Não sou coveiro

julio nova

De fato, Presidente, o senhor não é um coveiro. Se fosse, a vida teria lhe ensinado a ter mais respeito pela vida humana e pela dor de quem perde e sepulta um ente querido.

Por Julio Gomes.

Perguntado por um repórter, nesta semana, acerca do número de óbitos recentes causados, no Brasil, pela pandemia de COVID-19, nosso mandatário maior respondeu, com atitude grosseira que lhe é típica, que “não sou coveiro”.

Não surpreendem mais ninguém a estupidez, a forma desrespeitosa, ou mesmo debochada de tratar a outras pessoas, quando se trata de uma resposta saída da boca de nosso atual Presidente. Por isso, não desejo abordar a questão sobre este ponto de vista, mas sobre outro, diverso.

Há cerca de vinte anos atrás, ocupei a Vice-Presidência e, depois, a Presidência do SINSEPI, Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Ilhéus. Foram mais de dez anos à frente das reivindicações desta categoria profissional, o que me levava a conversar diretamente com todas as classes de servidores: guardas municipais, agentes de saúde, advogados, auxiliares administrativos, varredores de rua, odontólogos, auxiliares de serviços gerais que trabalhavam na coleta do lixo urbano, fiscais, motoristas, arquitetos e… coveiros, já que naquela época, em Ilhéus, todos os cemitérios aqui existentes eram administrados pelo Município, pela Prefeitura, como se diz popularmente.

Me lembro de como fizemos um movimento de reivindicação para que os coveiros passassem a ganhar o adicional de insalubridade de 40% sobre o salário mínimo, posto que até então não o recebiam; e continuei acompanhando ao longo dos anos a luta destes servidores pelo recebimento das horas extras trabalhadas; por EPIs (botas, luvas etc.); por melhores condições de trabalho e outras demandas próprias desta categoria.

Por conta disso, nossas visitas aos cemitérios eram frequentes, e conhecíamos a todos os coveiros que trabalhavam na zona urbana de Ilhéus pelo nome, sabendo onde cada um estava lotado, conhecendo as qualidades e problemas de cada um deles. (mais…)

Apertem os cintos, o Ministro da Saúde sumiu

Tenho a impressão de que a loucura e a irresponsabilidade em seu grau mais elevado tomaram conta do Brasil, atingindo ao patamar de conduta criminosa, por deliberada omissão. Afinal, como declarou nosso Presidente ontem a um repórter, em mais um arroubo de ignorância e estupidez, “não sou coveiro”.

Por Julio Gomes.

Talvez os mais jovens não se recordem, mas há alguns anos atrás fez enorme sucesso um filme intitulado Apertem os Cinto… O Piloto Sumiu. Tratava-se de uma comédia que abordava o voo de um grande avião de passageiros, lotado, no qual o piloto simplesmente “desaparecia”.

Hoje, entretanto, vivemos uma tragédia real no Brasil. No momento em que escrevo estas linhas as secretarias estaduais de Saúde divulgaram, até as 8h30 desta quarta-feira, 22 de abril, 43.592 casos confirmados de infectados Corona Vírus (Sars-Cov-2), com 2.769 mortes pela Covid-19, sendo que mil delas ocorreram nos últimos sete dias. Isto ocorre em um país onde todas as autoridades reconhecem que há subnotificação dos casos, ou seja, os números reais são muito maiores do que os oficiais (https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/22/casos-de-coronavirus-e-numero-de-mortes-no-brasil-em-22-de-abril.ghtml Acesso em 22/04/2020, às 12:10 horas).

Concomitantemente, na quinta-feira, dia 23 de abril, também teremos exato sete dias contados da data de exoneração do ex Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandeta e do anúncio do nome do médico Nelson Teich para substituí-lo, cuja solenidade de posse ocorreu na manhã da última sexta-feira, 17/04, quando assumiu formalmente o cargo.

De lá para cá, apesar das cerca de mil mortes, do avanço contínuo dos diagnósticos positivos para COVID-19, do colapso do sistema de atendimento médico em várias capitais brasileiras, especialmente no Norte e no Nordeste, e das cenas que circulam na internet de pessoas sendo sepultadas em valas comuns e com o uso de máquinas de obras do tipo pá carregadeira, o que foi feito pelo novo Ministro da Saúde? (mais…)

Um dever moral: ficar em casa neste momento

Entendo que estes últimos – os que podem ficar em casa – não somente podem, mas devem, têm a obrigação de ficar!

