitação, com vigência de até 05 (cinco) anos, por tratar-se de prestação de serviço contínuo como estabelece o art. 57, inciso II da Lei 8.666/93. Logo, o contrato 026/2014 celebrado entre o município de Ilhéus/Solar Ambiental em 12/02/2014 poderia ser prorrogado tantas vezes quanto necessária até 12/02/2019.

O referido contrato parece-nos celebrado ao lume da lei e vigeu inicialmente pelo período de 02(dois) anos -2014/2016– mediante paga de R$ 637.620,51/mês pela execução dos serviços de coleta e transporte de resíduos hospitalares, limpeza e desobstrução de redes de drenagem e galerias de águas pluviais com equipamentos de vácuo e de alta pressão, lavagem e desinfecção de feiras livres e vias, limpeza de praias.

O valor do contrato original –R$ 637.620,51- foi mantido até 31/12/2016 e o primeiro reajuste de 53,5645% concedido pelo atual prefeito em janeiro de 2017, elevou-o estratosfericamente para R$ 979.158,83 e instigou a criatividade popular a batizar o ato como “Contrato Mário do Pulo”, numa alusão e relação ao salto triplo do atleta brasileiro João do Pulo.

Com esse ato o prefeito violou a cláusula segunda do contrato que estabelecia reajuste anual com base no IGPM e, por isso, ao invés de 53,5645%, deveria aplicar o índice de 1,066608%  sobre o valor original -R$ 637.620,51- visto não ter havido majoração até ali, obtendo o valor de R$ 680.091,14 que vigeria de Fev/17 a Fev/18 e, em fev/2018 aplicar sobre esse valor, 0,995860% – índice do IGPM – resultando no valor do contrato de R$ 747.818,6, para viger de fev/2018 a fev/2019, quando da expiração do contrato.

Mas dos males esse foi menor do que a cristalina probabilidade da “forçação de barra” para a criada situação de emergência e conseqüente contratação emergencial direta – sem licitação – da empresa CTA Empreendimentos Eireli, fazendo soar estranho e nebuloso o tal contrato emergencial, quando analisados os atos praticados e documentados pela própria gestão contratante nesse norte.

O Contrato 026/2014 foi fiscalizado por uma comissão de servidores especificamente constituída e nomeada para esse fim, através da Portaria nº 001/2017 de 30/06/2017 assinada pelo Secretário de Serviços Urbanos. No dia 08/01/2019 o gestor fez o nono aditamento ao contrato, prorrogando-o e validando-o para o período de 09/01/2019 a 07/02/2019, ressaltando que finda essa prorrogação, o contrato estaria extinto. Mesmo assim, no dia 07/02/2019 o gestor ensaiou um ato de “mágica administrativa” usando um “Termo de Prorrogação Excepcional” para estender a validade do contrato até 07/08/2019, o que violaria o art. 57, inciso II da Lei 8.666/93.

Depura-se desses atos o engenhoso propósito do gestor na articulada manobra em não realizar, como não realizou a nova licitação em tempo hábil para eleger a substituta da Solar Ambiental e assim impediu o prosseguimento legal da continuidade dos serviços da coleta de lixo, preferindo expor a riscos a Saúde Pública e criar pânico na população, atemorizando-a com o acúmulo de lixo espalhado pela cidade e de repente num toque de mágica apresentar, como apresentou ao povo, uma saída emergente através da solução milagrosa da contratação direta da empresa CTA Empreendimentos Eireli,  conforme seu interesse e livre escolha sob o argumento de que a empresa Solar Ambiental rompera o contrato, em razão da falta de recursos do município para cumprir com a sua obrigação contratual cuja dívida importava em R$ 4.584.576,32.

Não há argumentos que justifique o prefeito não ter realizado a nova licitação, bem assim, os motivos expostos no Decreto Emergencial nº31 de 07/03/2019  não configuram uma situação de emergência, porquanto distam-se e muito das exigências legais para o decreto emergencial. Não passam de definição de princípios constitucionais que não se adéquam, nem fundamentam o caráter emergencial de uma real situação de emergência, mas, satisfaz apenas a emergência que o gestor pretendeu criar, cuja “emergência” decorreu da falta de cumprimento das suas obrigações que embora tivesse conhecimento do dever de licitar, por má fé, ou interesses próprios, prevaricou.