Por Julio Gomes.

Cada pessoa tem suas singularidades e vive de acordo com condições concretas que dependem de sua posição social, de suas possibilidades econômicas, de seu grau de escolaridade, de sua formação cultural e de outros fatores, que se aglutinam para formar aquilo que vulgarmente enxergamos como sendo os elementos que compõem a personalidade.

Todos nós também temos valores e crenças que, embora não consigam mais ser absolutos em um mundo de tamanhas mutações, devem ser defendidos por nós, sem fundamentalismos, mas por meio de uma atualização constante, raciocinada, crítica, que tenderá a reformá-los, se preciso; ou a confirmá-los e consolidá-los, se coerentes.

Neste período de expansão da COVID-19 no Brasil, temos assistido, pela televisão e por outros meios de comunicação, aos apelos de diversos profissionais para que fiquemos em casa: são trabalhadores da área de saúde, de segurança, de transportes, de infraestrutura e logística; são militares e técnicos da área civil que nos pedem, sob forte emoção, para que fiquemos em casa, de modo a não permitir que a pressão de trabalho sobre eles se torne insuportável e acarrete ainda mais risco às suas atividades e às suas vidas, o que ocorre de forma mais dramática com aqueles que trabalham em hospitais.

Quem tem algum profissional de saúde como parente próximo sabe, nesse momento e de forma ainda mais contundente, a extensão e gravidade do que estamos falando. (mais…)

Presidente, vai cair no colo de quem?

Como estão em jogo, no mínimo, dezenas de milhares de vidas humanas, o que realmente importa neste momento é minimizar ao máximo o número de óbitos, pois diante da morte, da perda de um ente querido – ou da própria vida – torna-se não sem importância, mas inteiramente secundário saber de quem foi a culpa.

Por Julio Gomes.

Durante a recente cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde, Nelson Teich, na qual se encontrava presente o Presidente da República, ao discursar neste evento e falando acerca da defesa que sempre fez de reabertura imediata do comércio e do retorno de todas as atividades econômicas, Bolsonaro afirmou que “é um risco que eu corro, porque se agravar, vem pro meu colo”.

O que se deve entender por vir para o meu colo, para qualquer pessoa que tenha um mínimo de capacidade interpretativa, quer dizer que tanto os acertos quanto os erros resultantes da reabertura do comércio deverão ser lançados na conta do Presidente, que assim se coloca no centro absoluto do debate, com se as vidas que podem ser perdidas fossem secundárias, ou mesmo desprovidas de importância.

Vamos, então, averiguar quais seriam as consequências passíveis deste cair no colo do Presidente.

Caso o Bolsonaro esteja correto, e a reabertura do comércio ocorra com um baixo número de mortes – e só Deus sabe o que isto significa na cabeça dele, porque somente até a manhã do dia 20 de abril já temos 2.484 óbitos oficialmente causados pela COVID-19 – a economia estaria “salva” e ele colheria os dividendos políticos positivos.

Ao revés, caso Bolsonaro esteja errado e a abertura do comércio nesta hora venha a causar muitos milhares de mortes – algo que pode chegar a um número inimaginável de perdas humanas – a “culpa” também recairia sobre o Presidente.

Ora, em primeiro lugar, mostra-se tremendamente equivocado este enfoque de reduzir a luta contra a COVID-19 a uma opção pessoal do Presidente, porque a responsabilidade de quem governa vai muito além disso: passa por escutar os técnicos da área de saúde; por pautar-se por seguir orientações científicas; por mobilizar a sociedade civil (empresas, ONGs, instituições diversas) nesta luta; por articular-se com governadores e prefeitos para ações conjuntas; por dar condições aos profissionais de serviços essenciais para que tenham segurança para trabalhar; por prover de alimentos todos aqueles que não têm como se manter; por comprar respiradores, EPIs, medicamentos e testes; por instalar hospitais de campanha e providenciar pessoal capaz de fazê-los funcionar, e tudo isso vai muito, muito além do que seria uma opção pessoal do Presidente. (mais…)

As perdas pela Covid-19 começam a doer mais perto: o sentimento pela morte do desenhista e criador de personagens infantis Daniel Azulay

O entusiasmo de Daniel Azulay me encantava, sem dúvidas!

Por Julio Gomes.

Não, eu não era mais uma criança. Decerto que ainda bem jovem, na adolescência, porém já naquela fase em que buscamos nos divorciar das coisas da infância, que de um momento para outro ficaram incompreensivelmente chatas, infantis demais, desinteressantes. Adentrava naquela fase em que passamos a buscar com ânsia as coisas do mundo adulto, como namorar, estudar com vistas a ter uma profissão e pensar em adquirir as coisas com nossos próprios recursos.

Entretanto, vez por outra, por acidente ou exiguidade de opções, eu sintonizava a televisão, que naquela época oferecia bem poucos canais mesmo em uma cidade grande como o Rio de Janeiro, fazendo-o no programa de Daniel Azulay, voltado primordialmente para crianças de menor idade – ou para os aficionados por desenhos – onde ele se apresentava com gravata borboleta, óculos e paletó muito coloridos, mostrando seus personagens bem infantis, seu talento para criar formas e aplicar cores vivas, e o principal: a alegria inesgotável com que desenhava, pintava, falava com as crianças e sorria feliz, levando felicidade a muitos milhares de crianças de todas as idades.

Causava-me, aquilo, uma sensação estranha, porque eu não gostava nem tinha vocação para desenho, nem para nada daquilo. Era um limitadíssimo desenhista. Também não gostava mais de programas infantis. Nunca fui ligado em artes plásticas, nem em trabalhar com crianças. Enfim, nada havia no programa de Daniel Azulay que pudesse me prender àquela altura de minha vida.

Mas o programa dele me enfeitiçava! Ficava a observar, parado, sem ação, aquelas brincadeiras, aquele jeito alegre voltado para os primeiros anos da infância, a alegria inocente que depois desapareceria, no absurdo processo de “adultização” e mesmo de erotização a que as crianças seriam submetidas nos anos seguintes. (mais…)

Ciência x Política

Se Mandetta vier a sair do comando do Ministério da Saúde, será uma derrota da Ciência, da responsabilidade, da técnica, e talvez mais um mergulho na insensatez de consequências criminosas que o Presidente da República e alguns de seus Ministros têm protagonizado, da pior forma possível.

Por Julio Gomes.

Faz-se necessário atentarmos para os rumos que o debate, e sobretudo as decisões acerca do combater à expansão do Corona Vírus e da COVID-19, estão tomando em nosso país.

Enquanto em todos os lugares do mundo estão prevalecendo, desde o início ou mesmo um pouco mais tarde, como ocorreu na Itália e nos Estados Unidos, os caminhos indicados pela pesquisa científica, pelos avanços técnicos de que já dispomos, pelas duríssimas lições em tempo real que a COVID-19 dá todos os dias com milhares de mortes, aqui no Brasil o combate à pandemia se tornou uma questão eminentemente política, com o viés mais negativo que este enfoque possa oferecer.

Vemos de um lado as pessoas identificadas com o bolsonarismo defenderem, com ardor messiânico, fundamentalista, as afirmações desprovidas de bases científicas e técnicas que o Presidente repete incansavelmente e, sobretudo, protagoniza, exemplificando-as de forma deprimente ao andar pelas ruas sem máscara de proteção, tirando selfies, apertando mãos e causando aglomerações, em total confronto com tudo aquilo que as autoridades de Saúde Pública do Brasil e do mundo inteiro indicam que deveria ser feito.

Por outro lado, pessoas de caráter mais progressista, ou simplesmente mais esclarecidas, defendem também com ardor a necessidade de copiarmos o isolamento que está sendo feito na Espanha, na Itália, na Inglaterra, nos EUA e em outros países, para tentar impedir que ocorra nas terras brasileiras a catástrofe que se abateu sobre aqueles países.

Esta divergência de posições fica ainda mais evidente quando vemos todos os dias, pela televisão, as atitudes do Presidente em contraposição direta a tudo aquilo que seu Ministro da Saúde indica como sendo a conduta correta e mais do que necessária neste momento. (mais…)

Alimentação em tempos de covid-19: algumas reflexões

Nestes tempos em que estamos confinados em casa, gastamos menos energia do que quando trabalhamos ou estudamos normalmente. Por isso, coma sem excessos e, se possível, faça uma alimentação mais leve. Isso deverá fazer você se sentir melhor

Por Julio Gomes.