O argumento da ruptura do contrato 026/2014 também não procede primeiro, porque, não se rompe contrato vencido sem condições legais de prorrogação. Segundo, se não havia recursos para pagar a divida, como o município pactuou com a Solar, o pagamento de R$ 1.100.000,00 divididos em três parcelas, todas vencíveis em março em curso e o saldo restante divididos em 18 parcelas iguais? Terceiro, em se tratando de uma ruptura contratual, pressupõe-se um litígio, assim como, considerando que essa ruptura violaria o principio da continuidade do serviço público essencial, não seria essa matéria objeto de discussão judicial, lastreado no principio da inafastabilidade do controle jurisdicional, conforme art. 5º, inciso XXXV da CF?

Ademais, não cabe na cabeça de quem tem juízo a falta de recursos do município que ao negar condições de pagar mensalmente o valor de R$ 979.158,83 à Solar Ambiental, celebra um contrato emergencial por noventa dias com a CTA Empreendimentos Eireli por R$ 3.600.657,00, importando num valor médio mensal de R$ 1.200.219,00, ou seja, pagando um valor a maior no importe de R$ 221.060,17. Somando-se a isso as parcelas pactuadas com a Solar Ambiental, pergunta-se: Onde está a falta de recursos?

A empresa CTA empreendimento não está autorizada a coletar o lixo hospitalar e o contrato omite esse tipo de serviço. Daí, a dúvida: está sendo feita ou não a coleta do lixo hospitalar? Se estiver sendo feita a empresa estará violando a lei. No entanto, se não estiver, onde os hospitais e clinicas de Ilhéus estão armazenando esse lixo? Se estiver sendo realizada a coleta, qual a destinação desse lixo? E os trabalhadores são qualificados para essa incumbência? Estão devidamente protegidos com seus respectivos EPIs? Dezenas de outros questionamentos sobre esse decreto blindado por um espesso nimbo podem ser desvendados mediante uma investigação judicial. Essa é a via mais adequada. Não cruzemos os braços.

A nosso ver não houve distrato. Houve sim, a “ fabricação de uma situação de emergência” para satisfazer interesses alheios à supremacia do interesse público.

E você? Qual a sua opinião?

Mirinho Duarte é estivador e coordenador do Comitê de Entidades Sociais em Defesa de Ilhéus e Região (Coeso).

Uildson Nascimento é contabilista, ex-secretário de saúde de Ilhéus (2011), ex-diretor administrativo e financeiro da secretaria de saúde de Itabuna (2012/2016), ex-secretário de planejamento de Ubaitaba (2017) e ex-diretor de planejamento da secretaria de saúde de Ilhéus (2018).

Feio, muito feio

Por Mohammad Jamal.

Era para glorificar o divino, mas… Em qualquer tempo, se eu pedisse a qualquer pessoa educada para descrever qual objetivo da poesia, da musica, da arte, eles teriam respondido: a beleza. E se você perguntasse o motivo disso, aprenderia que a beleza é de um valor tal quanto à verdade, a bondade, o amor. Porque a beleza foi então relegada no século XX, deixando para trás sua inegável importância? A Arte, gradativamente, se focou em quebrar todos os tabus morais, hoje tão raros e carentes de mínimo pudor.