Todos sabem das restrições à circulação de pessoas e quanto às recomendações referentes a isolamento que as autoridades sanitárias têm feito para contenção do avanço da pandemia de Corona Vírus.

Também são vinculadas, por meio de diversas mídias, recomendações quanto à higienização das mãos, de objetos amplo manuseio e de uso pessoal como maçanetas, celulares máscaras de proteção e outros.

Há, porém, algumas reflexões que podem ser propostas com relação à alimentação nesta conjuntura, o que ouso fazer, baseado sobretudo em minha realidade e vivência pessoal, que é a de quem – graças ao bom Deus – dispõe de recursos para se alimentar adequadamente e procura fazer uma alimentação saudável.

Vamos às dicas:

– Nestes tempos em que estamos confinados em casa, gastamos menos energia do que quando trabalhamos ou estudamos normalmente. Por isso, coma sem excessos e, se possível, faça uma alimentação mais leve. Isso deverá fazer você se sentir melhor;

– Se você é adepto de frutas, verduras e legumes frescos, agora mais do que nunca os higienize adequadamente, fazendo imersão destes alimentos em uma solução de uma colher de sopa de água sanitária diluída para cada litro de água, e deixando-os ali por algum tempo; (mais…)

O que a luta dos ThunderCats contra Mumm-Ra tem a nos explicar sobre os embates entre Mandetta e Bolsonaro?

O problema é que no meio dessa luta entre os ThunderCats e Mumm-Ra existe uma legião cada vez maior de despossuídos e desesperançados. São milhares de brasileiros(as) para os quais a esperança virou um grito sem eco.

Por Caio Pinheiro.

Já não sei mais se devo odiar ou amar Bolsonaro. Explico! Nesses dias de quarentena, quando minha obsessão pela pátria foi potencializada, o mito e sua estupidez calculada acionaram lembranças desencadeadoras de sentimentos paradoxais.  Na verdade, sei lá o porquê, comecei a associar o presidente-mito a alguns personagens malignos dos desenhos animados que adorava na infância. Hoje resolvi rememorar dos ThunderCats e seu arqui-inimigo, um ser do mal chamado Mumm-Ra, “o rei de vida eterna”. Mas o que tem alhos com bugalhos?

Seguindo o roteiro comum das animações, os ThunderCats falavam de valores hoje muito caros: amizade, solidariedade, obstinação, bom-senso, superação e empatia. Não era possível perceber nos episódios uma ordem hierárquica (níveis de importância) entre esses valores, mas, no conjunto, todos acabavam remetendo ao ideal de um mundo mais inclusivo e justo.

Lion-O e os ThunderCats Cheetara, Panthro, Tygra, WilyKit, WilyKat e Snarf lutavam para proteger o “Olho de Thundera” – fonte de poder dos ThunderCats – que se encontrava incrustado na empunhadura da “espada justiceira”. A principal ameaça era Mumm-Ra, que, contando com o apoio dos mutantes, queria tornar-se senhor absoluto do “Terceiro Mundo”. O egoísmo e a frouxidão das suas convicções, sempre adequadas às conveniências, faziam desse personagem uma criatura odienta.

Transpondo-me para nosso mundo, que, nessa altura, mais parece uma realidade ficcionada, a marcha dos despautérios presidenciais autoriza-me a apelidar Bolsonaro de “BolsoMumm-Ra”. Recorrendo à comparação, penso que Luiz Henrique Mandetta (ministro da saúde), sua equipe e milhões de brasileiros compromissados com o enfretamento da Covid-19 fundamentados em evidências científicas, podem ser comparados aos ThunderCats. No lado sombrio, BolsoMumm-Ra, amante do mal, lança mão da hipnose retórica para assassinar centenas de vidas nesse cantinho do “Terceiro Mundo” não ficcional. (mais…)

Se quiser siga o exemplo, mas depois não reclame

Não seja progressista nem conservador, nem Vasco nem Flamengo, nem ateu ou crédulo nesta hora, mas apenas responda usando a inteligência: Você tem à sua disposição a estrutura de atendimento médico-hospitalar que Jair Bolsonaro tem à disposição dele?

Por: Julio Gomes

Aconteceu novamente, na quinta e na sexta-feira desta semana: o Presidente Jair Bolsonaro voltou a circular pelas ruas de Brasília, sem máscaras, abraçando pessoas, apertando mãos e tirando selfies, sem manter nenhum tipo d

e distanciamento em relação a comerciários, a apoiadores e a seu próprio staff. Como se não bastasse, ainda se alimentou no balcão de uma padaria onde esteve na sexta-feira Santa, contrariando frontalmente as normas sanitárias locais, que só permitem a venda, mas não o consumo de alimentos em panificadoras e estabelecimentos congêneres.