Dedo da arte introduzido no ovopositor alheio. A beleza foi desprezada e a “originalidade” elevada à condição de arte, atingível por todos os meios e a qualquer custo moral desde que proporcione prêmios financeiros, comendas, etc. Mas qualquer olhar desatento sobre o tema permitirá que até um cego se aperceba que não somente a arte fez um culto à feiura, como ate a arquitetura se tornou desalmada e estéril. Não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio e imoral: nossa linguagem, música, maneirismos, condutas, estão cada vez mais minimalistas, rudes, vulgares, autocentradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto houvessem perdido definitivamente seus lugares em nossas vidas. Por isso, uma palavra grafada em letras chamativas em todas essas coisas feias é a palavra “egoísmo”. Meus prazeres, meus lucros, meus desejos, meus vícios, meu pornografismo gerador de interinfluências do meio… Nesses casos, o intelecto da arte não tem mais o que dizer em resposta, apenas: “sim, faça isso”. Estamos, irremediavelmente, sob o domínio do antropomorfismo sociológico etnobiológico, algo bestial, fauniano, caprípede. Penso que estamos perdendo o senso da beleza, preexistindo ainda de que, com isso, também percamos o sentido da vida. 

Feio e cinzento. O dia transcorreu soturno, pesado, tedioso, um sepulcro atemporal. Hoje carreguei toneladas de apatia, confrontei rostos banidos da esperança cujos corpos e suas texturas transpareciam personagens extraditados da Divina Comédia. O estupor do medo desenha olhos de barro em seus rostos macilentos. A üzüntü, Dünya… “Kasvetli olmanın nesi mükemmel?”, diria assim vovô, no seu turco carregado de expressionismo linguístico (tristeza, depressão… “O que há de tão grande nesta depressão?”). De pé, totalmente despido de pudores, nu no meio daquele quarto/alcova, que mais poderia eu fazer nesse fim de tarde, quando ameaças de ciclones, ventos fortes e a escuridão sepultam o dia agônico para mim com pesado atraso; Que me resta senão apoiar meu corpo suado sobre o corpo daquela mulher de “negócios” esparramada nua, pernas abertas a preço fixo e olhar macilento fitando a impassibilidade da própria apatia estampada no bolor que desenha mapas verdes amarronzados no teto, nas paredes, na memória? Que fazer senão copular mecanicamente como um tedioso rito processual habeas pernas, habeas corpus, agravos restringentes para políticos corruptos em luxúria por dinheiro?

Teias e forca. Havia silêncio e uma única lâmpada no ambiente, tal como se enforcada no centro do quarto, pendendo do bocal por um fio coberto pelas teias do tempo.  Debilitada e mortiça, sua fraca luminescência tingia os poucos móveis além da cama com um amarelo ictérico tal a bile, tão viva, a ponto de a memória gustativa me fazer sentir amarga a saliva que me brotava sob a língua. E desabei inteiro, inapetente e sem ganas sobre aquele corpo feminino, servil e passivo. Passei em seguida aos movimentos rítmicos ondulares, como se coreografando um funk fúnebre em réquiem litúrgico para exéquias de uma vagina pós-exumada. Foi quando a vagina exumada, ou melhor, a voz da mulher serventuária passiva, mas de negócios baratos, deu sinais de vida. Ela:_ “políticos fedem a dinheiro cagado!”. Senti um ligeiro abalo na força, mas me mantive silencioso. Ela, de novo: _ “Você não vai me bater?”. Meu autocontrole estava chegando ao fim. De novo, ela: “Nem um tabefinho? Adoro apanhar!”. Num esforço sobre-humano, produzi mais silêncio… Aí ela acendeu o detonador: “_ Acho que vou peidar!” e emendou: “Posso fazer uma ligaçãozinha pra mamãe?”.

Não tenho certeza do que fiz, mas, com alguma segurança, imagino que escrevi algo feio pra você ler e se dar conta de que a feiura está predominando sobre os intelectos, mas ainda há tempo para se vacinar contra a feiura: Leia um bom livro, é só.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.

Gerar emprego é prioridade

Por Eduardo Salles.

Independente de ideologias ou preferências partidárias, acredito que neste momento a principal função de todo representante eleito é trabalhar para criar condições que permitam dinamizar a economia, permitindo a criação de postos de trabalho. Apenas quem vive em bolhas não consegue enxergar que o desemprego é o principal problema nacional.

Seja na iniciativa privada, onde tive a experiência de ser diretor de empresas multinacionais, ou no setor público, como secretário estadual de Agricultura e deputado estadual, sempre trabalhei na elaboração e execução de projetos responsáveis pela geração de milhares de empregos diretos e indiretos.

Os números do desemprego são alarmantes, conforme dados divulgados pelo IBGE em novembro de 2018. Conforme pesquisa do órgão, 11,6% da população economicamente ativa não tem trabalho, o que equivale a 12,2 milhões de pessoas. Outros 4,7 milhões de trabalhadores estão em situação de desalento (desistiram de procurar emprego).

Vale ressaltar que os dados divulgados pelo IBGE, que fazem parte do PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios), 23,8 milhões de pessoas trabalham por conta própria. A grande maioria na informalidade, sem contribuir com a Previdência Social e acesso a direitos.

Na Bahia, mesmo com todos os esforços feitos pelo governo estadual, os números também são preocupantes. Dados do IBGE de agosto de 2018 mostram que 1,168 milhão de baianos não têm emprego e outros 877 mil desistiram de procurar uma vaga no mercado de trabalho.

Os efeitos da crise econômica são devastadores na capital e interior, onde, muitas vezes, as prefeituras e o setor público são os grandes ou únicos vetores de emprego e renda. Some ainda as dificuldades climáticas, já que a Bahia tem 70% de seu território na região semiárida.

São muitas dificuldades, é verdade. Mas isso não significa que estamos condenados. Enxergo inúmeros potenciais nos quatro cantos da Bahia. Acho que precisamos é elaborar políticas públicas e uma legislação mais eficiente que permita dinamizar e descentralizar os investimentos, retirando as arestas dos empreendedores da agropecuária, indústria, comércio e serviços.

No meu primeiro mandato, propus, ajudei a criar e presidi a Frente Parlamentar da Micro, Pequena e Média Empresa, que foi responsável pela elaboração da minuta da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que pretende regular, entre diversos pontos, as taxas, incentivos e benefícios fiscais diferenciados, simplificar os processos de abertura, alteração e baixa da empresa, regulamentar o parcelamento de débitos relativos aos tributos estaduais, dá preferência nas aquisições de bens e serviços nas licitações promovidas pelo governo estadual, permitir a dupla visita da fiscalização orientadora e garantir juros mais baixos nas instituições financeiras administradas pelo estado.

Eduardo Salles é deputado estadual pelo PP.

A imbecilidade é incompatível com o progresso

Por Julio Gomes.

Estes últimos tempos de vivência no Brasil nos têm proporcionados lições duras, ácidas, porém preciosíssimas, que convém, a bem de nós mesmos, aprendermos definitivamente, aplicando-as em nossas vidas, para não andarmos de marcha à ré.

Uma delas é o altíssimo custo que a imbecilidade, tanto individual como coletiva, está trazendo e trará para cada um de nós, se não for combatida, debelada, ultrapassada.

Vimos o ideólogo de extrema direita Olavo de Carvalho e setores ligados a grupos religiosos indicarem, ente muitos outros, alguns nomes desastrosos para compor o Primeiro Escalão da Administração Pública Federal, que iniciaram suas gestões juntamente com o Presidente Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019. Vejamos:

– Damares Alves, Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que após pavimentar sua ascensão com manifestações tais como aquela em que diz que conversou pessoalmente com Jesus em cima de uma goiabeira continua, como Ministra, se atribuindo mestrados “autoreconhecidos” (sem que o sejam por nenhuma instituição de ensino), e trazendo para o cotidiano questões irrelevantes e, não raro, risíveis ou ridículas, tais como a polêmica em torno do azul e rosa.

– Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, que classifica o aquecimento global como  “uma invenção marxista”, que a culpa é da “globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural” e, ainda, que somente o atual presidente de extrema direita dos EUA pode nos salvar: “somente Trump pode ainda salvar o Ocidente”.

– Ricardo Vélez-Rodríguez, Ministro da Educação que, num rasgo de reacionarismo, se declarou favorável ao retorno da Monarquia ao Brasil e que recentemente tentou fazer com que os professores de todo o Brasil lessem o tema da campanha eleitoral de Bolsonaro no primeiro dia de aula, e ainda filmassem e divulgassem imagens de alunos sem autorização dos pais, ambos atos expressamente proibidos por lei.