Para pessoas mais atentas que assistiram as imagens deste fato no Jornal Nacional que foi exibido na noite de sexta-feira, não passou despercebido que ontem pela manhã o Presidente também esteve no HFA – Hospital das Forças Armadas, situado em Brasília.

Perguntado por repórteres sobre o motivo de sua ida ao Hospital, que não estava prevista em sua agenda oficial, Bolsonaro respondeu que foi fazer “teste de gravidez”, conforme amplamente noticiado ontem por órgãos de imprensa através de sites como www.jornaldebrasilia.com.br, www.brasil247.com e www.metrojornal.com.br, sempre com a atitude grosseira e debochada que o caracteriza.

Nosso Presidente já fez – e continua fazendo – tudo o que está ao seu alcance para que a política de isolamento social para conter a disseminação da COVID-19 fracasse. Tentou veicular propagandas na TV, mas o STF – Supremo Tribunal Federal impediu a veiculação; tentou demitir o Ministro da Saúde, mas a ala militar do governo se impôs e o desautorizou; tentou usar a popularidade que ainda possui para mobilizar a população contra o isolamento, mas foi rechaçado por panelaços durante vários pronunciamentos. (mais…)

Monarca, mito, besta-fera e vingador: o que a “Caverna do dragão” nos diz de Bolsonaro?

Na contramão da maioria dos líderes mundiais, o mito coloca-se acima das autoridades científicas. Em tom profético, insiste que a Covid-19 – doença que já ceifou milhões de vidas mundo afora – no Brasil se manifesta na forma de pequenos surtos gripais.

Por Caio Pinheiro.

À semelhança de Luís XIV, monarca francês que verbalizou “O Estado sou eu”, marcando o caráter absolutista do seu reinado, onde todas as garantias individuais foram suprimidas por um governo autocrático, despótico e teocrático, Bolsonaro, até aqui presidente da República, também tenta se afirmar simbolicamente como “monarca absoluto”. Para os amantes da alternância democrática do poder, o “mito” torna-se ameaçador da sucessão democrática, visto que se mostra refratário à transitoriedade do seu cargo. O mito utilizará artifícios para se manter no poder à semelhança da ditadura?

Alguns sinais preocupam. Na contramão da maioria dos líderes mundiais, o mito coloca-se acima das autoridades científicas. Em tom profético, insiste que a Covid-19 – doença que já ceifou milhões de vidas mundo afora – no Brasil se manifesta na forma de pequenos surtos gripais. Para sustentar mais esse absurdo, apoia-se na tese pseudocientífica da “natural imunidade” dos brasileiros. Daí sentenciar que “o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajuda a não proliferar isso daí”.

Pelo andar da carruagem, eu, simples mortal, começo a especular que o coronavírus é um ser extraterrestre com poderes de invisibilidade, e Bolsonaro, depois de ter sido abduzido, voltou à terra tendo como tarefa comandar uma invasão alienígena, que, pelo quadro, objetiva liquidar a espécie humana. Mas calma, não se assuste, apenas estou tentando acompanhar o modus operandi do pensamento bolsonarista. Resolvi seguir o conselho do deputado Sargento Isidoro: “para conversar com doido, só outro doido”. Então, interessado em entender o mito, ao mesmo momentaneamente, me dei o direito de ser doido. (mais…)

O ministro da saúde permaneceu no cargo. O que isso nos mostra?

É importante ressaltar este aspecto expresso em torno do episódio de Mandetta porque ele não mostra uma dicotomia entre progressistas e conservadores, nem entre direita e esquerda, nem mesmo do grupo partidário A contra o grupo partidário B, algo que é normal na vida política. Vai muito além disso.

Por Julio Gomes.
Todo o Brasil acompanhou, no dia de ontem, com imensa expectativa, o desenrolar da crise deflagrada em torno da possível exoneração do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, possibilidade que vinha sendo ventilada pelo Presidente Bolsonaro desde a semana passada, e com mais intensidade ainda nos últimos dias.
Na segunda-feira pela manhã, houve um quase anúncio da exoneração do Ministro da Saúde, e faltou unicamente a publicação da mesma no Diário Oficial da União para que ela se concretizasse.