Como as manifestações da imbecilidade estão na moda, não se pode esquecer as do líder maior no campo das asneiras, nosso atual Presidente da República, tais como as declarações contrárias ao governo da China que azedaram as relações comerciais com o Brasil e levaram os chineses a preferir, em 2019, voltar a comprar soja dos EUA, fazendo com que o Brasil perdesse bilhões de dólares em exportações, entre dezenas de outras sandices que aqui poderiam ser citadas.

Não coloquemos, porém, o peso das asneiras nossas de cada dia tão-somente sobre os mandatários de nosso país. Nós, cidadãos comuns, também temos contribuído muitíssimo para o império dos impropérios e dos absurdos que hoje azedam nossas vidas. E fazemos isso todas as vezes que incorporamos e externamos posturas machistas, homofóbicas, misóginas, preconceituosas, xenófobas, carentes de base científica, e outras do mesmo gênero, que são fundamentais para que a ignorância reine nós.

Houve um tempo na humanidade em que nossa ignorância causava menos estragos. Morávamos no campo, carregávamos lenha para fazer fogo, pastoreávamos animais, viajávamos a pé e para causarmos destruição possuíamos apenas instrumentos como espadas e machados. Os efeitos de nossa ignorância eram limitados por nossa primariedade tecnológica.

Porém hoje em dia qualquer um de nós consegue ter acesso a uma arma de fogo automática (fuzil), da qual frequentemente se faz mal uso. Dispomos de veículos velozes que tanto transportam como matam. Temos ao nosso alcance drogas poderosas que podem atuar muito deleteriamente sobre o corpo e o meio ambiente. Comunicamo-nos com milhares ou mesmo milhões de pessoas ao mesmo tempo e as influenciamos, muitas vezes de forma negativa. E nossos governantes, em uma decisão equivocada, podem, simplesmente, destruir o planeta, matando instantaneamente bilhões de seres humanos.

A ignorância, mais do que nunca, é um perigo, um entrave, um risco ampliado exponencialmente por nossa capacidade tecnológica, que parece estar mais avançada para destruir do que para salvar vidas.

Não é exagero: ignorância mata! Com moderníssimos aviões de guerra, com potentes agrotóxicos, com armas de fogo em mãos erradas, com carros dirigidos por pessoas em estado de embriaguez, enraizada na mente daqueles que não admitem o fim de um simples relacionamento sexual ou afetivo e se julgam no direito de assassinar a(o) ex com requintes de crueldade.

O combate à ignorância, em suas diversas formas de manifestação, deve ser uma prioridade humana, a começar por cada um de nós, até atingir a todos, sem exceção.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Das razões do Ser (minha filosofia performática)

Por Mohammad Jamal.

Começo citando um dos meus “gurus“ da filosofia. “Desde que a experiência me ensinou serem vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas resolvi, enfim, indagar se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema.”. “Tratado de Correção do Intelecto” (Bento Espinosa).  

Escrevo esse texto para refletir sobre algumas características fundamentais daquilo que entendemos por ‘filosofar’ a partir de uma perspectiva pragmática que a poeira do tempo obscureceu no esquecimento. Foi naquele tempo, quando ainda ensinavam o Latim no curso médio (ginasial), que aprendi garimpando curioso uns velhos textos em latim, que a forma geométrica do universo reflete o esquema da vida; que eles são o mesmo. Aprendi que o universo é delimitado por cinco lados e que a vida tem cinco estágios. “Primum”, a dor do nascimento. “Secundum” o trabalho da maturação. “Tertium” a culpa de viver. “Quartum” o terror de envelhecer. “Quintum” a finalidade da morte. Mas não está completo, pois cinco lados demandam um sexto espaço, um centro. É ele que devemos esperar ansiosamente. O que é o sexto espaço?  É o Vazio, a escuridão, o vácuo! Em outras eras igualmente ignorantes como a atualidade, dizia-se que o fogo eterno sucederia à morte. Mas no meu entender digo que não há fogo. Eu digo que o fogo não é punição bastante. Não meus amigos! O vazio do qual eu falo é o total horror da loucura, a consciência do nada. Então, nossas vidas, mesmo que miseráveis, de fato, são a felicidade suprema. Esse é o prêmio. Você deve amar sua vida mesmo que torturada, porque é uma pausa, uma interrupção no vácuo precedente e posterior. Se você busca uma resposta, olhe muito além dos fatos que você tem… E adicione mais um… O desconhecido. Porque somente quando você considera o desconhecido você tem uma esperança, uma chance de resolver o dilema do viver.

Sêneca me ensinou um pouco a viver melhor diante do inesperado digamos, do imprevisível ao qual jamais imaginávamos, pois nos é vedada a antevisão do amanhã. Apesar de todas as dificuldades, Sêneca, um dos mais conhecidos filósofos romanos, não era um homem amargurado, depressivo, sorumbático. Ele foi sábio quando percebeu que os fracassos são inevitáveis, e que o segredo das pessoas mais bem-sucedidas na vida é saber lidar com eles. Fracassos raras vezes são evitáveis, já que estão implícitos em tudo aquilo que representa atitude. E já que os problemas inesperados são os que mais nos atingem; que estejamos sempre preparados para o pior, embora essa “prevenção” possa transparecer pessimismo é, na verdade, um racional e precavido resguardo generalista.

Todas as vezes que você entrar num avião ou num carro, saiba que essa poderá ser sua última viagem. Se não for, aproveite cada nova oportunidade para explorar a vida ao máximo. “Descobrir que as fontes de satisfação estão além de nosso controle e que o mundo não funciona da forma como gostaríamos é um choque de infância de que muitos não se recuperam”, diz o filósofo britânico Marcus Weeks. As imprevisibilidades que decorrem do nosso existir devem ser encaradas com leviana serenidade. Nada é mais sério e importante que nosso equilíbrio sobre essa corda bamba da existencialidade. Cair no vácuo? Jamais.

Para o grande Sêneca, frustrações todos as vivenciamos alguma ou muitas vezes no transcurso da vida, o segredo é saber lidar com elas sem raiva, ansiedade, paranoia, amargura ou autopiedade. Precisamos manter o senso de realidade para não sucumbir à tentação de culpar os outros à nossa volta por tudo o que dá errado conosco.

O sucesso a ser alcançado consiste em se manter a paciente e emocionalmente estável diante dos problemas que fogem do nosso controle, e focar firmemente no que, de fato, depende só de você. Contra o breu existencial que circunscreve e fatiga o humor, ele fazia um exercício metodológico relativamente simples num certo sentido. Antes de dormir, listava suas frustrações, os insultos que havia escutado ao longo do dia e como havia se saído disso. Se algum resquício de malogro persistisse, ele o despejava fora dos seus sentimentos memoriais como algo impuro, indesejado, um chorume infecto contaminante. Ressentimentos? Não.

A busca pelas razões do existir e preservar o “ser” incólume é uma guerra permanente travada no campo do ambiente transpessoal. O SER é um estado difícil e de onerosa manutenção, todavia vale qualquer esforço, uma vez que “em sendo”, se adquire algo permanente e não passageiro como simples objetos assessórios. “Em sendo”, tem-se o tesouro do autoconhecimento que atrai outras riquezas com a solidez e a segurança da paz interior.

Sobre o poder da resiliência que vence o pessimismo do fracasso, trago um poema do indiano Kabir Das. Nem todas as palavras do idioma árabe, do Hindi, do Urdu, encontram no Português o verdadeiro sentido da literalidade e conotação por isso, nenhuma tradução simplesmente literal poderá representar sentido, conteúdo e expressionismo literário da intelectualidade, filosofia e pensamento nesses idiomas. Contudo, mesmo sendo uma língua consonantal entremeada de sinais diacríticos, não é totalmente impossível transliterá-la ao riquíssimo Português. Segue a tradução não literal do poema, na justa medida dos nossos limites. Kabir, sabiamente substitui o abstracionismo entreguista da religiosidade pela força vital que impulsiona a vontade, a Jihad (meta, objetivo, premissa) onde o Ser deve predominar a todo custo. E o Ser persegue a vontade, a Jihad.