Entretanto, devido a fortes resistências de diversos setores da institucionalidade e da sociedade brasileira, Mandetta se manteve no cargo, e Bolsonaro se viu obrigado a recuar a esse respeito.

Manifestaram-se a favor da permanência do Ministro da Saúde, de forma clara e direta – como raramente se vê na vida política – setores como o Congresso Nacional, por meio dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado; o Supremo Tribunal Federal, por intermédio de dois de seus Ministros; e também as principais associações médicas e científicas de todo o Brasil, além de inúmeros outros setores importantes da sociedade.

Também não passou despercebida, especialmente para os mais atentos, a firme posição dos militares que ocupam altos cargos no governo acerca da permanência de Mandetta, expressa entre outros pelo Ministro Chefe da Casa Civil, General Braga Netto, atual homem forte do Governo. Sobre a coesão dos militares em torno desta posição, também é significativo que, ao final da tarde de ontem, tenha sido o Vice-Presidente General Mourão quem tenha anunciado, publica e formalmente, a permanência do Ministro da Saúde em sua pasta. (mais…)

A pandemia do coronavirus e a epidemia de feminicídio: precisamos falar de autocuidado!

Posto dessa forma, a quarentena me chamou à reflexão. Na verdade, o isolamento social nos impôs a imersão em dimensões até aqui esquecidas. Refiro-me a ter de enxergar aquilo que só via. Enxergar-me.

Por Nicole Rodrigues Vieira.

Sabemos que variadas são e serão as consequências da Covid-19. Sem dúvidas, implicações sanitárias, econômicas e políticas têm sido noticiadas com destaque pela grande mídia. Contudo, como mulher, devo lembrar que a pandemia criou uma atmosfera propícia ao patriarcado, pois o machismo – com toda carga de subjugação imposta às mulheres – faz com que, nesse momento de isolamento social, os casos de violência contra a mulher tenham aumentado de maneira assustadora. Para usarmos as palavras da filósofa Djamila Ribeira, vivemos associada à pandemia uma “epidemia de feminicídio”.

Em todo o país, verifica-se um aumento das chamadas para o Ligue 180, serviço de denúncias ligado à rede de atendimento à mulher. Foi registrado um aumento de 9% das denúncias de violência contra a mulher em apenas uma semana. Esse dado vai de encontro com os fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo os quais uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre violência física ou sexual, a maioria sendo provocada por parceiro íntimo. Estamos ainda muito longe de um estado de conscientização, até por parte de grande número de mulheres que não sabem, por exemplo, identificar violências e abusos mais sutis ou naturalizados (e não menos graves).

É claro que essa situação exige uma discussão mais aprofundada, principalmente para melhor orientar as medidas protetivas. No entanto, entidades da sociedade civil e o poder público têm se mobilizado contra tal estado de coisas. Exemplo da intransigência observada contra o feminicídio é a campanha “Quarentena Sim! Violência Não”, criada pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). Na mesma toada do judiciário baiano, o Núcleo de Apoio à Mulher do Ministério Público de Pernambuco (NAM/MPPE) lançou a ação “Mulher, você não está sozinha! ”. Somam-se a essas inciativas os canais de denúncias e campanhas em prol da proteção das mulheres vitimadas pela violência. (mais…)

Religião x Ciência

No mundo atual, ciência e religião conseguem conviver bastante bem, mas isto desde que uma continue respeitando o limite da outra, o que depende, talvez, mais de cada um de nós, pessoas comuns, do que dos profissionais das ciências e das religiões.

Por Julio Gomes.

Ao longo da história da humanidade, um dos temas centrais de debates, disputas e fortes controvérsias é a oposição que durante séculos marcou a relação das instituições religiosas, com relação às realizações científicas.

Enquanto a religião se baseia sobretudo na fé, nos sentimentos, naquilo que há de mais subjetivo, a ciência, por seu próprio caráter e por definição, é racional, lógica, e prima pela objetividade.

As características acima explicam, em parte, o porquê de religião e ciência terem sido, durante séculos, antagonistas, inimigas, pois enquanto a fé queria nos conduzir tão-somente pela crença cega, muitas vezes contra fatos do mundo real; a ciência procurava se impor unicamente pelo que os limitados sentidos humanos apreendiam, sem dar chance para aquilo que o sexto sentido, a alma – ou espírito – pudessem manifestar, negando peremptoriamente tudo o que proviesse deste campo.