Onde me procuras? Estou contigo.

Não nas peregrinações ou nos ídolos, tampouco na solidão.

Não nos templos ou mesquitas, tampouco na Caaba ou no Kailash.

Estou contigo, ó homem estou contigo.

Não nas preces ou na meditação, tampouco no jejum.

Não nos exercícios iogues ou na renúncia, tampouco na força vital ou no corpo.

Estou contigo, ó homem, estou contigo.

Não no espaço etéreo ou no útero da terra, tampouco na respiração da respiração.

Procura ardentemente e descobre, em um instante único de busca.

Escuta com atenção! Onde está tua fé, lá estou!

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.

Bolsonaro e o tuíte obsceno

Por Julio Gomes.

Causou impacto a forte politização ocorrida neste Carnaval 2019, tanto nos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro quanto nas ruas, onde blocos e foliões, espontaneamente, se manifestavam como podiam com relação à forma como o Brasil vem sendo conduzido pelo Governo Federal empossado em 1º de janeiro. 

Desde sátiras cabíveis e inteligentes até coro de multidões em xingamento, o brasileiro se manifestou como pôde, e as próprias palavras do atual Presidente, que sempre foi contra o “politicamente correto”, decerto contribuíram para que manifestações deseducadas acontecessem, já que ele mesmo entende que assim deve ser. 

Porém o que está roubando a cena, mais do que as manifestações populares, foi a publicação do próprio Presidente, em sua conta no Twitter, na terça-feira, dia 06/03, quando o mesmo postou um vídeo para lá de inadequado, contendo uma cena de um homem dançando seminu com o dedo no próprio ânus e, em seguida, outro homem urinando na cabeça do que dançava. Para quem desejar ver, o Twitter com o vídeo se encontra facilmente acessível na internet. 

A postagem demonstra, mais uma vez, o despreparo e desequilíbrio da pessoa que hoje ocupa a Presidência. Se para o anônimo folião de rua muito é permitido, é bom lembrar que para quem ocupa determinados cargos impõe-se a obrigação de um mínimo de decoro, sobretudo no que declara ou posta, já que para pessoas do alto escalão da vida pública uma simples declaração torna-se, não raro, um ato de trabalho, um posicionamento do órgão que ocupa ou representa. 

O vídeo postado pelo Presidente em sua conta nos faz duvidar da saúde psíquica do mandatário, já que o despreparo é indiscutível. Depois de incentivar a violência verbal e física durante toda a campanha, com gestos alusivos a armas e palavras grosseiras, o presidente eleito e empossado parece não conseguir entender que tem agora que governar, e que isso exige equilíbrio, sensatez, continência moral e poder de liderar um grande grupo de trabalho em direção a grandes objetivos, qualidades que talvez ele, simplesmente, não tenha. 

Insisto, pois, na questão da inaptidão psicológica, ou mesmo psiquiátrica, de Bolsonaro para ocupar o cargo em que se encontra, e onde seguidamente dá demonstrações constrangedoras, que começaram com a incômoda presença de um dos filhos sentado ao fundo do carro durante a cerimônia de posse, seguiram-se com sua deprimente atuação no Fórum de Davos, onde discursou sem nada dizer e depois foi almoçar sozinho em um bandejão; e continua, com inúmeros e constantes exemplos, sendo o último deles a postagem inadequada, desrespeitosa, descabida que seu instinto de defesa o levou a fazer, e que serve como atestado público de seu descontrole. 

Por fim, fico pensando em como tudo isto repercute junto ao mundo civilizado e às democracias, junto aos demais países, junto a instituições sérias como a ONU, a OEA, a OMC, junto às Universidades e Institutos que, pela sua tradição e contribuição, são indispensáveis à convivência democrática e institucional. Fico pensando se o mundo não nos vê como um bando de loucos governados por alguém que expressa isto com exatidão e fidelidade. E me pergunto: Que dia isto vai acabar?

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.