Durante séculos a Igreja queimou vivos aos pesquisadores acusando-os de bruxaria, assim como àqueles que estudavam fisiologia humana utilizando cadáveres – o que impediu o avanço da medicina durante séculos – e forçou cientistas a abjurarem publicamente suas descobertas científicas, para poderem continuar vivos. (mais…)

Uma conjuntura que nos envergonha

O eleitor é masoquista; gosta de sofrer para ter arrependimento tardio pra se queixar de algo amargo, e de emitir juízos de valores incongruentes, póstumos e inúteis.

Por Mohammad Jamal.

A depender do contexto e da tipologia dos elementos que os denomina assim; vocês são de fato uns chatos de galocha, umas malas mesmo. Ainda bem; digo eu!

Como eleitor, sinto-me refém duma etnia cujos princípios ideológicos e morais aberrantes, nos ofendem e agridem, enquanto paralelamente nos convertem em coniventes involuntários e apoiadores inescapáveis de suseranos que deliquem sobre a ética coletiva, como se esta não existisse. A lei nos obriga a escolher entre mercadorias que sequer passaram por um rudimentar “controle de qualidade”. E o que é pior: de produção maciça e em cadeia sucessória interminável, como cupins vorazes.

Vocês são chatos sim! Muito chatos! Quem lhes manda ou orienta serem cidadãos moralmente limpos, honestos, irreprováveis? Seus chatos. Vocês ainda não entenderam “o espírito da coisa” e vão assim, neófitos, na maior, imiscuindo-se nesse lodaçal da política sem terem lido a “cartilha da expertise dirigida” ou adquirirem anticorpos contra vaias, apupos, censura pública, repúdio, escárnio moral, ódio, aversão…

Seus chatos. Pensam que o Nada Consta, as Cartas de Créditos, os Certificados Irrestritos que lhes asseguram e atestam idoneidade moral, ética e honradez comprovadas a público e em Cartórios, vai torná-los da noite para o dia em “queridinhos do povo” junto com essa imprensa tendenciosa com o caixa quebrado? Pois sim! Falta o principal: a malemolência da expertise e aquele papo furado que assegura riqueza, prosperidade e fartura ao povão! “Ate carros de luxo, importados, vocês poderão comprar!”. Contraditoriamente, à atualidade financeira do trabalhador ficou difícil comprar a mistura e o ovo baratinho. Imagina! (mais…)

Até onde vai nosso direito de sair?

Ao ficarmos em casa, além de nos protegermos, protegemos também nossos familiares, pois não traremos para dentro de nossas moradas a chance de contágio de uma enfermidade que pode ser fatal.

Por Julio Gomes.

Neste momento grave de avanço do Corona Vírus no Brasil e no mundo, temos nos deparado com situações completamente inusitadas, inimagináveis até um mês atrás, e que mudaram substancialmente nossas rotinas e nossas vidas.

Aqui no Brasil, uma das alterações mais perceptíveis em nosso cotidiano é a recomendação para ficarmos em casa, feita pelo Ministério da Saúde, pela OMS – Organização Mundial de Saúde e por todas as autoridades sanitárias, reforçada pelos governadores dos estados e constantemente massificada pela mídia.

De fato, para pessoas comuns como eu e você, que não temos poderes de Estado nem poder econômico ou político, ficar em casa parece ser, neste momento, a única coisa que podemos fazer para contribuir no combate ao avanço do vírus, de forma a impedir ou, ao menos, retardar o adoecimento das pessoas, sobretudo para diminuir o impacto no sistema de saúde, que não é capaz de cuidar de milhares de pessoas ao mesmo tempo, pois há um limite em sua capacidade de atendimento.

A grande maioria de nós não trabalha na área de saúde, não é policial, não trabalha em serviços essenciais, assim definidos através de leis e decretos. Estes podem até trabalhar com restrições, cautelas, proteções individuais ou em sistema de rodízio, mas não podem parar totalmente, e têm de enfrentar o risco de uma eventual contaminação, de forma mais direta.

Entretanto, nós outros, que podemos permanecer no lar, que podemos trabalhar em regime de home office, que não temos obrigações urgentes, que temos alimentos para sobreviver neste período, não só podemos como devemos ficar em casa. (mais…)